Alexander Astafyev/Sputnik/Government Pool/AP
Alexander Astafyev/Sputnik/Government Pool/AP

Casaquistão prende ex-chefe de segurança em meio a protestos

Karim Masimov foi acusado de traição pelo governo cazaque e teve sua prisão anunciada neste sábado, 8

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2022 | 11h14

ALMATY - O ex-chefe da agência de contra-espionagem e antiterror do Casaquistão foi preso sob a acusação de traição por supostamente tentar derrubar o governo em meio a violentos protestos. O presidente  cazaque atribui as manifestações a terroristas apoiados por estrangeiros.

A prisão de Karim Masimov foi anunciada neste sábado, 8, pelo Comitê de Segurança Nacional, que ele próprio chefiou até ser removido esta semana pelo presidente Kassym-Jomart Tokayev. Masimov também foi primeiro-ministro do país entre 2007 e 2012.

As autoridades dizem que as forças de segurança mataram 26 manifestantes nos distúrbios desta semana e que 18 policiais morreram. Mais de 4.400 pessoas foram presas, disse o Ministério do Interior no sábado. Os protestos no país da Ásia Central são os mais difundidos desde a independência do Casaquistão da União Soviética em 1991.

A agitação começou no extremo oeste do país como protestos contra um forte aumento nos preços dos combustíveis e se espalhou para a maior cidade do país, Almaty, onde manifestantes apreenderam e queimaram prédios do governo.

A pedido do presidente, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), uma aliança militar liderada pela Rússia com seis ex-estados soviéticos, autorizou o envio de cerca de 2.500 soldados, em sua maioria russos, ao Casaquistão em uma missão de paz. 

Parte da força está guardando instalações do governo na capital Nur-Sultan, o que "tornou possível liberar parte das forças das agências de aplicação da lei do Casaquistão e reenviá-las para Almaty para participar da operação antiterrorista", disse um comunicado do Escritório de Tokayev.

Tokayev disse na sexta-feira, 7, que havia autorizado as forças de segurança a atirar para matar os participantes dos protestos. No sábado, não houve relatos imediatos de distúrbios em Almaty, mas a polícia dispersou uma manifestação e fez detenções na cidade de Aktau, enquanto tiros esporádicos foram ouvidos em Kyzylorda, disse a agência russa Sputnik.

Nenhum detalhe foi dado sobre o que Masimov, o chefe da agência de segurança, teria feito que constituiria uma tentativa de derrubada do governo. A agência, sucessora da KGB da era soviética, é responsável pela contra-espionagem, o serviço de guardas de fronteira e as atividades antiterror.

Embora os protestos tenham começado como denúncias de que os preços do GLP (gás liquefeito de petróleo) quase dobraram no início do ano, a disseminação e a violência intensa indicam que refletem a insatisfação generalizada no país comandado pelo mesmo partido há mais de 30 anos.

Muitos manifestantes gritavam “homem velho”, uma referência a Nursultan Nazarbayev, que foi presidente desde a independência até renunciar em 2019 e alçar Tokayev como seu sucessor. Nazarbayev, que recebeu o título de Ebasy (líder da nação), maqnteve um poder substancial após renunciar como chefe do Conselho de Segurança Nacional.

Mas Tokayev o destituiu da chefia do conselho em meio aos distúrbios, possivelmente com o objetivo de uma concessão para apaziguar os manifestantes. Nazarbayev permaneceu invisível durante o caos, mas no sábado seu porta-voz disse que Nazarbayev está na capital e "conclama todos a se unirem em torno do Presidente do Casaquistão para superar os desafios atuais e garantir a integridade do nosso país".

O gabinete de Tokayev informou que ele disse ao presidente russo, Vladimir Putin, por telefone, que a situação estava se estabilizando no país. "Ao mesmo tempo, persistem focos de ataques terroristas. Portanto, a luta contra o terrorismo continuará com total determinação", disse ele.

Tensões nas relações Leste-Oeste

Após vários dias de violência, as forças de segurança parecem ter retomado o controle das ruas de Almaty na sexta-feira. Algumas empresas e postos de gasolina começaram a reabrir no sábado na cidade de cerca de 2 milhões de habitantes, enquanto as forças de segurança patrulhavam as ruas. Tiros ocasionais ainda podiam ser ouvidos em torno da praça principal da cidade.

O vice-prefeito da cidade foi citado pela agência de notícias russa RIA, dizendo que as operações para livrar a cidade de "terroristas e grupos de bandidos" ainda estavam em andamento e os cidadãos foram aconselhados a ficar em casa.

Em Nur-Sultan, a agência "Reuters" filmou a polícia parando motoristas em um posto de controle com uma forte presença de soldados armados nas proximidades.

O acesso à internet, que esteve em grande parte bloqueado em todo o país por dias, ainda continua fortemente interrompido neste sábado.

A implantação da aliança militar CSTO ocorre em um momento de alta tensão nas relações Leste-Oeste, enquanto a Rússia e os Estados Unidos se preparam para negociações na próxima semana sobre a crise na Ucrânia.

Moscou desdobrou um grande número de tropas perto de sua fronteira com a Ucrânia, embora negue as sugestões dos EUA de que esteja planejando invadir o país, dizendo que quer garantias de que a Otan interromperá sua expansão para o leste.

Washington questionou a justificativa para o envio de tropas russas ao Casaquistão e questionou se o que foi anunciado como uma missão de dias ou semanas poderia se transformar em uma presença muito mais longa.

"Uma lição da história recente é que, uma vez que os russos estão em sua casa, às vezes é muito difícil fazer com que eles saiam", disse o secretário de Estado, Antony Blinken, na sexta-feira./AP e REUTERS

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