Caso dos grampos derruba policial cotado para chefiar Scotland Yard

Demissão de número 2 da polícia londrina agrava crise iniciada com as escutas ilegais do tabloide ''News of the World''; jornalista que revelou conexão de ex-assessor de premiê com espionagem é achado morto - investigadores não veem indício de crime

, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2011 | 00h00

LONDRES

O escândalo de escutas telefônicas ilegais fez a segunda vítima do alto escalão da polícia britânica. John Yates, vice-chefe da Scotland Yard, demitiu-se ontem, um dia após a saída do número 1 da polícia, Paul Stephenson. Ele era cotado para assumir o posto. O caso ganhou um tom de mistério com a morte do jornalista Sean Hoare, que denunciou o envolvimento de seus chefes no esquema de grampos do jornal News of the World.

Hoare foi o primeiro jornalista do tabloide a confirmar que o ex-diretor da publicação, Andy Coulson, estava ciente das escutas ilegais. Coulson chegou a trabalhar como assessor de comunicação do premiê David Cameron e, por causa do escândalo, apresentou sua demissão no início do ano. A polícia não relaciona a morte de Hoare ao caso dos grampos.

 

 

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Hoare foi afastado do tabloide por problemas com álcool e drogas. A polícia trabalha com a hipótese de overdose. Um telefonema anônimo avisou os serviços de emergência sobre "a preocupação com o bem estar de um homem", fornecendo o endereço do repórter.

Recentemente, o jornalista afirmou ao New York Times que os repórteres do News of the World tinham acesso à tecnologia que permite localizar pessoas por meio de telefones celulares em troca do suborno de policiais. Na semana passada, ele explicou para os repórteres do jornal britânico The Guardian como era feito o grampo.

Hoare admitiu os problemas com álcool e bebida, mas disse que passou por reabilitação. "Isso é irrelevante. Há mais por vir. Isso não vai desaparecer." O jornalista apontou um detetive particular que teria ligação com o News of the World e poderia dar mais informações sobre o caso.

Alto escalão. Foram as denúncias de que os grampos eram encobertos pela Scotland Yard que derrubaram o alto escalão da polícia britânica. Depois da saída de Stephenson, que admitiu o suborno de alguns policiais e contratou o ex-executivo do News of the World Neil Wallis como consultor de comunicação, foi a vez de seu vice se demitir.

Yates, responsável por coordenar as operações antiterrorismo, foi o responsável, há dois anos, por impedir as investigações das denúncias de grampos. A Comissão Independente de Queixas contra a Polícia Britânica (IPCC, na sigla em inglês) recebeu ontem denúncias contra Stephenson, Yates e outros dois ex-funcionários da Scotland Yard: o ex-chefe Andy Hayman e seu vice, Peter Clarke.

Ontem, a polícia confirmou que Alex Marunchak trabalhou ao mesmo tempo como interprete ucraniano da Scotland Yard e como repórter do News of the World entre 1980 e 2000. A ministra do Interior, Theresa May, anunciou um inquérito para apurar as acusações de corrupção policial.

Investigadores analisam um computador, documentos e um telefone encontrados em uma bolsa deixada na lixeira de um estacionamento perto da casa em que Rebekah Brooks, ex-editora do tabloide, vive com Charles Brooks, ex-treinador de cavalos de corrida e amigo íntimo de Cameron.

De acordo com o Guardian, Charles tentou recuperar a bolsa, afirmando que um amigo a tinha perdido, mas seguranças se recusaram a entregá-la. No fim do dia, ele mudou a versão e disse que a bolsa não era de sua mulher. / NYT e REUTERS

PONTOS-CHAVE

A polícia de Londres no caso Murdoch

Descaso

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Omissão

Scotland Yard admite que não levou ao premiê David Cameron a conexão de seu ex-porta-voz com o caso. O último da cúpula da instituição a cair é John Yates

Em apuração

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