Carter alerta para "conseqüências catastróficas" da guerra

O ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter, ao receber hoje o Prêmio Nobel da Paz, declarou que uma guerra preventiva contra o Iraque teria ?conseqüências catastróficas?. ?Devemos nos lembrar?, disse, ?que hoje existem pelo menos oito potências nucleares sobre a Terra, e que pelo menos três delas ameaçam seus vizinhos, em regiões onde as tensões internacionais são fortes?. O Nobel foi entregue a Carter às 12h30 (GMT) - 10h30, no horário brasileiro de verão - na capital da Noruega. Na cerimônia solene, com música e flores, Carter aceitou a medalha de ouro e o diploma do Nobel. O prêmio também inclui US$ 1,1 milhão. Exibindo um largo sorriso, Carter permaneceu apenas brevemente no palco, mostrando a medalha de ouro e o diploma do Nobel, recebendo um longo aplauso. Sua mulher, Rosalynn, acompanhou a cerimônia na primeira fileira de poltronas, com seus filhos e netos. Ele foi homenageado por sua busca pela paz, saúde e direitos humanos, que começou com os acordos de Camp David de 1978, entre Israel e Egito. Apenas por uma questão de formalidade, os acordos de Camp David não lhe proporcionaram o Prêmio Nobel da Paz 24 anos atrás. Carter aceitou seu prêmio num mundo tenso pela ameaça do terrorismo, e apreensivo com o fato de que possa eclodir uma nova guerra no Iraque, caso o país não obedeça as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, que exigem que o Iraque prove não dispor de armas de destruição em massa. "Ao invés de entrar em um milênio de paz, o mundo está agora mais perigoso, em muitos aspectos. A maior facilidade das viagens e das comunicações não foi acompanhada da compreensão e do respeito mútuo", afirmou. O ex-presidente (entre 1977 e 1981), de 78 anos, disse que ?é claro que os desafios globais devem ser tratados com ênfase na paz, na harmonia com os outros e um consenso internacional?. Carter, um democrata, exortou repetidas vezes o presidente dos EUA, George Bush, a evitar a guerra no Iraque por meio de um trabalho junto às Nações Unidas, e a apoiar as inspeções de armamentos. Antes de entrar no prédio da prefeitura de Oslo, Carter foi saudado por quase 2 mil crianças norueguesas que estavam celebrando a paz sob o sol invernal da capital norueguesa, coberta de neve. "A Noruega é um país que gosta muito de suas crianças, e quero cumprimentar este país e todos vocês", disse Carter às crianças. Em seu discurso durante a cerimônia, diante do rei norueguês Harald V, e centenas de outras autoridades, o ex-presidente expôs uma visão mais abrangente a respeito da premiação. "Às vezes a guerra pode ser um mal necessário. Mas não importa o quanto ela seja necessária, será sempre um mal, nunca um bem. Não vamos aprender a viver em paz juntos matando as nossas crianças e as dos outros." Ele pediu respeito às Nações Unidas, como o fórum internacional para a solução de conflitos, e disse que os Estados Unidos, como a última grande potência, "não assumiram que a superforça garante a supersabedoria". Gunnar Berge, presidente do comitê de cinco membros que escolhe os prêmios noruegueses, provocou furor quando anunciou o prêmio em outubro, chamando-o de um "pontapé na perna" para o presidente dos EUA, George W. Bush. Em seu discurso hoje, Berge afirmou ser "um dos verdadeiros pecados da omissão" que Carter não tenha sido incluído entre os laureados do Prêmio Nobel da Paz de 1978. Naquele ano, o prêmio foi concedido ao então primeiro-ministro israelense, Menachen Begin, e ao então presidente do Egito, Anwar Sadat, por terem assinado o acordo de paz de Camp David. Carter foi o mediador do acordo. "Com certeza, Jimmy Carter deveria ter sido incluído entre os laureados do Prêmio Nobel da Paz há muito tempo", afirmou Berge. Carter não foi indicado para o prêmio na época. "Provavelmente, Jimmy Carter não entrará para a história norte-americana como o presidente mais eficaz", declarou Berge. "Mas certamente é o melhor ex-presidente que os Estados Unidos já tiveram." Carter, de terno preto e gravata vermelha, escutou o discurso de Berge com fones de ouvido, sorrindo com freqüência. Carter mencionou Begin e Sadat como pessoas que lembram a coragem pessoal, como também outros laureados, incluindo o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1964, o ativista de direitos civis Martin Luther King, natural de seu Estado natal, a Geórgia. "Ele é o maior líder que meu Estado natal já produziu", disse Carter. O prêmio Nobel, concedido pela primeira vez em 1901, foi criado pelo industrial sueco Alfred Nobel em seu testamento, e sempre foi outorgado no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Nobel, em 1896.

Agencia Estado,

10 Dezembro 2002 | 15h14

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