Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Casal sírio é unido pela fuga da guerra civil

Aya e Waseem casaram-se na Turquia, antes de iniciar viagem para a Alemanha

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL, ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2015 | 02h00

Em meio ao caos e ao desespero de milhares de pessoas, um casal se deu conta de que, à medida que a fila andava para embarque no trem de Budapeste rumo a Munique, uma saga pessoal de meses estava chegando ao fim.

Aya, de 20 anos, e Waseem Hamza, de 27, sobreviveram à guerra na Síria. Não se conheciam, mas o conflito e o destino os levaram ao mesmo lugar, a Turquia. Ali, se conheceram há seis meses e, na semana passada, Aya recebeu duas propostas inesperadas de Waseem: casar-se e fugir para a Europa. “Eu disse sim na hora, para as duas coisas”, contou a jovem ao Estado.

A cerimônia foi simples. Cada um colocou sua melhor roupa, Waseem comprou dois anéis e, na presença apenas da mãe e da irmã caçula da noiva, se declararam marido e mulher. Dois dias depois, numa madrugada, chegaram a um porto clandestino na costa turca e, com mais 54 pessoas, embarcaram num bote plástico rumo à Grécia. “Queria me casar antes de morrer”, disse o noivo.

Por alguns instantes, a premonição de Waseem parecia poder se confirmar. “Caímos ao mar e eu fiquei pelo menos 15 minutos na água sem conseguir chegar de volta ao barco”, contou.

Quando finalmente as pessoas que haviam caído conseguiram ser resgatadas, o motor do barco parou. “Ficamos horas à deriva”, disse Aya. O barco foi resgatado pela Marinha grega e levado a Atenas. 

Dali o casal começou o trajeto até a Hungria.

“Não imaginava que seria tão difícil. Hoje, finalmente, vamos embarcar em nosso último trem para a Alemanha”, comemorava o rapaz.

Waseem chegou a ficar sitiado em um prédio no centro de Homs, na Síria, por três meses. De um lado, o Estado Islâmico. De outro, as tropas do governo de Bashar Assad. Ele foi retirado dos escombros de um dos locais onde estava vivendo e, sem saber seu destino, foi levado por pessoas que ele nem sequer conhecia para a Turquia.

Aya já tinha abandonado Damasco quando a guerra se intensificou e, juntamente com sua mãe e uma irmã, também encontrou refúgio na Turquia.

Falando sobre a cidade em que pretendem viver quando chegarem à Alemanha, surgiu o primeiro sinal de uma leve “crise” no matrimônio. “Eu quero ir para Berlim. Mas acho que é Aya quem vai decidir”, riu Waseem. 

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