Caso Chiapas é teste para futuro do governo Fox

O presidente mexicano, Vicente Fox, completa cem dias de governo esta semana com índices de aprovação 20 pontos acima dos 43% de votos que recebeu nas históricas eleições de 2 de julho. Seus planos de reforma do Estado, combate ao narcotráfico e à corrupção e pacificação do conflito no Estado de Chiapas contam com o apoio de cerca de 60% dos mexicanos, segundo as sondagens de opinião.Uma visita do presidente George W. Bush, há duas semanas - a primeira viagem internacional do novo líder americano -, abriu o caminho para uma importante mudança potencial na qualidade das complexas relações entre o México e os EUA, principalmente na questão migratória, e ajudou a fortalecer o prestígio popular do carismático ex-diretor da Coca-Cola e ex-governador do Estado de Guanajuato que encerrou sete décadas de monopólio do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, na residência presidencial de Los Pinos.Mas mesmo os simpatizantes de Fox já começam a se perguntar sobre a duração da lua-de-mel entre os mexicanos e seu presidente. "É uma lua-de-mel mais do que merecida, mas temo que ela esteja chegando ao fim, em parte porque não pode durar para sempre, em parte por causa da estratégia desigual que Fox está mostrando", disse à Agência Estado o cientista político Sérgio Aguayo, professor do Colégio do México, colunista do jornal Reforma e um dos líderes, em anos recentes, do movimento de mobilização cívica que ajudou a preparar o o caminho da democratização do país.Eleito com o voto urbano e o apoio de uma coalização heterogêna de forças políticas - ideologicamente mais ampla do que aquela com a qual o presidente Fernando Henrique Cardoso administra no Brasil e sem o apoio de uma maioria no Congresso -, Fox fez algumas das apostas iniciais previsíveis para firmar sua base de apoio. "Na economia, onde o rumo é mais claro, sólido e consistente, ele fez uma opção de continuidade com honestidade no topo, dando sinais de que executará as suas políticas de uma maneira mais aberta", declarou Aguayo. "Eu diria que ele confiou a política externa e a política cultural à esquerda, esquerda entre aspas, o que está dentro da tradição do México e mostra continuidade."Mas, segundo Aguayo, o novo presidente "mostrou também até agora uma disposição de entregar a política social à direita, pondo um empresário à frente do Ministério do Trabalho e uma militante conservadora de seu Partido de Ação Nacional (PAN) no Ministério do Desenvolvimento Social."A questão de Chiapas - o tópico mais importante e urgente da agenda social mexicana - e a luta contra o narcotráfico e o crime organizado já começam a mostrar os limites que a realidade impõe à ação de Fox. "Em parte, isso é inevitável porque, nesses dois temas, nem tudo depende do presidente, mas, na medida em que surgem as resistências, começam a aparecer as debilidades do presidente Fox", afirmou o especialista. "A primeira é a tentação de falar; ele gosta de falar e às vezes o que diz não é o mais oportuno", disse Aguayo. Um exemplo disso são as declarações que Fox fez há três semanas prevendo uma rápida obtenção de um acordo de paz com o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), o movimento rebelde que eclodiu em Chiapas em janeiro de 1994. "A segunda é que não existe uma estratégia clara, seja para combater o crime organizado, seja no caso de Chiapas."O caso Chiapas, uma difícil discussão sobre os direitos civis, econômicos e culturais dos indígenas mexicanos, que representam cerca de 20% da população do país, será o primeiro grande teste político de Fox. Respondendo aos gestos de conciliação feitos pelo líder mexicano, os zapatistas liderados pelo subcomandante Marcos puseram as armas de lado e iniciaram na semana passada uma grande viagem por 12 dos 31 Estados do país rumo à Cidade do México. Pela previsão, o "zapatour", como já é chamada a longa marcha dos guerrilheiros, culminará com uma grande demonstração pública do desejo de reconciliação e pelo início de um diálogo produtivo entre os zapatistas e as autoridades a partir do dia 12, quando as dezenas de ônibus da caravana rebelde chegar ao Zócalo, a histórica praça central e local de fundação da capital mexicana.As duas maiores redes de televisão do país, a Televisa e a TV Azteca, que são antigas rivais, deram-se as mãos para promover conjuntamente um show para preparar os espíritos para o grande encontro da nação com os zapatistas. O marketing da pacificação nacional está a pleno vapor. Marcos e seus seguidores deverão ser recebidos por Fox e têm uma reunião marcada, no próximo da 12, com os membros da Comissão de Concórdia e Pacificação (Cocopa), criada pelo Congresso.Mas as incertezas sobre os resultados desse ousado e, potencialmente, dramático exercício de conciliação nas ruas alimenta o nervosismo nas Forças Armadas e entre os conservadores que ajudaram a colocar Fox no poder. "Há quem diga que me equivoquei na tática com o movimento zapatista, que minha proposta de paz fortaleceu o movimento", disse ele no dia 19, diante de uma sepulcral platéia de mais de 3 mil oficiais e soldados na cerimônia do Dia do Exército. "Nada seria mais grave do que fechar-se na funesta conspiração do silêncio, pois esta época já passou", afirmou ele. "Sei perfeitamente que é um problema complexo, mas o que me move é a convicção (sobre a necessidade) de encontrar, o mais breve possível, uma solução digna e justa, pois creio na reconciliação e no triunfo da boa-fé."Com o "zapatour" ganhando força e apoio em seu trajeto rumo à capital, no fim da semana passada continuava a ser um mistério como Fox transformará sua visão generosa e bem-intencionada num acordo efetivo com os zapatistas, sem afastar as forças conservadoras que são sua principal base de apoio."Francamente, a reiteração feita por Fox de que o assunto poderá ser resolvido em umas poucas semanas é preocupante, pois não vejo como ele pode afirmar isso quando sabemos que até agora não houve contato entre nenhum negociador do governo e do exército zapatista", disse Roberto Blancarte, outro professor do Colégio do México.

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