Caso Chen não indica melhora dos controles Chineses

Embora a China tenha feito uma rara concessão ao permitir que o ativista cego Chen Guangcheng saia do país com sua família, outros dissidentes dizem não esperar uma maior flexibilização dos controles impostos pelo governo. Segundo eles, as autoridades podem até mesmo apertar o cerco a importantes críticos para evitar que eles fiquem incentivados em desafiar da liderança chinesa.

AE, Agência Estado

05 Maio 2012 | 15h02

O ativista escapou da prisão domiciliar e foi de avião até Pequim, onde buscou abrigo na embaixada dos Estados Unidos. A ação deu à comunidade dissidente um impulso moral, já que os ativistas haviam sofrido, no ano passado, uma severa repressão das autoridades de segurança, que queriam evitar manifestações como as realizadas durante a Primavera Árabe. Dezena de ativistas, advogados, intelectuais e outros envolvidos foram detidos, interrogados e, em alguns casos, até mesmo torturados.

Chen, um símbolo do movimento civil chinês, pode conseguir sair do país para estudar nos Estados Unidos sob condições que ainda estão sendo discutidas e foram anunciada na sexta-feira por Washington e Pequim para encerrar o impasse diplomático, que durou uma semana.

Neste sábado, Chen continuava no hospital, para onde foi levado para receber tratamento médico, juntamente com sua mulher e seus dois filhos. Funcionários da embaixada dos Estados Unidos encontraram-se com sua mulher, mas a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que esteve em Pequim entre quarta e sexta-feira, não foi visitá-lo.

O Ministério de Relações Exteriores informou que Chen pode apresentar um pedido para ir para o exterior. Sua mulher disse à emissora TVB, de Hong Kong, que a solicitação da documentação para a viagem ainda não foi iniciado e que nenhuma data para a partida foi estabelecida.

Os acontecimentos envolvendo Chen, embora saudados pela maioria dos ativistas e dissidentes, é visto como uma vitória individual que não deve abrir caminho para melhorias nas atitudes do governo em relação aos que fazem críticas à administração.

"Eu acho que após o incidente com Chen Guangcheng, a situação para nós vai piorar mais e mais, porque na sociedade atual o poder do governo não tem limites", disse Liu Yi, artista e partidário de Chen que foi atacado na quinta-feira por homens, que acredita, eram policiais à paisana. O ataque ocorreu quando Yi tentava visitar Chen no hospital.

Liu Feiyue, ativista veterano que coordena uma rede de monitoramento de direitos humanos na província central de Hubei, lembrou a importância do envolvimento dos Estados Unidos no caso de Chen. "Este é apenas um caso individual. Mas como se transformou num incidente envolvendo China e Estados Unidos, o governo norte-americano colocou bastante pressão sobre a China e é por isso que as autoridades fizeram a concessão de permitir que Chen Guangcheng estude no exterior", disse ele.

"Nem todos os casos de dissidentes se transformam em questões internacionais", disse Liu Feiyue.

Chen, um advogado autodidata, é mais conhecido por expor os abortos e esterilizações forçadas em sua comunidade, um escândalo que levou o governo central a punir algumas autoridades locais. Mas seu ativismo atraiu a fúria de funcionários locais, que o puniram com quase sete anos de prisão e prisão domiciliar.

Ativistas afirmam que embora Chen, sua mulher e seus filhos devam encontrar abrigo nos Estados Unidos, não está claro o que vai acontecer com seus outros parentes. As autoridades já detiveram seu irmão mais velho e seu sobrinho é acusado de ter atacado autoridades locais que invadiram sua casa, aparentemente em busca de Chen. A mãe de Chen, que vive com o casal, está sob constante vigilância.

Se Chen deixar o país, as autoridades que maltrataram a ele e sua família não devem ser responsabilizados, medida solicitada por ele no vídeo produzido gravado enquanto ele estava escondido em Pequim, antes de entrar na embaixada norte-americana.

"A história de Chen não é um triunfo para os direitos humanos na China, infelizmente", disse Wang Songlian, pesquisador dos Defensores dos Direitos Humanos Chineses, que vive em Hong Kong. "Embora Chen, sua mulher e filhos devam conquistar a liberdade, seus demais familiares devem ser alvo de retaliação...Nenhuma das pessoas expostas por Chen pela violência que cometeram ou que espancaram e detiveram Chen e sua família foram punidas."

Há temores de que o governo chinês também puna partidários que colaboraram com sua fuga, assim como seus amigos que posteriormente tentaram relatar seus temores sobre segurança ou publicamente pediram a ele que fosse para os Estados Unidos. Duas pessoas que o ajudaram a fugir foram detidas, e posteriormente libertadas, mas estão proibidas de falar e estão sob intensa monitoração.

Outros como Zeng Jinyan, amiga de Chen que, assumindo grandes riscos, publicaram os temores de Chen ao deixar a embaixada na quarta-feira, foram proibidos de falar com meios de comunicação e colocados sob prisão domiciliar. Teng Biao, advogado e defensor dos direitos humanos, também sofre restrições. Ele implorou várias vezes para que Chen saísse do país e publicou a transcrição de uma conversa com ele na internet. As informações são da Associated Press.

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