Brendan Smialowski/AFP
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Casa Branca trava batalha com mídias sociais contra desinformação sobre vacinas de covid-19

Governo Biden afirma que gigantes do Vale do Silício prejudicam esforços para superar pandemia ao permitir circulação de informações falsas; Facebook rejeita acusação

Zolan Kanno-Youngs e Cecilia Kang, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 20h00
Atualizado 11 de agosto de 2021 | 20h00

WASHINGTON - Em meados de julho, um comentário do presidente americano, Joe Biden, colocou o Facebook no centro da discussão pública sobre o aumento de casos de covid-19 no país. O líder democrata disse que as redes sociais estavam "matando pessoas" ao permitir que desinformações sobre vacinas fossem publicadas em suas plataformas. Foi o ápice de uma série de reuniões cada vez mais combativas entre a Casa Branca e o titã do Vale do Silício.

Os encontros envolveram funcionários graduados de ambos os lados, afirmaram sob condição de anonimato pessoas próximas do Facebook e do governo americano ao The New York Times. Em março, Mark Zuckerberg, CEO da rede social, ligou para Ron Klain, chefe de Gabinete da Casa Branca, e discutiu a desinformação sobre saúde. Mas a Casa Branca ficou tão frustrada com as respostas da empresa que, a certa altura, exigiu falar com os cientistas de dados da empresa em vez de lobistas.

As conversas entre a Casa Branca e o Facebook continuam. Mas a cisão complicou um relacionamento já tumultuado no momento em que Biden enfrenta um revés na luta contra o coronavírus. A Casa Branca falhou em sua meta de ter 70% dos adultos americanos vacinados com ao menos uma dose até 4 de julho, e a variante Delta, altamente contagiosa, aumentou ainda mais o número de contaminações.

Os EUA registraram em média mais de 110 mil novos casos diários na semana passada, ante cerca de 13 mil no mês anterior. Em resposta, o governo reverteu algumas recomendações de saúde pública, deixando muitos americanos perplexos com exigências como a volta do uso de máscaras, que havia sido suspensa em maio.

A grande maioria dos novos casos acontece entre pessoas não vacinadas. Na quinta-feira, a Casa Branca exortou os pediatras a incorporar a vacinação aos exames físicos esportivos de volta às aulas e incentivou as escolas a abrigar suas próprias clínicas de vacinação. Mas a colaboração próxima com o Facebook, de longe a maior rede social do país, pode ser crucial para superar a hesitação generalizada em relação à vacina e, em última instância, a pandemia.

"Nos envolvemos com o Facebook sobre essa questão desde a transição e deixamos claro para eles quando não cumpriram nossos padrões, ou os deles próprios, e promoveram ativamente em suas plataformas conteúdos que enganam o povo americano’, disse Mike Gwin, um porta-voz da Casa Branca.

O Facebook se opôs fortemente às críticas da Casa Branca, acusando publicamente o governo de usar a empresa como bode expiatório para o fracasso do governo em atingir suas metas de vacinação. Andy Stone, porta-voz da rede social, disse que a Casa Branca não deu à empresa o devido crédito por sua promoção da vacina.

Ele disse que a rede social está trabalhando com a Casa Branca há "muitos meses" para vacinar as pessoas, introduzindo recursos como links importantes para clínicas de vacinação. "Removemos o conteúdo relacionado à covid que infringe nossas regras e continuamos a vincular a informações de saúde oficiais em todas as postagens relacionadas à covid", disse Stone.

Disputas desde a eleição de 2020

As frustrações de Biden com o Facebook começaram antes da pandemia. Sua equipe brigou com a empresa durante a campanha presidencial devido à decisão de não verificar o conteúdo de anúncios políticos, especialmente depois que grupos de apoio a Donald Trump veicularam materiais com falsas alegações sobre as interações do democrata com autoridades ucranianas. Em um ponto durante a campanha, o atual presidente descreveu o CEO da empresa como um "problema real" e acrescentou que "nunca fui um grande fã de Zuckerberg".

Após a eleição, a equipe de transição de Biden marcou reuniões com várias organizações sobre a desinformação da covid-19, incluindo Facebook, Twitter, YouTube e Pinterest, bem como Fox News e CNN. Eles pediram às empresas de tecnologia que evitassem a circulação de declarações falsas sobre o vírus e perguntaram quantos "indecisos" foram expostos a informações incorretas em suas plataformas.

O YouTube apresentou dados que mostram que cerca de 16 em cada 10 mil visualizações violavam suas regras de conteúdo, embora não tenha especificado quanto conteúdo de vídeo estava relacionado à desinformação sobre covid-19.

O Twitter disse que abriu seus dados para pesquisadores e acadêmicos estudarem a disseminação de desinformação e informou à Casa Branca ter criado um sistema de "ataques" para melhor fiscalizar contas que divulgam a maior parte da desinformação referente à pandemia.

O Facebook forneceu informações de uma ferramenta de rastreamento de dados que possui, o CrowdTangle, que é usada por acadêmicos e jornalistas. Mas funcionários, incluindo Brian Rice, o principal lobista democrata da empresa na Casa Branca, e Kang-Xing Jin, chefe de saúde do Facebook, evitaram alguns pedidos de mais informações, disseram pessoas próximas ao governo.

Quando a Casa Branca pediu dados sobre a frequência com que as informações incorretas eram visualizadas e disseminadas, a empresa disse que não poderia fornecê-los. O Facebook disse ao governo americano que teve dificuldades com conteúdos que não eram explicitamente falsos, como postagens que lançam dúvidas sobre vacinas, mas não violam claramente as regras da rede social sobre informações incorretas sobre saúde. A rede social permite que as pessoas expressem suas experiências com vacinas, como dor ou efeitos colaterais após receber uma injeção, desde que não endossem explicitamente falsidades.

A empresa observou também que realizava pesquisas sobre quantos usuários do Facebook nos EUA foram vacinados, afirmando que usava seu software para amplificar mensagens pró-vacina e para direcionar as pessoas às clínicas de vacinação. Mas, para os funcionários do governo, a empresa estava dificultando as coisas propositalmente. Ninguém entendia os dados sobre a rede social melhor do que o Facebook, disseram os funcionários, e eles queriam que a empresa ajudasse a orientá-los para as perguntas certas.

Dias depois de dizer que redes sociais como o Facebook estavam "matando pessoas", Biden amenizou o tom e, com a ajuda de um ex-assessor, as negociações foram retomadas. Ambos os lados concordaram com a necessidade de baixar o tom.

Em uma reunião recente, a equipe de Biden enfatizou que os esforços de vacinação foram paralisados, as autoridades médicas estão em risco e as mortes podem aumentar sem mais fiscalização por parte da empresa, disseram pessoas a par do assunto. No final da reunião, os dois lados agradeceram a franqueza e concordaram em continuar se encontrando, mas saíram sem nenhuma solução concreta.

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