Caso Hariri ainda causa temor de crise no Líbano

Indiciamento de assassinos do premiê está próximo

JANINE ZACHARIA, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

A ONU estabeleceu um tribunal especial para julgar os suspeitos do assassinato, em 2005, do premiê libanês Rafiq Hariri, uma tentativa para impedir novas violências no Líbano. No entanto, muita gente no país teme que os indiciamentos causem uma nova crise política e até mesmo um banho de sangue entre facções sectárias.

O Hezbollah, partido político e milícia xiita, está tentando desacreditar o processo, já que há indícios de que alguns de seus membros serão acusados pelo assassinato quando a denúncia formal for apresentada, em setembro. Os líderes do Hezbollah pressionaram o governo libanês para encerrar sua cooperação com os investigadores da ONU. Para o líder druso Walid Jumblatt, o indiciamento do Hezbollah pode desencadear uma guerra civil como a que durou de 1975 a 1990.

Mediadores tradicionais nos conflitos no Líbano, como o rei Abdullah Saud, da Arábia Saudita, e o presidente sírio, Bashar Assad, estiveram no Líbano nas últimas semanas para tentar impedir a crise. De acordo com fontes libanesas, o rei saudita, que era muito próximo de Hariri, ficou tão preocupado com as advertências do Hezbollah que vem procurando adiar a divulgação das acusações, estabelecendo duas opções para a comunidade internacional: estabilidade no Líbano ou justiça para Hariri.

A disputa interna surge no momento em que as tensões na região e as preocupações com uma possível guerra entre Israel e Líbano aumentaram após confrontos ao longo da fronteira, que provocaram a morte de dois soldados libaneses e um oficial israelense, na semana passada.

Na segunda-feira, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, tentou incriminar Israel no caso Hariri. Em aparição na TV, Nasrallah, como se fosse um advogado, ofereceu argumentos e evidências para provar que Israel estaria por trás do assassinato de Hariri. Autoridades israelenses rejeitaram as alegações como absurdas. "A comunidade internacional, o mundo árabe e a população libanesa sabem que essas acusações são ridículas", disse um oficial israelense. Na terça-feira, o porta-voz do governo de Israel declarou que nenhum comunicado será emitido a respeito.

Em tom dramático, o líder do Hezbollah procurou comprovar seus argumentos com vídeos de espiões libaneses confessando que haviam trabalhado para Israel. E indagou quais as razões pelas quais o tribunal, criado dois anos após o assassinato de Hariri, não tinha interrogado nenhum deles.

Nasrallah mostrou o que disse ser uma gravação israelense sobre as rotas de viagem de Hariri. "Achamos que os vídeos foram feitos para preparar uma operação", disse. Ele afirmou que caças israelenses sobrevoaram o local onde Hariri foi atacado e um espião israelense estava presente na cena do crime.

Segundo Nasrallah, Israel queria assassinar Hariri e acusar o grupo. Ele disse que o Hezbollah não confiava nos investigadores da ONU e não mostraria a eles suas descobertas.

Para muitos observadores, o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, de 40 anos, filho do premiê assassinado, se defronta com a difícil escolha de continuar as investigações para descobrir quem matou seu pai ou aceitar as exigências do Hezbollah e manter a unidade e a estabilidade do país.

Pressões. "Ele está numa posição difícil", disse uma pessoa próxima a Hariri, que não quis se identificar. "Mas continua comprometido com o tribunal. Saad não acredita que o Hezbollah conseguirá impedir o processo e não permitirá uma guerra civil", disse a fonte.

Em discurso no dia 24, Hariri declarou que "a alma ferida de seu pai não será razão para reiniciar uma guerra civil no Líbano". Mas não disse como vai conseguir isto. Quando teve problemas com o Hezbollah em recentes ocasiões, Saad Hariri foi incapaz de resistir às pressões do grupo.

Há dois anos, quando o governo tentou fechar uma enorme rede de telecomunicações do Hezbollah, suas milícias tomaram o controle de Beirute em 24 horas, colocando em dificuldade o Exército libanês e mostrando poder para derrubar Hariri. Em resposta, o premiê concordou em dar ao Hezbollah, considerado um grupo terrorista pelos EUA, assentos no gabinete. Hoje, a organização controla vários postos importantes no governo.

A família Hariri precisa "pensar com cuidado sobre as próximas medidas porque, francamente, ninguém quer acabar com a paz no Líbano, com a tranquilidade que desfrutamos hoje e provocar um confronto", disse Habib Malik, professor da Universidade Americana do Líbano.

As pressões para saber quem matou Rafiq Hariri continuam. O sunita não era somente um líder político popular dentro da sua facção religiosa, mas uma figura capaz de passar por cima das flagrantes divisões sectárias em um país que é uma frágil mescla de sunitas, xiitas e cristãos.

Empresário rico, ele investiu muito na economia e infraestrutura do país, tendo deixado um enorme legado na reconstrução do Líbano. Em cartazes que podem ser visto por toda Beirute, o rosto de Hariri aparece, com a frase "Verdade para o Líbano".

Cinco anos após seu assassinato, o caixão do premiê está sob um pavilhão no centro de Beirute, que até hoje atrai muitos visitantes. "Seria difícil para os libaneses esquecer ou perdoar o assassinato", disse Mohamed Choucair, presidente da Câmara de Comércio de Beirute. "Ele não só apoiou e respaldou a reconstrução do Líbano, mas transformou o país em uma grande potência econômica no Oriente Médio." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA DO "WASHINGTON POST"

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