Carter vai a Cuba 22 anos após crise que ajudou a derrotá-lo

Ao largo desta cidade portuária e industrial a oeste de Havana, cargueiros deslizam preguiçosamente nas águas calmas e reluzentes da Baía Mariel, local de uma crise de política exterior que contribuiu para afundar a presidência de Jimmy Carter. Vinte e dois anos atrás, este trecho de água foi tumultuado pela atividade de barcaças, iates, lanchas, pesqueiros de camarão - quase tudo que flutuasse -, que congestionaram a baía, quando exilados cubanos chegaram dos Estados Unidos para recolher pessoas queridas, num êxodo caótico que ficou conhecido como Ponte Marítima de Mariel. Carter, que viaja a Cuba no domingo a convite do presidente Fidel Castro, disse, em maio de 1980, que cubanos que partissem deste porto seriam recebidos nos EUA de "corações e braços abertos". Isso foi logo depois de Castro abrir o porto em abril de 1980, para qualquer pessoa que quisesse partir. Poucas semanas depois, Carter mandou barrar a "flotilha da liberdade", pois os EUA eram sobrecarregados pela chegada, em média, de mil pessoas por dia. Quando Castro ordenou o fechamento do porto naquele setembro, 125 mil cubanos haviam chegado aos EUA, incluindo dezenas de milhares de dissidentes, criminosos e pessoas com doenças mentais. O êxodo de Mariel - aliado à crise dos reféns americanos no Irã, a uma crise energética e à disparada da inflação nos EUA - ajudou Ronald Reagan a derrotar Carter na eleição de 1980. "Castro finalmente percebeu que estava ajudando Reagan a se eleger, mas era tarde demais", lembrou Wayne Smith, então diplomata americano de alto escalão em Havana. Enraizada, a princípio, numa série de seqüestros de embarcações que começou no outono de 1979, a crise cubana, causada por pessoas que queriam partir, atingiu o auge em 1º de abril de 1980, quando seis pessoas arremessaram um ônibus contra o portão da embaixada do Peru em Havana. Guardas cubanos se retiraram e mais de 10 mil cubanos inundaram o interior da delegação diplomática. Poucas semanas depois, Castro declarou que Mariel estava aberto a todos os que quisessem partir de Cuba. Enquanto contribuía para impedir a reeleição de Carter, a crise de Mariel embaraçava o governo cubano, por causa do grande número de pessoas que partiam. Na vez anterior em que Castro abrira um porto, Camarioca, em 1965, cerca de 5 mil cubanos fugiram para a Flórida. Ainda assim, Castro transformou o êxodo de Mariel numa grande dor de cabeça para os EUA, ao usá-lo para livrar seu país de dissidentes, criminosos e outros que ele classificava de "indesejáveis" e "vermes". A embaixada foi depois transformada em museu, festejando as marchas antiamericanas que o governo de Cuba organizou na ocasião. O prédio foi demolido em anos recentes, para dar lugar a um hotel turístico francês. O governo dos EUA gastou centenas de milhões de dólares para reassentar os recém-chegados, durante uma profunda recessão econômica. Distúrbios em centros de detenção e ondas de crimes atribuídos a uma minoria de "marielitos" (cubanos que partiam de Mariel para os EUA) com passagem pela polícia provocaram preconceitos. Para Carter, foi o fim decepcionante de um mandato de quatro anos durante o qual ele tentou normalizar as relações cubano-americanas. Antes, o governo Carter havia revogado restrições a viagens de americanos a Cuba, bem como a proibição de gastar dinheiro na ilha. Pela primeira vez desde a revolução de 1959, cubano-americanos puderam visitar parentes em Cuba e mandar-lhes dinheiro. Carter ajudou a instalar seções de interesses em Washington e Havana para tratar de assuntos consulares e abrir canais de comunicação, à falta de relações diplomáticas plenas, que haviam sido rompidas em 3 de janeiro de 1961. Também promoveu um programa que reuniu 75 funcionários cubano-americanos e do governo cubano para negociações que levaram à soltura de mais de 3 mil presos políticos. O avanço de Carter rumo à normalização dos laços com Cuba foi revogado pelo governo Reagan, que endureceu as sanções comerciais dos EUA, proibiu turistas americanos de visitar a ilha e incentivou países aliados a limitar negócios com o país comunista. A administração Reagan retomou os vôos de espionagem sobre a ilha; invadiu Granada, principal aliado de Cuba no Caribe; e lançou a Rádio Marti, a emissora do governo americano dirigida para ouvintes cubanos. Mas Carter e Castro continuaram mantendo contatos esporádicos ao longo dos anos, e o presidente cubano até telefonou para seu ex-colega americano consultando-o durante uma crise de migração, em 1994. Carter nunca revelou publicamente detalhes da conversa, mas repassou-os ao então presidente Bill Clinton. Em 1995, Carter manteve conversações em separado com exilados cubanos e funcionários de alto escalão do governo de Cuba, na esperança de melhorar as relações entre os dois lados. Carter disse recentemente esperar que sua visita ensine lições sobre o passado. "É uma chance de examinar questões de interesse mútuo de nossos cidadãos", disse ele no mês passado, "e trocar idéias sobre os meios de melhorar o relacionamento entre os EUA e Cuba."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.