Alberto Pizzoli/AFP
Alberto Pizzoli/AFP

Caso Battisti leva Itália a buscar mais 50 fugitivos

Governo italiano vai pedir que países revisem status concedidos a condenados

Jamil Chade / Correspondente, Genebra, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2019 | 07h00

A extradição de Cesare Battisti levou o governo da Itália a intensificar a pressão para que autoridades de outros países revejam o status concedido a pelo menos 50 italianos foragidos da Justiça, muitos deles condenados por atos terroristas e crimes ligados a grupos de extrema esquerda. 

Um requerimento apresentado esta semana pelo deputado Daniele Belotti pede ao governo italiano que reforce sua ação diplomática para conseguir a extradição de foragidos que estariam na França, Nicarágua, Suíça, Argentina, Cuba, Argélia, Líbia, entre outros países. “Cesare Battisti deve ser o primeiro de uma longa fila”, defende Belotti, do partido Liga, de extrema direita.

Matteo Salvini, o ministro do Interior da Itália e líder do partido, deixou claro que uma de suas prioridades é convencer o presidente da França, Emmanuel Macron, a rever a situação de um grupo de 30 a 40 italianos protegidos pelo Estado francês. A estimativa é a de que quase 300 membros e ex-militantes de grupos armados italianos de extrema esquerda tenham se refugiado na França entre o fim dos anos 70 e início dos 80. “Vou pedir ao primeiro-ministro, Giuseppe Conte, para escrever para Macron pedindo a extradição de criminosos que tomaram vidas”, disse Salvini.

Doutrina Mitterrand

A presença dos italianos na França é o resultado da Doutrina Mitterrand, uma política adotada a partir de 1985 pelo então presidente François Mitterrand, pela qual Paris acolhia militantes de esquerda sob certas condições. 

Em discurso realizado em abril de 1985, Mitterrand indicou quais eram os critérios. “Os refugiados italianos que participaram de ações terroristas antes de 1981 e romperam com a máquina infernal na qual estavam envolvidos entraram em uma segunda fase de suas vidas, se integraram à sociedade francesa. Eu disse ao governo italiano que eles teriam abrigo de todas as sanções”, explicou. 

Pela Doutrina Mitterrand, a França poderia avaliar a possibilidade de não conceder a extradição desde que as pessoas envolvidas tivessem renunciado à violência política.

Entre os que encontraram abrigo na França estavam as ex-militantes Simonetta Giorgeri e Carla Vendetti, condenadas à prisão perpétua. Sergio Tornaghi, ex-integrante das Brigadas Vermelhas, também foi condenado à prisão perpétua, mas também se beneficiou da Doutrina Mitterrand. Na França também estaria Giancarlo Santilli, ex-militante da Prima Linea, que foi sentenciado a 19 anos de prisão na Itália. 

Entre os nomes mais significativos está o de Giorgio Pietrostefani, condenado a 22 anos pelo assassinato do comissário Luigi Calabresi. Já residente na França, ele retornou voluntariamente para ser processado e foi preso em 1997. Dois anos depois, foi libertado durante a revisão de seu julgamento. Mas, em 2000, quando voltou a ser condenado, conseguiu escapar mais uma vez para a França. 

Pressionado, o governo francês apenas decidiu em 2002 colocar um fim à Doutrina Mitterrand e expulsar Paolo Persichetti, acusado de estar envolvido no assassinato do general Ligio Giorgieri. 

Entre os foragidos em Paris estava justamente Cesare Battisti. Em sua carta solicitando asilo aos bolivianos, no fim de dezembro, ele de fato ligou sua chegada à França à Doutrina Mitterrand.

“Na França, minha extradição foi negada pela Suprema Corte de Paris. Estabeleci e continuei minha profissão de jornalista e escritor”, contou. “Amparado pela Doutrina Mitterrand, formei uma família e me dediquei à minha profissão de escritor, publicando 13 livros.”

Segundo Battisti, a situação apenas mudou quando ocorreu a “coincidência” de governos de direita terem chegado ao poder na Itália e na França, com Nicolas Sarkozy e Silvio Berlusconi. Isso, segundo ele, o teria obrigado a buscar, em 2004, refúgio no Brasil. “Na verdade, tratou-se de um negócio milionário acordado entre o Estado francês e o italiano”, justificou Battisti.

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