Federico PARRA / AFP
Federico PARRA / AFP

Casas vazias, um sinal da diáspora venezuelana

Desde 2014, quando a crise econômica no país se agravou, imóveis perderam entre 70% e 80% de seus valores; apesar do risco de invasões, muitos migrantes preferem manter suas residências vazias por medo de não conseguir desalojar inquilinos

O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2018 | 14h33

CARACAS - O relógio de parede está parado marcando 10h40 e as escovas de dente continuam sobre o lavatório. Ninguém as usa. A casa abandonada de Francisco Rojas, fruto de anos de esforços, é um vestígio da imigração maciça de venezuelanos que fogem da crise no país.

Na geladeira da antiga casa de Francisco e de sua mulher, Elena, só resta gelo e molho de tomate. No bar, uma garrafa quase vazia de rum de sua despedida. Faz três anos que os dois colocaram apenas o essencial em quatro malas e partiram da Venezuela.

Os dois foram asfixiados pela crise socioeconômica. Elena, de 33 anos, recebeu uma oferta de trabalho no Equador e não teve dúvidas. Agora, em um mês, recebe o que em Caracas precisava de quatro anos para acumular.

Não venderam o apartamento, no leste de Caracas - mesmo sabendo que isso teria ajudado na mudança - porque ele perdeu 50% do valor - em 2014, quando a crise econômica se agravou, o imóvel valia US$ 100 mil.

"Queríamos ver o que ia acontecer. Agora que estamos estabelecidos, é absurdo vender", disse o jornalista esportivo de 28 anos, que agora mora em Guayaquil.

Apartamentos cujas luzes nunca são acesas, estacionamentos com vagas vazias ou carros cobertos com lonas e caixas de correio cheias de correspondências são algumas das evidências dos imóveis abandonados em várias cidades venezuelanas.

O fenômeno é tamanho que já há pessoas que se oferecem para administrar os imóveis fechados, incluindo o pagamento de contas dos serviços públicos, representação em reuniões de condomínio e até o acendimento das luzes para enganar ladrões.

Segundo a ONU, acerca de 2,3 milhões de venezuelanos (7,5% da população de 30,6 milhões de pessoas) vive no exterior, dos quais 1,6 milhão migraram desde 2015.

'Duas malas e é isso'

Francisco e Elena deixaram a Venezuela cansados da insegurança, da escassez de alimentos e medicamentos, e da inflação que, segundo o FMI, pode passar de 1.000.000% neste ano.

Voltar para o país, por enquanto, não é uma opção considerada pelos dois. "Se a situação (na Venezuela) melhorar, avaliaremos se voltamos ou vendemos o apartamento", disse o jornalista.

Roberto Orta, presidente da Câmara Imobiliária Metropolitana, diz que uma casa na Venezuela hoje custa entre 70% e 80% menos do que há cinco anos.

"Tem um apartamento que custava US$ 170 mil, mas hoje não vale mais do que US$ 70 mil. Ofereceram US$ 50 mil, mas a proprietária (que deixou o país) prefere deixá-lo fechado", afirmou a corretora de imóveis Carolina Quintero, corroborando a avaliação de Orta.

Mariana García, uma contadora de 41 anos que deixou o país em 2017 com o marido e os dois filhos, também não quer vender sua propriedade em Caracas, pois "perdeu mais da metade" do valor. 

"Deixamos a casa fechada, intacta. Fomos embora com duas malas, e é isso", relatou, dos Estados Unidos, onde seu marido aceitou um emprego após migrar primeiro para o Equador. 

Foram buscar uma vida melhor: "Na Venezuela, mesmo que você tenha dinheiro, não consegue coisas, ou não tem água. Fechavam companhias aéreas e tínhamos medo de não poder sair", relatou Mariana.

Invasores de tocaia

Muitos migrantes não alugam suas casas por medo de perdê-las. Com frequência, as autoridades impedem os despejos, mesmo que haja descumprimento de contrato. "Depois você não consegue tirar os inquilinos", disse Francisco.

A lei estabelece que o contrato de aluguel deve ser de no mínimo um ano e obriga que seja prorrogado por um período entre seis meses e três anos. Por isso, segundo Orta, a oferta de aluguel não representa mais de 5% do potencial de mercado.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 9% das casas estavam desocupadas em 2011, mas isso aumentou desde então, disse o presidente da Câmara Imobiliária, Carlos González.

Além disso, "pela hiperinflação, não convém alugar em bolívares, mas em dólares", aos poucos que têm acesso à moeda americana, completou Carolina.

O medo de que as residências sejam invadidas também pesa. Nos condomínios, pede-se aos moradores para não darem informação a supostos pesquisadores que perguntam por imóveis desocupados. "Há pessoas circulando, vendo apartamentos com as luzes apagadas", explicou a corretora de imóveis.

Em Los Palos Grandes, um bairro de classe média do leste de Caracas, vários "invasores foram desalojados pela polícia", disse Rafael Guerra, da Associação de Moradores da região.

Uma quinta onde funcionava uma empresa em La Florida (oeste de Caracas) foi invadida por pessoas que aproveitaram que os funcionários estavam de férias. "Roubaram tudo. A polícia os desalojou e não estão presos", relatou um funcionário.

Opositores culpam o falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013) por ter estimulado a invasão de terrenos com uma lei de 2011 para "resgatar terras urbanas" e construir casas. "Temos medo de invasão. Há muitos apartamentos vazios. Nossa família sempre vai ver como as coisas estão", disse Francisco.

Sobre a mesinha da sala, há uma foto de seu casamento. Uma camada de poeira recobre os móveis, e as plantas secaram. Da Venezuela, diz ele, o que mais sente falta é sua vida compartilhada com os amigos e a família.

Mas a maioria também foi embora. "Você vai para a Venezuela e está mais sozinho do que em outro país", comenta, nostálgico. / AFP

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