Casa Branca tenta ganhar tempo para preparar retirada do Iraque

Em semana decisiva, comandante militar de Bush busca convencer Congresso de que nova estratégia está funcionando

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2008 | 00h00

Amanhã, o general David Petraeus, comandante das forças americanas no Iraque, e Ryan Crocker, embaixador dos EUA no país, vão argumentar diante de um Congresso cheio de céticos que a nova estratégia de guerra do presidente George W. Bush está funcionando. No início do ano, Bush anunciou que iria mandar mais 30 mil soldados (além dos 130 mil que já estavam lá) para garantir a segurança no Iraque - estratégia conhecida como reforço militar. Agora, o presidente aposta na credibilidade de Petraeus, que assegura que a violência no Iraque diminuiu, para comprar a boa vontade dos congressistas e ganhar tempo. Muitos democratas e alguns republicanos consideram a guerra perdida e exigem um prazo para a retirada das tropas. Na semana passada, até o presidente Bush começou a sinalizar uma redução no número de soldados no Iraque, fato impensável até então. Para o presidente, a retirada seria possível desde que "baseada em uma calma avaliação dos comandantes militares no local e não em cima de reações nervosas de políticos em Washington". Contudo, a redução de tropas que deve ser defendida por Petraeus no Senado será apenas simbólica, o que não seria suficiente para acalmar a oposição. Petraeus tem pela frente a difícil missão de vender o peixe de Bush. Em maio, quando o Congresso concordou em liberar recursos para financiar mais alguns meses da guerra, os legisladores pediram que vários estudos independentes fossem elaborados para avaliar os resultados da nova estratégia.Os estudos que já foram divulgados pintam um retrato péssimo da situação no Iraque. O relatório do Escritório de Responsabilidade do Governo afirma que apenas sete de 18 objetivos determinados pelo Congresso foram atingidos pelo governo iraquiano.Um outro estudo, elaborado por um grupo de militares, apresentado na quinta-feira, afirma que as forças policiais iraquianas não estarão preparadas para atuar sozinhas em menos de 18 meses. Ainda assim, Petraeus aposta em sua estratégia. Além de manter uma quantidade maior de soldados e assumir a responsabilidade de proteger civis iraquianos, em vez de apenas treinar forças do Iraque, os americanos estão agora se aliando a insurgentes sunitas para combater jihadistas da Al-Qaeda no Iraque. E, com isso, segundo Petraeus, a violência está caindo de forma significativa em várias regiões do país. No entanto, há limites para sua estratégia. Mesmo que Bush não queira reduzir o número de tropas, o Exército está esgotado, os soldados estão encarando operações de 15 meses com apenas um ano de descanso e o moral está baixo. Não será possível manter o "reforço militar" por muito tempo. Por outro lado, por mais que alguns queiram, não dá para sair correndo e deixar para trás o caos no Iraque. Uma eventual retirada americana pode deixar um vácuo de poder e abrir caminho para uma guerra civil entre xiitas, sunitas e curdos.Portanto, a retirada não poderá ser feita de forma atabalhoada. Como sugeria o relatório Baker-Hamilton, ignorado pelo presidente Bush, será necessário intensificar negociações diplomáticas com os vizinhos Irã e Síria, que têm muita influência no Iraque. Os EUA já tiveram dois encontros de médio escalão com oficiais iranianos este ano, mas com poucos resultados concretos. "É impossível estabilizar o país sem a colaboração ativa dos países vizinhos", disse James Dobbins, diretor de Segurança Internacional do instituto RAND e vice-secretário de Estado nos governos Bill Clinton e George W. Bush. "Se os EUA não conseguirem a colaboração de Irã e Síria, vão continuar contribuindo para a fragmentação do Iraque", afirmou Dobbins, autor do artigo "Quem perdeu o Iraque", publicado na última edição da revista Foreign Affairs.Outros sugerem uma separação do Iraque em uma zona curda, uma xiita e uma sunita. O problema é que essa divisão não seria assim tranqüila - mais de metade da população iraquiana vive em cidades com mistura de etnias como Bagdá, Basra, Mosul e Kirkuk. Alguns analistas aconselham uma retirada gradual, mantendo parte dos soldados para treinar forças iraquianas e garantir uma transição sem sobressaltos. Porém, também essa opção tem armadilhas. "As propostas de retirada parcial são populares, mas ineficientes", disse Stephen Biddle, do Council of Foreign Relations. "O número de soldados será insuficiente para evitar violência e as baixas não acabarão", acrescentou Biddle.Assim, não há boas opções para os EUA no Iraque. O desafio agora é achar a forma menos ruim de concluir a conflito, já que o objetivo inicial da guerra, fazer do Iraque um exemplo de democracia no Oriente Médio, já não está ao alcance dos americanos.

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