Cartel mexicano propõe pacto para depor armas

La Familia, famoso por decapitar suas vítimas, assume discurso político e lança desafio ao governo para selar 'acordo de paz'

REUTERS, AP e AFP, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

MORELIA, MÉXICO

Um dos mais sanguinários cartéis mexicanos, o La Familia - responsável por centenas de assassinatos, atentados, casos de tortura e decapitações - lançou ontem um desafio ao governo do presidente Felipe Calderón: o cartel se dissolve, desde que as autoridades assumam a segurança no Estado de Michoacán com "fortaleza e decisão".

A inusitada proposta amanheceu estampada em cartazes espalhados pelo Estado do oeste mexicano e também foi difundida por e-mails e panfletos. Embora todos os meios de comunicação de Michoacán tenham recebido o texto, apenas um jornal na capital, Morelia, o publicou. O La Familia é um dos sete cartéis narcotraficantes que atuam no México, responsável pela produção e por grande parte do tráfico de anfetaminas para os Estados Unidos. O governo mexicano disse não saber se a mensagem é autêntica, mas descartou imediatamente a possibilidade de qualquer pacto com os criminosos.

"Se o governo aceita publicamente e cumpre esse compromisso, o La Familia de Michoacán se dissolverá", diz o texto. Mas o secretário executivo do Sistema Nacional de Segurança Pública, Juan Miguel Alcántra, disse ao jornal mexicano La Reforma que o comunicado "não tem consistência ou congruência nos fatos reais".

O cartel afirma que nasceu para proteger a população das ameaças de outros cartéis e, posteriormente, converteu-se num grupo criminoso com "doses incríveis de sofisticação e brutalidade", segundo o FBI, a polícia federal dos EUA, que há um ano capturou mais de 300 supostos membros do La Familia em território americano.

Paradoxalmente, o grupo criminoso professa uma ideologia religiosa que proíbe seus integrantes de consumir drogas e defende que suas vítimas - como um grupo de 18 policiais executados em junho e outros tantos decapitados no passado - morrem por "violência divina". No ano passado, um dos líderes do cartel, Servando Gómez, conhecido como La Tuta, foi à TV propor um "pacto nacional" com o presidente Calderón.

Em seu "estatuto" de fundação, o cartel diz ser formado por "homens e mulheres de Michoacán prontos para dar suas vidas em defesa do Estado contra gangues externas, que, por meio do terror e da violência, ameaçam tomar conta não apenas de Michoacán, mas de todo o México".

Abusos. A oferta de ontem teria sido motivada pelas várias operações policiais e militares realizadas por forças do governo que terminaram em violações dos direitos humanos. Desde sua fundação, o La Familia tenta se apresentar como defensor dos civis.

Mas analistas que acompanham o crime organizado e as ações do Estado nesta área dizem que a oferta do cartel pode ter uma motivação bem menos altruísta. "Esta pode ser uma forma de negociar a saída do cartel La Familia de um negócio que está passando por um mal momento, sem que essa retirada tenha grandes custos para o cartel", disse Jorge Chabat, do Centro de Pesquisa e Ensino em Economia.

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