John Autey/Pioneer Press via AP
John Autey/Pioneer Press via AP

Caso Floyd é chance de discutir racismo, diz procurador-geral de Minnesota

Keith Ellison foi o primeiro negro a se tornar procurador-geral do Estado de Minnesota e é o nome por trás da histórica condenação do policial que matou George Floyd

Entrevista com

Keith Ellison, procurador-geral

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2021 | 05h00

MINNEAPOLIS, EUA - As ruas de Minneapolis ficaram em festa há pouco mais de um mês, quando um júri considerou o ex-policial Derek Chauvin culpado pelo homicídio de George Floyd. Parte do país projeta no veredicto a esperança de viver uma nova era de justiça racial. Primeiro negro a se tornar procurador-geral do Estado de Minnesota, Keith Ellison é o nome por trás da histórica condenação de Chauvin. Coube a ele coordenar a estratégia de acusação. Mas o resultado, segundo Ellison, é apenas o primeiro passo. “Uma janela se abriu, mas ainda temos muito mais trabalho a fazer”, afirmou. A seguir, trechos da entrevista de Ellison ao Estadão

Um ano após a morte de Floyd, o que mudou nos EUA?

Uma janela se abriu, mas temos muito mais trabalho a fazer. O que aconteceu é bom, mas estamos falando de um padrão histórico de uso de força excessiva contra os negros. Temos uma oportunidade. Precisamos aprovar legislação nacional. Precisamos aprovar legislação local. Precisamos criar o hábito de processar a polícia quando ela viola a lei.

O sr. já foi um deputado. O que impede o Congresso de promover mudanças ousadas quando falamos de racismo?

Há as pessoas que acreditam que a lei é aplicada igualmente porque são brancos. E, por serem brancos, não acreditam que a polícia é mais dura com os negros, simplesmente porque nunca aconteceu com eles. E tem gente que ainda acredita que, se não vivenciou algo, é porque aquilo não acontece nunca. E há as outras pessoas que sabem do tratamento desigual, estão satisfeitas com isso e com a manutenção do privilégio. São as pessoas que realmente apoiam uma polícia racista. Então, há os que não têm conhecimento e precisam ser convencidos e os que realmente estão satisfeitos com o fato de a polícia ser injusta.

O primeiro grupo, dos que não têm conhecimento, foi convencido após os protestos?

Acho que sim, a conscientização realmente se espalhou pelo país. Muito mais gente está consciente sobre o que aconteceu. E há muito mais gente preocupada e com desejo de que algo seja feito com relação a isso. É por isso que acho que temos uma janela, uma oportunidade. Temos de aproveitar ao máximo esse momento.

O que fez o caso Floyd ter um desfecho diferente de tantos outros? 

Eu não sabia se iríamos ganhar esse caso ou não. Mas uma coisa que posso dizer é que todos nós vimos George Floyd sendo tratado como foi por nove minutos e meio. O mundo inteiro viu. Até as pessoas no Brasil viram, certo? No entanto, sabemos de outros casos em que a violência policial foi gravada e o júri deixou os policiais em liberdade. Essa era uma situação em que muitas pessoas viram com seus próprios olhos. Foi tão chocante que eles não puderam virar as costas. Uma pesquisa no Google sobre a violência policial contra negros mostra um monte de histórias. É nome seguido de nome, seguido de outro nome, outro nome. Mesmo em Minnesota, tivemos um homem que foi baleado e morto por um policial, registrado em vídeo, e o policial saiu livre. Muita frustração foi se acumulando e este vídeo veio como um exemplo perfeito.

Em entrevista o sr. disse que a história sempre esteve ao lado do policial. Acredita que a condenação pode mudar esse padrão?

Precisamos de muitas outras mudanças. Precisamos de mudanças legislativas no nível nacional e local. Eu ficaria muito feliz se o governo federal criasse um registro de todas as mortes causadas por policiais, seria de grande ajuda. Também gostaria de ver, por exemplo, um padrão nacional para banir e proibir a prática de estrangulamento (imobilização pelo pescoço). Muitas coisas precisam ser feitas. A condenação passa a mensagem de que ninguém pode matar alguém e fugir da responsabilidade. E a mensagem de que ninguém é inferior na nossa sociedade, que não se pode fazer o que você quer com outra pessoa achando que outros não irão se importar.

O sr. decidiu não acusar Chauvin por crime de ódio. Por que?

Quando fazemos uma acusação, precisamos ser capazes de provar que a pessoa violou a lei. É preciso provar, por exemplo, através de uma testemunha que diga que era uma questão de preconceito racial. Sem uma referência explícita, não sei como provaríamos. Normalmente, quando vemos acusações de crimes de ódio nos EUA há, por exemplo, um sinal de racismo que a pessoa carrega ou deixa, como uma suástica. Aí o criminoso não precisa dizer uma palavra, mas usa símbolos que são associados ao ódio racial. Neste caso, no entanto, o contexto social é de preconceito racial, mas é difícil provar que Derek Chauvin fez isso com George Floyd porque e Floyd era negro. Mas, mesmo que não tenha sido um crime de ódio, ainda era um crime que tinha muitas implicações raciais, porque todo mundo nos EUA sabe que um homem branco rico nunca seria tratado assim. Sabemos que, na nossa sociedade, os brancos não são tratados assim. Elas simplesmente não são. As pessoas nem se lembram quando uma pessoa branca foi morta pela polícia. É muito raro.

O sr. acredita que a justiça foi feita?

Não tivemos justiça, tivemos responsabilização, que é o primeiro passo.

Está otimista sobre a forma como o país passou a olhar para racismo e brutalidade policial?

Estou esperançoso, mas há um longo caminho pela frente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.