Arquivo Pessoal
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‘Caso Amia está tão morto quanto o procurador’

Para ministro argentino do Meio Ambiente, processo sobre atentado esbarra em uma Justiça ainda ‘infiltrada pelo kircherismo’

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

22 Junho 2016 | 05h00

Enquanto não houver uma renovação da Justiça argentina, o processo sobre o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994, não deverá se concluir, na avaliação do rabino argentino Sergio Bergman. Ministro do Meio Ambiente do governo de Mauricio Macri, Bergman diz, em entrevista ao Estado, acreditar que o promotor Alberto Nisman foi assassinado após coletar provas que esclareceriam os fatos relacionados ao ataque. Amigo do papa Francisco, Bergman cita a encíclica papal Laudato Si como a principal inspiração para seu trabalho à frente do ministério. Ele estará em São Paulo a partir de amanhã para o 5.º encontro da World Union for Progressive Judaism na América Latina. 

Por que a escolha da encíclica papal ‘Laudato Si’? 

Assumi como ministro do Meio Ambiente nessa etapa em que a Argentina é liderada por Maurício Macri como presidente, com a tomada de decisão voltada ao mundo. Ela (encíclica) me permite, como referência social e religiosa, ingressar em uma área na qual a diferença que se crê não é com relação à questão técnica, mas ética. Para esse tipo de posição, a sustentabilidade não é a do ambiente, mas sim a das pessoas, em primeiro lugar. 

Minha referência, como sempre digo, é meu rabino por escolha, (Jorge) Bergoglio, que já era meu professor na Argentina (antes de se tornar papa). Francisco como estadista lança a Laudato Si, uma encíclica que não é uma carta verde, mas social, cuja visão e o cuidado da causa comum são minha doutrina no ministério. 

Como é hoje a relação entre o sr. e o papa? 

Sempre mantive contato com o cuidado de preservar esse vínculo como pessoal, íntimo, inspirador e não misturar com temas domésticos da política. 

Por que a relação entre o presidente Macri o papa não é tão boa? 

Esse é um sinal de maturidade, poder ter vínculos institucionais sólidos e sérios nos seus papéis de estadistas.  Por um lado, Francisco é um estadista do mundo, não somente um líder para os católicos, ou para os que mantêm um diálogo inter-religioso, mas um líder para a humanidade. Por outro, está o estadista da república argentina, o presidente Macri, para quem os vínculos pessoais têm de ver com as decisões que cada um pode tomar, com quem pode ter mais ou menos simpatia. Mas não se deve confundir com os vínculos institucionais. O vínculo entre Macri e Francisco é responsável da parte dos dois que não confundem as dimensões pessoais de suas histórias com a responsabilidade do futuro. 

Qual sua expectativa com relação à conclusão do caso Amia, após tantas idas e vindas?

O caso Amia está tão morto quanto o procurador (Alberto Nisman) que assassinaram. Somente com muito trabalho e com o poder de limpar a Justiça argentina, que ainda está infiltrada pelo kirchnerismo, se poderá refazer um caminho de verdade e de justiça para três coisas que já sabemos, mas apesar de já estarem provadas nos expedientes, ainda faltam ser julgadas. A má conduta da administração da Justiça não permite que a verdade que conhecemos se transforme na Justiça que nos devem. Sabemos que há uma conexão local que está livre, impune, sabemos da participação do Irã, que utilizou suas embaixadas locais para logística, inteligência e realização do atentado. Vários governos encobriram, mas o último decidiu pactuar com assassinos por um memorando de entendimento com o Irã. E quando um procurador da nação teve as provas e fez a denúncia, o mataram. 

A quais as representações diplomáticas o sr. se refere? 

Irã usa suas embaixadas, não somente na Argentina, mas na América Latina e Central, e o faz também provavelmente no Brasil, na Venezuela de maneira manifesta. Fez na Argentina, usando agregados culturais para fazer recrutamento, propaganda e operações encobertas. Usou suas embaixadas e embaixadores para a transferência de fundos e de pessoas para a inteligência e promoção do atentado. 

O sr. chega ao Brasil em um momento de mudanças políticas. Qual é sua opinião? 

Esperamos que haja mudanças fundamentais para poder ordenar e reorientar um país que é tão relevante em muitíssimos aspectos na região e para a Argentina, em particular. Quanto ao rumo político e ideológico do Brasil, devemos respeitar, sem emitir juízo de valor. A Argentina é o primeiro país emergente na região que claramente decidiu mudar o ciclo da demagogia populista para voltar à república democrática que progride. Isso me parece também possível no Brasil. Esperamos que o exemplo do Brasil se siga na Argentina e não somente os testas de ferro sejam julgados. Esperamos que os maiores responsáveis do último governo kirchnerista possam ser julgados e castigados, como tantos empresários e funcionários estão sendo julgados e castigados no Brasil.

Quais as condições que encontrou em seu ministério quando assumiu a pasta?

Nosso ministério, em particular, foi submetido a auditorias e investigações por ações de má-administração e corrupção. Mas em termos gerais, poucas vezes se pode imaginar que se poderia encontrar um nível de destruição e devastação no qual um grupo de funcionários, não digo todos, mas os de máxima responsabilidade, utilizaram ferramentas de Estado para fazer dessa uma associação ilícita de roubo e de corrupção como nunca se viu. 

Sobre o conflito entre palestinos e israelenses, o sr. acredita numa mudança do status quo? 

É muito importante que o trabalho de retornar ao diálogo na mesa de negociação seja colocado como a primeira prioridade. Cada parte pode ter suas razões, mas o importante aqui é raciocinar juntos, entender que somente é possível paz negociada na mesa de diálogo, e não à luz do terror, da violência ou da força. Por isso, sou otimista de que nesse caminho, vamos encontrar uma solução. Mas sou realista de que isso se transforma em uma situação muito difícil politicamente. Assim como o Estado de Israel tem um governo o qual ninguém pode criticar, ou pode de alguma maneira opinar sobre qual é o resultado claro do processo democrático da sociedade israelense, do outro lado, a pergunta é quem são os interlocutores dos palestinos. Porque Abu Mazen (Mahmoud Abbas), que é uma autoridade reconhecida e legítima para o diálogo, não tem sempre o apoio ou o respaldo dos grupos mais radicalizados como Hamas e outros. Os fundos humanitários nem sempre são utilizados pelas pessoas, mas para atos de terror. Agora, toda essa situação tão complexa não pode confundir-se com o legítimo direito do povo palestino de viver em paz e de que o Estado de Israel tem a responsabilidade de não somente defender-se e assegurar a segurança de seus habitantes, mas também tem uma dívida moral. Além de cuidar dos seus, tem de encontrar o caminho da paz para cuidar do povo palestino inocente e protegê-lo da extorsão e, ao mesmo tempo, da má-conduta de seus dirigentes. 

O que é o judaísmo progressista? 

Na América Latina, todos os movimentos religiosos que não são ortodoxos tem um grande desafio para oferecer um judaísmo relevante àqueles que não querem deixar de ser cidadãos de suas sociedades modernas sem perder suas raízes, tradições e práticas tradicionais de legado do povo judeu. Esse seminário (em São Paulo) se dedica a estudar, formar líderes, desenvolver programas, fortalecer instituições e manifestar que não há apenas uma via de judaísmo, branco e preto. O judaísmo sempre teve uma proposta multicolor.

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