Casa Branca não pode ser cooptada por Bibi

Binyamin Bibi Netanyahu, o premiê israelense, ganhou oprimeiro assalto disputado com o presidente Barack Obama. Isso nãoe nada bom para os interesses americanos nem para a segurançade Israel no longo prazo. Todos os exagerados elogios recíprocos não foram capazesde ocultar as tensões evidentes em relação ao Ira, a questãopalestino-israelense e a maneira pela qual ambos estão interligados. No final, Obama cedeu. O presidente aceitou a pressão israelense pelo estabelecimento de um cronograma para quaisquer negociações com o Ira, dizendo que uma ''reavaliação''deve ser possível ate o final do ano.Obama falou na possibilidade de ''sanções internacionaismuito mais fortes'' contra o Ira, enfraquecendo sua propostainicial revolucionaria, que continha uma verdade central:''Esse processo não avançará por meio de ameaças.''Obama também permitiu que Netanyahu o elogiasse por''manter todas as opções em aberto'' - a formula padrão paraum possível ataque militar americano contra o Ira - quandona verdade ele não disse nada parecido comissão.Mas o presidente usou a expressão desgastada em uma entrevista à revista Newsweek neste mes . Outro erro, levando-se em consideração as consequências impensáveis de um terceiro front de batalha americano no mundo islâmico. Em troca, o que Obama conseguiu? Nem mesmo o reconhecimento de Netanyahu em relação ao fato de as negociações terem como meta a criação de um Estado palestino, em vez do eterno limbo atual.Ponto para Netanyahu, descrito por um ex-funcionário doGoverno americano que o conhece bem como ''o tipo de sujeitoque negocia ate mesmo a melhor hora de ir ao banheiro''.REALISMOE hora de injetar certa dose de realismo na negociação, e umadetonação nuclear de múltiplos quilotons na Coreia do Norte pareceter ajudado nesse sentido. O teste serve para nos lembrarque, apesar de o pior já ter ocorrido no Estado isolado de KimJong-il, o mesmo ainda não aconteceu no Ira e pode ser evitadose medidas criativas forem adotadas. Mas isso exigiraque Obama substitua o trejeito simpático de ex-organizador comunitário por fibra estratégica.Três pontos estão claros. O primeiro mostra que caso Obamapermita que os objetivos israelenses para o Ira se tornemtambém os objetivos americanos, seu poder de aproximaçãoe negociação estará morto.Não sei se Israel esta blefando quandofala em bombardear o Ira, mas uma coisa parece certa: abelicosidade de Netanyahu e tao implacável quanto seu desejode distrair as atenções da Palestina natimorta.Netanyahu, declarando ''se nós não o fizermos, ninguém ofará'', disse esta semana que seu trabalho era ''eliminar'' aameaça iraniana. A linha vermelha israelense em relação aoIra, que segue mudando de data e agora se encontra a meses dedistancia, esta em contradição comas informações obtidas peloserviço secreto americano, segundo as quais nenhuma decisãoem relação a produção de bombas foi tomada e a capacidade para tal não será alcançada em menos de dois a cinco anos.É essencial que Obama se a tenha a uma moldura americana capaz de garantir o tempo necessário para superar um impasse que já dura 30 anos. Ele pode lembrar a Netanyahu que se alguém perguntasse cincoanos atras se um Ira detentor de 6 mil centrifugas, mais deuma tonelada de urânio de baixo enriquecimento e um nívelde experiência técnica nuclear saído da lâmpada do gênio estaria ultrapassando a linha vermelha de Israel, a resposta seria: ''Com toda certeza. Mas o mundo não acabou, apesar das perigosastentativas feitas por Netanyahu de mitificar o Ira enquantoencarnação de Amalek, inimigo bíblico dos judeus.O segundo imperativo determina que o jogo das sanções sejadenunciado como farsa vazia que de fato e - não haverá ''sançõesmuito duras'', pois China e Rússia tem interesses no Irã.Apenas um embargo americano teria impacto, mas isso seriaum ato de guerra. Sanções rigorosas equivalem a um retorno àspoliticas estéreis dos anos de George W.Bush. Elas não seriam mais eficazes do que foram contra a Coreia do Norte.O terceiro imperativo pede que Obama passe para um novo pensamento a respeito do Ira, livre das redundâncias da política de recompensas e castigos. Isso deve começar com o orgulho e as inseguranças do Ira. Uma potencia média enfrentando a superpotência mundial. E precisa vislumbrar como resultado final uma opção diferente do zero, na qual o Ira possa manter um programa piloto de enriquecimento de urânio limitado e monitorado, livrando-se da sua retórica inaceitável e da sua atitude desordeira para se tornar parte de um novo arranjo regional de segurança. *Roger Cohen e comentarista e escritor

Roger Cohen*, INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estadao de S.Paulo

29 de maio de 2009 | 00h00

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