Casa Branca tenta afastar diplomata brasileiro

O poder dos Estados Unidos sobre as ações da Organização das Nações Unidas (ONU) nunca foi um segredo entre a comunidade internacional. Mas, nas últimas semanas, o governo George W. Bush tem deixado esse poder bastante claro ao pedir que alguns dos diretores de agências da ONU se demitam por não atenderem aos interesses da Casa Branca.O caso mais escandaloso tem sido o do diretor-geral da Organização para a Proscrição de Armas Químicas (Opaq), o embaixador brasileiro José Maurício Bustani. Gordan Vachon, porta-voz do brasileiro, confirmou à AE que os norte-americanos se aproximaram de Bustani para pedir seu afastamento.Segundo o porta-voz, "a Casa Branca sequer chegou a dar uma explicação" sobre o motivo de seu desejo. Mas, nos corredores da ONU, em Genebra, o principal comentário é de que Bustani teria implementado o seu mandato "ao pé da letra", o que incluía inspeções não apenas nos países "inimigos", mas também nas fábricas químicas nos Estados Unidos.Outro motivo seria o plano dos Estados Unidos de atacar o Iraque, caso fique comprovado que Bagdá estaria produzindo armas químicas, propostas que seriam contrárias às idéias de Bustani.Nesta terça-feira, a Opaq inicia uma reunião em Haia, na Holanda, para tratar do tema. "Ainda estamos buscando uma saída para o problema", afirma Vachon, que lembra que uma série de países já demonstrou apoio a Bustani. Para vários embaixadores do Brasil na Europa, a pressão pode ser considerada como um "escândalo internacional", já que Bustani foi eleito por unanimidade para comandar a Opaq.Mas o caso do embaixador brasileiro não é o único que vem causando indignação na comunidade internacional. Nesta segunda-feira, a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Mary Robinson, deixou claro que não disputará a eleição em meados deste ano para mais um mandato à frente da comissão. O motivo é a oposição que o governo norte-americano faz diante às suas iniciativas, principalmente onde os interesses da Casa Branca são mais evidentes.Mary Robinson, que já ocupou a presidência da Irlanda, tem feito declarações contra a atuação do exército israelense e não poupou críticas à utilização do combate ao terrorismo pelos Estados Unidos como forma de justificar a violação de direitos humanos.Mas, enquanto alguns são "removidos" pelos Estados Unidos, outros recebem sua bênção. É o caso da diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS), Gro Harlem Brundtland, ex-premiê da Noruega. Apesar de receber críticas da maioria dos países em desenvolvimento, a norueguesa tem o amplo apoio da Casa Branca.Brundtland é acusada de não ter tomado uma posição em favor dos países pobres na luta pelo acesso aos remédios contra a Aids. Em Genebra, os comentários são de que os norte-americanos teriam ameaçado cortar a ajuda financeira à organização se a OMS fizesse uma campanha a favor da quebra de patentes em caso de epidemias, o que traria prejuízos às empresas norte-americanas.A ofensiva da Casa Branca está deixando a comunidade internacional assustada. "Washington não pode remover um funcionário internacional todas as vezes que essa pessoa não o agradar", se queixa um diplomata africano. Para outro negociador latino-americano, o próprio sistema internacional corre risco, se todas as decisões tiverem que antes ser acordadas com os interesses norte-americanos.Para especialistas, porém, o problema é que não existe nenhum país atualmente com o poder de frear o poder econômico e militar dos Estados Unidos. "A ONU é apenas um reflexo do sistema internacional de poder", conclui um funcionário da organização.

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