Casaquistão constrói uma pequena Dubai

Tradição e modernidade convivem em Astana, cidade que recebeu bilhões em investimentos ao se tornar a capital do país em 1997

JANE PERLEZ, THE NEW YORK TIMES, ASTANA , O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2013 | 02h02

A cidade de edifícios altos lembra uma pequena Dubai, mas se encontra no centro da estepe asiática e combina uma arquitetura moderna com divertimentos tradicionais. Uma pirâmide de vidro de muitos andares com pombas brancas nas janelas é um tributo à paz. Uma torre de aço com a forma de cone de sorvete foi erguida em homenagem ao presidente do país, Nursultan Nazarbaev, que há 16 anos transferiu a capital do Casaquistão para Astana e gastou bilhões de dólares para criar uma grande atração urbana.

Recentemente, foi inaugurado um teatro de ópera com um luxuoso interior em mármore italiano vermelho e bege, lustres de cristal da Boêmia e um saguão que é um terço de um campo de futebol.

No entanto, apesar desses projetos futurísticos e caros, as antigas tradições nômades do Casaquistão, algumas datando da época de Gengis Khan, vêm retornando especialmente no campo esportivo.

Dias atrás, nos arredores da cidade, em estádio de gramado verde e úmido da chuva, ocorreu o primeiro campeonato centro-asiático de kokpar, uma competição equestre.

Conhecido como buzkashi no Afeganistão, o kokpar é uma versão rústica do polo. Em vez de tacos de madeira e uma bola, jogadores usam as mãos para agarrar uma ovelha ou uma cabra sem cabeça do chão. Depois, saem correndo para o gol com o animal morto.

No lugar das traves, grandes caldeiras, como piscinas de quintal infláveis, servem de gol. Os competidores marcam um ponto quando conseguem colocar o animal morto dentro dele.

Cada equipe tem quatro jogadores em cavalos. O estrume dos animais, junto com os jogadores empurrando, colidindo e patinando em torno do gol com seus chicotes, cria um esporte rude e violento.

"É cruel jogar com uma ovelha morta, mas no nosso país é normal", diz Marat Baytugelov, jogador aposentando que assistia ao jogo quando a equipe da casa derrotava os jogadores do Tajiquistão. Segundo ele, a carcaça do animal não pode ter qualquer peso. Há regras. Ela tem de pesar 30 quilos.

O torneio foi organizado como preliminar da Expo 2017, quando Astana será a cidade anfitriã. O kokpar será a principal atração, pelo menos para os centro-asiáticos e fãs de regiões mais distantes.

Uma equipe da Turquia foi convidada para participar do evento e espera retornar em 2017. O empresário turco, Sinan Secer, disse que o kokpar tem se tornado popular na Turquia e já era jogado por turcos que vivem na Grécia.

O jogo não é conhecido na Europa Ocidental onde os ativistas pelos direitos dos animais protestam contra o uso de um bicho morto. Mas se o animal é real ou falso, é apenas um detalhe. "Não precisa ser um animal morto", diz Secer. E, de fato, as pessoas estão pensando em usar carcaças falsas.

No entanto, a nostalgia não se limita ao esporte. Alguns antigos moradores ainda se lembram com afeto da arquitetura da Astana dos anos 50. Naquela época, o líder soviético Nikita Khruchev transformou a cidade, então chamada de Tslinograd, no centro da campanha para alavancar a produção de grãos da União Soviética

É o caso de Serik Rustambekov, de 66 anos, um dos arquitetos fundadores da nova Astana, Em 1954, ele tinha 7 anos e vivia com sua família em uma residência de dois aposentos quando os primeiros colonizadores da Rússia e da Ucrânia foram enviados por Kruchev para o plantio de grãos. Na época, a população da cidade era de 100 mil habitantes - hoje, são mais de 700 mil.

Edifícios de apartamentos não muito altos foram construídos com painéis de concreto que vinham de trem de São Petersburgo, segundo ele. "Trouxeram carroças puxadas por tratores com as pessoas. Alguns eram jovens com famílias. Tudo foi organizado e trazido de um outro lugar. Às vezes, a comida chegava de avião."

Muitos empregados do governo relutaram em deixar a atmosfera cosmopolita de Almaty, com seus cafés vienenses, calçadas no estilo europeu e árvores frondosas.

Assim, quando Rustambekov trabalhava no projeto de Astana, nos anos 90, projetou uma passagem para pedestres que levava às margens do Rio Ishim. "Ali, você comprava flores, podia tomar um café ou um sorvete, alugar uma bicicleta", disse. "No inverno, podia alugar skates ou esquis." No entanto, depois de cinco anos, a passagem desapareceu após a prefeitura ter construído um enorme conjunto residencial no lugar.

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