Caso levanta temores sobre presença islamista em Londres

'John, o Carcereiro', não é o único britânico entre os radicais do EI; estima-se que haja pelo menos 500 jihadistas no país

ALEX MASSIE , FOREIGN POLICY / LONDRES, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h02

Ele é "John, o Carcereiro" para os prisioneiros, mas "John, o jihadista" para os tabloides londrinos, neste momento, talvez seja o homem mais procurado do mundo. É "Ele", o jihadista que o mundo todo viu decapitando o jornalista americano James Foley na Síria. É britânico e, pior ainda, não está sozinho.

Se o algoz de Foley fosse um bandido radical ou um "lobo solitário", seria mais fácil menosprezá-lo como um louco extremista como os que afligem todos os países. Mas ele não age sozinho. Calcula-se que seja um dos cerca de 500 cidadãos britânicos que estariam lutando com o Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque. Acredita-se que seja o responsável por vigiar vários reféns estrangeiros em Raqqa, a capital do EI no norte da Síria. Ao que se informa, ele e seus companheiros britânicos receberam o apelido de Beatles pelos colegas assassinos.

É também uma indicação de algo mais importante: longe de serem produtos de um austero e rigoroso fundamentalismo religioso, os jihadistas de hoje podem se originar no Ocidente em geral, onde conseguem passar despercebidos.

Em toda a Europa, da França à Bélgica ou à Suécia, existiriam várias centenas de extremistas islâmicos que combatem com o EI no Oriente Médio. E nem os EUA estariam imunes do fenômeno. Mas o assassinato de Foley fez com que o foco se deslocasse sobre o problema específico, e agudo da Grã-Bretanha, do radicalismo islâmico que brotou nesse país.

Como disse o primeiro-ministro David Cameron, em seu artigo no Daily Telegraph da semana passada: "Estamos em plena luta contra uma ideologia letal e extremista, uma luta que teremos de lutar até o fim da minha vida política.

"Enfrentamos no EI uma nova ameaça obsessiva, determinada e inabalável na busca de seus objetivos". A ameaça, insistiu, poucos dias antes de John, o jihadista, enxovalhar o YouTube com seu ato sanguinário, é interna e também externa. "Se não agirmos para acabar com a ofensiva deste movimento terrorista excepcionalmente perigoso, ele acabará se fortalecendo até nos alvejar nas ruas da Grã-Bretanha. Já sabemos que ele tem esse objetivo assassino. Na realidade, no continente europeu já ocorreram atos terroristas inspirados pelo EI."

O algoz de Foley não é o primeiro jihadista britânico que orquestra a decapitação de um jornalista americano. O sequestro e a execução do jornalista do Wall Street Journal, Daniel Pearl, em 2002, foram organizados por Omar Sheikh, um radical de 28 anos, nascido no norte de Londres.

No ano passado, por exemplo, dois muçulmanos recém-convertidos esfaquearam, mataram e tentaram decapitar Lee Rigby, membro do Real Regimento de Fuzileiros, numa rua de Londres em plena luz do dia. Num vídeo gravado na cena do crime, um dos assassinos explicou: "A única razão pela qual matamos este homem hoje é porque diariamente soldados britânicos estão matando (sic) muçulmanos. E este soldado britânico é um deles".

Nem todos os jihadistas britânicos são motivados por paixões religiosas. Para alguns, a jihad se tornou um sinal de estilo de vida radical e chique. Uma opção de vida como outra qualquer. Abdel-Majed Abden Mary, outro jihadista londrino, postou recentemente uma imagem no Twitter em que ele aparece exibindo uma cabeça decepada. Sua mensagem foi: "Assustador com meu companheiro, ou o que restou dele".

Muitos são motivados menos por uma visão austera do Islã e mais pela simples excitação de fazer parte de uma causa. Os jihadistas que se criaram no Ocidente são pouco diferentes dos partidários de organizações políticas extremistas não islâmicas. Se existisse uma lista de características que identificassem um indivíduo como jihadista em potencial seria mais fácil monitorar prováveis suspeitos. Mas não existe. Não surpreende que os serviços de segurança muitas vezes pareçam estar se movendo no escuro. A repressão de pregadores radicais ou a monitoração de associações islâmicas nas universidades pode ser um começo. Mas essas iniciativas existem há dez anos e não são suficientes.

Dos 500 britânicos que se acredita tenham ido para a Síria e o Iraque para pegar em armas com o EI, os serviços de segurança da Grã-Bretanha - MI5 e MI6 - suspeita-se que metade voltou para a Grã-Bretanha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.