Cartes busca recolocar 'PRI paraguaio' no poder

Após controlar a política do Paraguai por mais de seis décadas, Partido Colorado tem, com empresário, grande chance de retomar a presidência

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL , CAACUPÉ, PARAGUAI, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2013 | 02h09

Apesar do sofisticado sistema de som, o candidato presidencial Horacio Cartes não tinha a menor chance diante da gritaria da multidão que foi ouvi-lo na terça-feira, tarde da noite, em seu encerramento de campanha no Departamento de Cordillera, centro-sul do Paraguai.

Saudoso do poder, onde permaneceu por mais de seis décadas até 2008, o Partido Colorado tenta dar demonstrações de força popular nos últimos dias da campanha, evocando até a memória do ditador Alfredo Stroessner para mobilizar eleitores "contra essa corrupção toda que domina agora o Paraguai", segundo as palavras de Cartes.

Em Caacupé, capital de Cordillera, o candidato colorado só falava quando o mar de gente - dezenas de milhares de pessoas, quase todas de vermelho, a cor do partido - permitia. Às vezes, desistia e começava a conversar pelo microfone, de cima do palanque, com militantes que estavam nas primeiras filas. "Veja essa senhora, minha gente", disse, apontando para Susana Orellana, de 67 anos, que se espremia na grade para vê-lo. Com a brecha de silêncio, aproveitava para falar do respeito aos idosos. "Eu cuido muito da minha mãe, mas nem todos têm amparo", pontificou o candidato. Susana, ao final do comício, dizia sentir falta dos tempos "em que havia paz e cuidado com o povo".

Para retomar o poder, o Partido Colorado decidiu fazer um encerramento de campanha em cada região do Paraguai. A ideia é mostrar como a legenda, a mais organizada do país, quer "ir até o povo e não o contrário", explicam os marqueteiros de Cartes. Na multidão, havia pessoas de várias classes sociais e faixas etárias, incluindo dezenas de membros da juventude local do partido.

Para o sociólogo Luis Ortiz, do Instituto de Ciências Sociais de Assunção, os colorados estão para o Paraguai assim como o Partido Revolucionário Institucional (PRI) está para o México. "Por décadas, ambos foram hegemônicos, clientelistas e suas estruturas se confundiram com as próprias instituições do Estado", afirma. O Partido Colorado não tem pudores em se declarar herdeiro de Stroessner, explica o sociólogo, pois a imagem da ditadura, sobretudo entre os mais pobres, é ainda larga mente favorável.

Entre fotos com partidárias em Caacupé, Mario Abdo Benítez, candidato ao Senado pelo partido, afirma que os colorados já passaram pelo "teste" da alternância de poder, com a ascensão de Fernando Lugo à presidência, em 2008. "Recuperamos a confiança do povo fazendo uma oposição totalmente inspirada no patriotismo. E é bom lembrar que foram os colorados que impulsionaram todos os avanços do Paraguai", completa.

É impossível, porém, prever se Cartes vencerá as eleições do domingo. Embora tenha sido apontado ao longo da campanha como favorito, as pesquisas de intenção de voto no Paraguai não são confiáveis.

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