Caso de corrupção se aproxima de Erdogan

Premiê turco se alia a empresários, entra em choque com líder conservador e pode perder seu eleitorado cativo

SEBNEM ARSU, , CEYLAN YEGINSU & , TIM ARANGO, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2013 | 02h02

Quando construiu sua carreira, o poderoso premiê da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, teve apoio de um pregador místico sufi, cuja base de operações está hoje na Pensilvânia, nos EUA. Os dois uniram forças numa batalha contra a elite militar secular, que foi mandada de volta para os quartéis e fez da Turquia um exemplo de governo islâmico democrático moderno. Agora, um escândalo de corrupção ameaça Erdogan e revela uma fratura no governo.

Na quinta-feira, depois de várias revelações sensacionais de casos de corrupção, o chefe de polícia de Istambul foi demitido, enquanto o governo realizava um expurgo na polícia e entre os próprios funcionários que conduzem as investigações. Adotando a mesma estratégia que empregou durante a repressão aos protestos contra a incorporação imobiliária de um parque de Istambul, Erdogan define sua atuação como o combate a uma "gangue de criminosos" com ligações com o exterior.

Ele se referem, aparentemente, a Fethullah Gulen, o imã da Pensilvânia que professa o braço místico do Islã, o sufismo, e cujos seguidores estariam ocupando importantes postos no governo da Turquia, incluindo na polícia, no Judiciário, na mídia e nos negócios. Erdogan resistiu aos protestos graças ao apoio de sua base, embora, no exterior, sua imagem esteja deteriorada. A investigação, porém, é um desafio ainda maior.

O inquérito foi concluído com a prisão de vários empresários próximos a ele, incluindo magnatas da construção civil, filhos de ministros e funcionários do governo. Erdogan e Gulen discordaram em diversas questões importantes, embora os atritos tenham sido mantidos em sigilo.

Gulen opõe-se à política externa do governo no Oriente Médio, principalmente seu apoio aos rebeldes na Síria. Ele também seria favorável a Israel e as tensões pegaram fogo depois do episódio do Mavi Marmara, em 2010, quando tropas israelenses abordaram uma embarcação que transportava ajuda a Gaza e mataram nove pessoas. "Os seguidores de Gulen nunca aprovaram o papel que o governo assumiu no Oriente Médio", disse Ali Bulac, intelectual que apoia Gulen.

A escalada da crise, segundo especialistas, evidencia o poder que Gulen acumulou e ameaça dividir o eleitorado cativo de Erdogan, composto por conservadores religiosos. Gulen deixou a Turquia em 1999, quando foi acusado pelo então governo secular de conspirar para estabelecer um Estado islâmico. Mais tarde, foi inocentado e está livre para voltar, mas nunca quis e vive tranquilamente nos EUA.

Huseyin Gulerce, aliado de Gulen, escreve para um jornal ligado a ele e disse que seus seguidores têm várias queixas contra Erdogan, que teria se tornado autoritário e abandonado as reformas democráticas e a tentativa de ingressar na União Europeia. "Foi a crise do Mavi Marmara que criou as primeiras fraturas", disse Huseyin. "Gulen sempre achou que a Turquia não deveria correr riscos em sua política externa e deveria continuar voltada para o Ocidente. Agora, o estranhamento dos dois talvez não tenha mais jeito."

O inquérito sobre a corrupção revelou o grau de concentração do poder na Turquia. A investigação tem como pano de fundo as ligações entre o Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, e uma nova elite econômica do setor da construção civil, que chegou ao poder com ele na década passada.

Os habitantes de Istambul são diariamente lembrados do poder de Erdogan e dos empresários da construção civil.

"Erdogan levou dez anos, mas, aos poucos, apoderou-se da cidade", disse Mehmet Ali Guler, comerciante de roupas, "Ele expulsou os pobres e abriu grandes espaços de luxo para os ricos." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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