Casa Branca mudou de tática com o Cairo, mostram telegramas

Era o primeiro encontro de Hillary Clinton como secretária de Estado com o presidente Hosni Mubarak, naquele março de 2009, e os egípcios fizeram um estranho pedido: ela não deveria agradecer a Mubarak pela libertação de um líder da oposição, pois ele estava doente. Na realidade, um telegrama confidencial assinado pela embaixadora americana no Egito, Margaret Scobey, alertara a secretária a evitar mencionar o nome do homem, Ayman Nour, embora sua prisão, em 2005, tivesse sido condenada no mundo inteiro, e principalmente pelo governo George W. Bush.

Cenário: Mark Landler e Andrew D. Lehren, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

O telegrama faz parte de uma série divulgada pelo WikiLeaks, e traça um quadro das delicadas negociações entre os EUA e o Egito, seu mais fiel aliado árabe. Os telegramas mostram em detalhes que os diplomatas manifestaram em repetidas ocasiões suas preocupações às autoridades egípcias sobre a situação de dissidentes e blogueiros presos, e estavam atentos a relatos sobre a prática de tortura pela polícia.

Mas também revelam que as relações com Mubarak tornaram-se mais calorosas, pois o presidente Barack Obama ignorou a tática da delação do governo Bush. Um telegrama enviado por ocasião da visita do general David Petraeus em 2009 dizia que os EUA, embora muito explícitos em particular, agora evitavam "o confronto aberto que se tornara rotina nos últimos anos". Este jogo de equilíbrio entre as pressões privadas e o forte apoio público a Mubarak ultimamente está se tornando cada vez mais tênue. As multidões foram às ruas no Egito, e a Casa Branca, preocupada com a possibilidade de ser identificada com um regime que está sendo alvo de enérgicas críticas, contestou publicamente o presidente.

Na quinta-feira, Obama elogiou Mubarak enquanto parceiro dos EUA, mas falou sobre a necessidade de ele adotar reformas políticas e econômicas. Em uma entrevista postada no YouTube, Obama afirmou que nem a polícia nem os manifestantes deveriam recorrer à violência. "É muito importante que a população disponha de mecanismos para expressar suas legítimas queixas", disse.

Não foi divulgado o que Hillary disse a Mubarak na primeira reunião entre os dois. Mas ela deu o tom das declarações públicas ao ser questionada por um jornalista árabe sobre um relatório do Departamento de Estado que criticava a situação dos direitos humanos no Egito. "Esperamos que o documento seja entendido segundo o espírito com o qual foi redigido, no sentido de que todos temos espaços para aprimorar", disse Hillary, acrescentando que cabia ao povo egípcio decidir sobre o futuro do presidente. / NYT - TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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