REUTERS/Juan Carlos Ulate
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Casamento gay pode eleger pastor na Costa Rica

Tema ajudou evangélico a subir nas pesquisas e se tornar favorito para vencer presidência do país mais estável da América Central

Fernanda Simas e Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2018 | 05h00

A decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) legalizando o casamento gay teve uma repercussão grande na Costa Rica e pode ajudar a eleger um pastor ultraconservador presidente do país mais progressista da América Central.

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“Uma pesquisa da Universidade da Costa Rica (UCR) revelou que dois terços da população se opôs à decisão, considerada uma imposição estrangeira. A Costa Rica se mostrou um país mais conservador do que muitos esperavam”, afirma o analista político Juan Carlos Hidalgo, do Cato Institute.

O índice de desenvolvimento humano da ONU de 2016 colocou a Costa Rica em 66.º lugar no mundo, o mais alto da América Central. O país tem índices de alfabetização de 97,5% e um investimento superior a 7% do PIB em Educação, diz a Unesco.

Hidalgo diz que, após a pesquisa da UCR, o candidato Fabricio Alvarado, pastor evangélico e ex-deputado, saiu de 3% das intenções de voto para vencer o primeiro turno, com 24,9% dos votos. “Foi quem mais capitalizou esse descontentamento, ao dizer que, se fosse eleito, retiraria o país do sistema interamericano de direitos humanos”, explica.

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O pastor, do partido conservador Restauração Nacional (RN), disputa neste domingo, 1.º de abril, o segundo turno com o jornalista e cientista político Carlos Alvarado – os dois não são parentes –, ex-ministro do Trabalho e candidato do Partido Ação Cidadã (PAC), que fechou o primeiro turno com 21,6%.

O casamento gay perdeu protagonismo no segundo turno, mas ainda pode ser determinante. “A campanha teve discussões mais profundas sobre economia, segurança e infraestrutura. Ainda assim, as posições extremistas de Fabricio continuam em discussão. Dessa vez, porém, chegaram a prejudicá-lo com o eleitorado moderado, preocupado como o candidato e seus seguidores misturam religião e política”, afirma Hidalgo.

A votação deste domingo deve ser apertada – pesquisa recente da UCR mostra o pastor com 43% e o jornalista com 42% das intenções de voto. Parte da sociedade teme uma possível perda de direitos. “Estamos tentando mostrar a verdade com campanhas de conscientização para que as pessoas percebam que discriminar os outros não é a essência da nossa sociedade”, explica Herman Duarte, criador da Fundação Igualitos.

Para ele, a decisão da CIDH foi distorcida pela campanha do pastor. “Disseram que a corte violava a soberania da Costa Rica, mas não é verdade. As cortes nacionais foram claras sobre o poder vinculante das decisões da CIDH, afinal o país escolheu se submeter a ela.”

Mesmo vencendo a eleição, Fabricio tem poderes limitados sobre o casamento homossexual. “A última palavra é da Corte Constitucional do país. Ela dirá se a opinião consultiva da CIDH legalizou o casamento homossexual na Costa Rica. O próximo presidente não pode fazer nada”, diz Hidalgo.

Mas, durante a campanha, o pastor abordou outros temas e disse que pretende reverter as diretrizes de educação sexual e anular um decreto que veda a discriminação contra pessoas sexualmente diversas em instituições públicas. Também defendeu a prática das igrejas evangélicas de oferecer tratamentos de cura para gays.

O decreto citado na campanha justifica o temor da minoria LGBT. “Falei com um ativista que disse que deixará o país se determinada pessoa vencer porque tem medo de sofrer assédio e agressões”, disse Duarte.

Carlos Alvarado apresenta uma proposta de maior presença do Estado na economia e de defesa dos direitos humanos, entre eles o casamento homossexual, mas seu partido, que ocupa o governo, está envolvido em acusações de corrupção.

Aversão.

A rejeição a políticos tradicionais que marcou recentes eleições pelo mundo também está presente na Costa Rica. “A corrupção golpeou fortemente a classe política costa-riquenha e, igual a outros países, há muito interesse pela figura do outsider”, explica Hidalgo. 

Outro tema comum com outros países que realizaram votações recentemente é a possibilidade de alta abstenção em um cenário onde o voto não é obrigatório, ainda mais por ocorrer no domingo de Páscoa. Analistas dizem que isso tende a favorecer o pastor. “Seus eleitores estão mais animados a votar. As igrejas evangélicas manuseiam suas redes de uma maneira muito efetiva”, afirma Hidalgo.

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