Fernanda Simas / Estadão
Fernanda Simas / Estadão

‘Casas’ das Farc já estão prontas

Guerrilheiros ficarão instalados em área de difícil acesso para desarmamento

Fernanda Simas, enviada especial / Cartagena, Colômbia, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

PLANADAS, COLÔMBIA - Chegar à zona onde as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) se concentrarão para o processo de desmilitarização na região de Planadas, Departamento (Estado) de Tolima, não é um caminho fácil. 

Depois de percorrer quase 15 quilômetros de uma estrada cheia de curvas, mata fechada, animais passando pela via e um ponto de checagem militar com soldados fortemente armados, o local tem um portão de madeira vermelho na entrada e é cercado por estacas de madeira e arame farpado.

Na parte de dentro, uma caixa d’água e muito espaço para que o guerrilheiros se instalem e deixem suas armas. A única forma de comprovar que o local é uma das 23 áreas de concentração da guerrilha é uma pequena placa que diz “Bem-vindo ao veredal El Jordán”. Após o plebiscito de hoje, espera-se que o governo comece a construir a infraestrutura para receber os cerca de 400 guerrilheiros que irão para o local.

O difícil acesso à zona não é um acaso. As 23 áreas onde os guerrilheiros ficarão para entregarem todas as armas, em até 180 dias, são as mais afetadas pelo conflito armado na Colômbia que durou 52 anos. Os locais foram escolhidos justamente por serem distantes de áreas urbanas e fronteiras, terem uma extensão “razoável para garantir a verificação por parte das Nações Unidas” e não estarem em parques naturais ou regiões de cultivos ilícitos. 

Atualmente, segundo o Ministério da Defesa colombiano, o país tem 33 mil veredas – a menor divisão na estrutura administrativa territorial. “Esses eram os locais onde eles (guerrilheiros) trabalhavam”, conta o tenente Anderson Arana, chefe da Zona Veredal de Transição à Normalidade local, que coordena uma equipe de 32 policiais e enfermeiros e técnicos em agropecuária diversificada que atuarão na região.

Mesmo distante de áreas urbanas, o local tem alguns vizinhos, cerca de 300 famílias que vivem em povoados e na sua maioria não se importam em ter tão perto uma concentração de guerrilheiros. “Já estamos acostumados a viver entre eles, cresci junto com eles e não nos incomoda tê-los aqui no nosso pé”, conta Carmenza Ardones, explicando que o local ficou pronto há cerca de 15 dias, mas ninguém foi ao povoado onde vive explicar o que acontecerá nos próximos meses. 

“As zonas são temporárias e são a oportunidade para iniciar os primeiros passos para a reinserção (na sociedade). Ou seja, lá poderão ser feitos censos demográfico e socioeconômico. Também servem para os primeiros contatos com a população local”, afirma o cientista político e coordenador da Fundação Ideias para a Paz, Eduardo Álvarez Vanegas.

Como o local estará no fim deste mês, quando os guerrilheiros estarão instalados caso o povo colombiano ratifique o acordo de paz no plebiscito é uma incógnita, o que, segundo Vanegas, tem um motivo. “Nem todas as zonas veredais precisam ser iguais. Existem pontos transitórios, espaços menores onde estarão acampamentos respeitando a unidade territorial das Farc.”

Segundo o governo colombiano, o trabalho de preparação dos campos uniu guerrilheiros e militares que nunca estiveram frente a frente, mas se consideravam inimigos, por isso foi uma tarefa difícil. Uma integrante do grupo que acompanha o trabalho disse ter sido essencial a presença dos dois lados para determinar que parte do território pertencia a quem. 

Veja abaixo: Zonas onde Farc ficarão concentradas estão prontas

Desconfiança. O trabalho que precisa ser feito agora é com as comunidades próximas das “casas” dos rebeldes, onde muitos se sentem inseguros sobre o futuro. “Eles (Farc) não saíam matando qualquer pessoa. Quem descumpria as leis era castigado, mas não havia ladrões, por exemplo. Agora, não sabemos como será”, explica Ardones, acrescentando que votará ‘sim’ no plebiscito de hoje, mas não sabe como ficará a região nos próximos meses. 

“Vamos sair para votar e ver o que muda por aqui”, afirmou, sorrindo, antes de posar para a foto e dizer que se parece uma guerrilheira em razão das botas que usava.

Com ela, um jovem que não quis se identificar dizia estar em dúvida sobre o voto. “Tenho medo de que quando as Farc saiam falte segurança. De toda forma, eles tomaram conta da gente daqui, sem eles cada um fará o que quer.” Mesmo assim, ele acredita que o ‘sim’ vai ganhar no povoado onde vive.

Sobre a presença de um campo para o desarmamento de guerrilheiros tão perto de onde vive, ele concorda com a amiga e diz que ninguém se opõe a isso. “Os contrários ao acordo têm essa opinião porque não querem que as Farc se entreguem, não tem relação com o fato de grupos virem para cá.”

Preservação. Além da localização, é importante preservar as características do grupo guerrilheiro para que não haja deserções, o que também justifica a estrutura das zonas veredais, explicou o cientista político e coordenador da Fundação Ideias para a Paz, Eduardo Álvarez Vanegas. “O que se deve evitar nessas zonas nos 180 dias que durará o desarmamento é uma abrupta separação de forças porque isso pode levar alguns guerrilheiros à reincidência ou ao crime organizado. O importante é que as lideranças militares se transformem em lideranças políticas”, disse Vanegas.

O cientista político compara o processo atual com o processo de paz realizado com as Autodefesas Unidas da Colômbia, um grupo de paramilitares de extrema-direita que participou do conflito na Colômbia e se desmobilizou em 2006. “Não houve uma contenção, não foram aplicadas medidas de contenção e as tropas se separaram, o que provocou insegurança e muitos deles nem completaram o processo formal de desmobilização e reintegração, mas passaram a integrar estruturas criminais”, explicou.

 

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