Casal Kirchner reage e retoma iniciativa política

Cristina obtém prorrogação de superpoderes no Congresso e recupera apoio com medidas populistas

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2009 | 00h00

O Senado argentino aprovou ontem a prorrogação, por mais um ano, das "faculdades delegadas", denominação dos poderes especiais que darão à presidente Cristina Kirchner a possibilidade de continuar aplicando um pacote de 1.900 leis sem necessidade da aprovação do Congresso - entre elas, a cobrança de impostos sobre as exportações de produtos agrícolas, pivô do conflito com os ruralistas em 2008.A prorrogação foi aprovada por 38 votos a 30, depois de o governo barganhar com senadores da Terra do Fogo a aprovação de uma lei que eximirá a cobrança de impostos de produtos eletrônicos fabricados na pequena província. Na semana passada, a presidente argentina havia conseguido aprovar a prorrogação na Câmara de Deputados com o apoio de pequenos partidos de centro-esquerda. Com o resultado de ontem, Cristina e seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), mostraram ter se recuperado da dura derrota sofrida nas eleições parlamentares de junho - que vai tirar do kirchnerismo a maioria parlamentar a partir de dezembro, quando o novo Congresso Nacional toma posse -, retomando o protagonismo político graças a medidas populistas e à divisão da oposição.A votação de ontem era essencial na estratégia de curto prazo dos Kirchners. O objetivo de Cristina é ampliar seus poderes ao longo do segundo semestre, antes de perder a maioria parlamentar. Apesar de terem obtido 70% dos votos nas recentes eleições parlamentares, os partidos de oposição não conseguiram armar uma frente única para neutralizar o kirchnerismo até a posse do novo Congresso.O bloco Acordo Cívico e Social, uma aliança entre a Coalizão Cívica, liderada pela deputada Elisa Carrió, e a União Cívica Radical (UCR), comandada pelo senador Gerardo Morales, está paralisado por disputas internas. O mesmo ocorre entre os chamados peronistas dissidentes - a oposição aos Kirchners dentro do governista Partido Justicialista (peronista).Os Kirchners retomaram a iniciativa política há três semanas, ao anunciar seu plano de estatizar as transmissões dos jogos de futebol pela TV, que há 18 anos estavam sob o monopólio privado da empresa TSC, uma sociedade formada pela empresa Torneios e Competencias (TyC) e Grupo Clarín, poderoso holding de mídia. DESAFETOSCom a manobra, o casal atingiu o Grupo Clarín - desafeto dos Kirchners - e faturou com a reação popular, já que os argentinos poderão assistir aos jogos do campeonato nacional pela TV sem pagar. Ontem, Cristina assinou o acordo de estatização das transmissões com a Associação de Futebol Argentino (AFA). Para isso, o Estado argentino terá que desembolsar anualmente US$ 156 milhões.No início da semana, o governo também anunciou um plano de subsídios para a criação de 100 mil postos de trabalho em cooperativas populares nos empobrecidos municípios da Grande Buenos Aires. Setores da oposição afirmam que o plano não passa de mais uma "medida clientelista" do governo. Além disso, Cristina anunciou novas medidas protecionistas para a indústria, satisfazendo os setores mais nacionalistas.

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