REUTERS/Amit Dave
REUTERS/Amit Dave

Caso de estupro ocorrido em 2012 inspira diretora a produzir documentário

No filme "A Filha da Índia", diretora discute a violência sexual contra as mulheres e destaca a importância de se debater o assunto

Entrevista com

Leslee Udwin, diretora de cinema

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2015 | 18h41

Em 2012, a indiana Jyoti Singh e um amigo voltavam para casa após terem ido ao cinema quando foram enganados por alguns homens e convencidos a entrar em um ônibus. Depois de espancarem o jovem, estupraram Jyoti violentamente com uma haste, deixando-a com ferimentos internos graves, que levaram à sua morte. O caso chocou a Índia e provocou manifestações durante vários dias nas ruas de Nova Délhi, conhecida como a “capital do estupro”. Centenas de homens e mulheres levavam cartazes com os dizeres “Salvem as mulheres”.

A história do estupro, que durou quase uma hora, inspirou a diretora Leslee Udwin a produzir o polêmico longa-metragem “India’s Daughter” (“A Filha da Índia”), no qual ela discute a violência sexual contra as mulheres. Em entrevista ao Estado, Leslee destacou que esse é um problema global e a questão principal está relacionada à cultura dos indianos e não a suas leis.

“A Filha da Índia” será exibido nesta quarta-feira, 16, às 20h, no Auditório Ibirapuera - Oscar Niemeyer. Após a exibição, haverá um debate sobre o tema com a participação da diretora e de especialistas em questões relacionadas a gênero e direitos humanos.

Confira a entrevista a seguir.

Como foi para você, sendo mulher, entrevistar os estupradores da garota que foi violentada em 2012?

Foi muito difícil para mim, não apenas por ser mulher, mas por ser alguém que foi estuprada aos 18 anos. Quando eu estava frente a frente com eles, passei três horas ouvindo cada detalhe sobre o que eles fizeram com aquela garota. Foi definitivamente traumático. O que me surpreendeu foi que eu não senti raiva. Senti pena. O que ficou claro para mim é que esses homens não eram monstros, eram seres humanos que foram educados desde pequenos a verem as mulheres sem nenhum valor. Os estupradores foram preparados pela cultura deles, pela sociedade deles a pensar como eles pensam e a agir como agem.

O advogado de um dos estupradores tem uma visão muito própria do crime e das mulheres. Qual foi a sua reação a isso?

Eu realmente quis agredi-lo. Tiveram de me segurar na cadeira para que eu não avançasse sobre ele. Eu estava com tanta raiva daquele homem. Foi um tanto chocante ver alguém que teve uma educação tão boa alimentar um ódio enorme pelas mulheres. Mas o que eu entendo é que não se trata apenas de ser educado academicamente. É sobre o que tem sido ensinado às pessoas, a cultura. Não estamos educando nossas crianças de verdade. Precisamos ensiná-las sobre respeito e compaixão e a ver o mundo de outro ponto de vista. Se não as ensinarmos esses valores morais, como podemos esperar que os garotos se comportem?

O que a motivou a fazer o documentário: o crime ocorrido em 2012 ou o seu próprio passado?

Não teve nada a ver com o que aconteceu comigo no passado. O filme é uma resposta ao caso de 2012. Esse crime foi apenas mais um episódio da violência horrenda que ocorre no mundo a todo segundo. Mulheres são estupradas todos os dias. Mas achei admirável o comportamento da população na época. Centenas de homens e mulheres foram às ruas pedindo “já chega!”, “não teremos mais as nossas garotas desrespeitadas”. Mesmo assim, o governo da Índia proibiu a exibição do filme. Isso era para ser uma democracia? Foi uma vergonha para o país. Uma vergonha trazida não pelo filme em si, mas pelo fato de ele ter sido proibido.

A lei indiana contribui para que mais crimes de estupro ocorram no país?

Não há nada errado com a lei na Índia. O que está errado é a mentalidade e a aplicação dessas leis. A maioria das famílias indianas acaba “vendendo” suas filhas para uma escravidão doméstica. E elas o fazem porque a cultura é mais forte que a lei. Algumas delas não favorecem as mulheres, mas o problema é que os estupros continuam sem ser debatidos. O que precisamos fazer é mudar a mentalidade das pessoas. E só podemos fazer isso com educação.

Confira na edição impressa de sexta-feira, 18, a íntegra da entrevista com Leslee Udwin.

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