Caso de Christie não tem graça

Os políticos são historicamente cômicos em New Jersey, mas o episódio de criação de um congestionamento com interesse eleitoral tem tons trágicos

RICHARD, AREGOOD, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2014 | 02h02

Ver o governador do Estado de New Jersey, Chris Christie, se retorcer inteiro pelo que pareceram horas na quinta-feira, negando que sabia alguma coisa sobre o que ficou conhecido como Bridgegate, pode ter alegrado a turma da "justiça poética". Estamos acostumados com uma proporção exagerada de políticos velhacos, incompetentes e descarados. Eles em geral são engraçados, mesmo que não pretendam sê-lo. Mas o desempenho de Christie não foi nada engraçado. Na verdade, ser engraçado não é com ele.

O congressista do Partido Democrata Kenny Gewertz, por exemplo, era um sujeito engraçado. O legislador democrata ia para as sessões da Assembleia Estadual nos anos 70 num terno quadriculado amarelo e guiava um Corvette com uma imagem do Incrível Hulk pintada com spray.

Quando uma prostituta de Atlantic City roubou seu relógio de US$ 8 mil, ele se declarou muito indignado com tamanha perfídia e chamou a polícia. Quando se sentiu militante, contratou um helicóptero para voar baixo sobre o piquenique republicano do condado e estragou toda a festa.

Cadeia. Um pouco mais no estilo durão de New Jersey foi um adversário de Gewertz, o senador pelo Estado, James M. Turner. Ele tramou um plano para plantar drogas na casa de Gewertz numa tentativa de enquadrá-lo e arruiná-lo. Turner pegou 5 anos de prisão por essa piada de mau gosto, mas conseguiu ganhar a primária do Partido Republicano antes de sumir atrás das grades.

A governadora republicana Christie Whitman, que chefiou o Estado nos anos 90, antes de sair em 2001 para se juntar ao governo do presidente George W. Bush, em Washington, também foi divertida em razão de sua própria e irascível maneira. Ela certa vez se permitiu ser fotografada revistando um jovem negro contra a parede durante uma batida da polícia estadual em Camden. O sorriso imbecil em seu rosto valeu a foto, estampada em praticamente todos os jornais da região.

Ninguém ligou muito que seu sucessor, Jim McGreevey, fosse, como ele o colocou, "um gay americano". O que nos importou foi que ele nomeou seu namorado despreparado e incompetente, um relações públicas israelense, seu consultor de segurança. Isso pôs o pessoal muito acima do trabalho que esperamos que um governador faça.

McGreevey não era engraçado, tampouco, embora eu imagine que tenha sido um pouco engraçado, de certa maneira, que sua carreira tenha implodido quando seu amado ameaçou processá-lo por assédio sexual depois de McGreevey ter colocado o cara num emprego estadual de US$ 110 mil.

Ascensão. Christie, com quase nenhuma qualificação visível, foi nomeado procurador dos EUA para New Jersey em 2002. Este é um grande emprego. Kim Kardashian poderia encontrar corrupção em New Jersey e obter condenações. Temos políticos desonestos tão estúpidos que se arriscarão à cadeia por uma sinecura ou o calçamento gratuito do passeio de sua casa. Assim, Christie obteve bons números de condenações no cargo e depois teve a sorte de concorrer para governador contra Jon Corzine, um sujeito impopular de Wall Street, logo depois de Wall Street arrebentar toda a economia americana.

O escândalo de Fort Lee ocorreu porque Christie (ou seus assessores) não ficou satisfeito de ganhar a reeleição. Ele queria ganhar de goleada e posar de unificador, apesar de sua história documentada de atacar publicamente os que discordam dele.

A coletiva na quinta-feira foi perfeita. Ele disse que acabara de saber o que todos no Estado suspeitavam havia semanas - que seu próprio pessoal havia criado um pesadelo de tráfego em Fort Lee para prejudicar o prefeito local democrata. Depois ele tripudiou sobre seu pessoal. Depois ele chafurdou na autocomiseração pela maneira como o haviam traído. Isso não é engraçado, é lamentável.

Bobagem, como dizemos em Paramus. Era sua gente fazendo o que acreditava que fosse a sua vontade. Se eles eram incompetentes, eram incompetentes escolhidos a dedo com os quais ele estava perfeitamente satisfeito até pisarem no seu calo.

Como disse meu amigo Tom O'Neil, que vem acompanhando a política de New Jersey há várias décadas: "É por isso que há sinecuras, para que os palhaços que o elegeram não estraguem as coisas indo ao trabalho". Isso é engraçado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA, GANHADOR DO

PRÊMIO PULITZER E DA SOCIEDADE

AMERICANA DE EDITORES DE JORNAIS,

E FOI PROFESSOR DAS UNIVERSIDADES DE DAKOTA DO NORTE, SUL DA FLÓRIDA

E RUTGERS

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