Caso Litvinenko supera a ficção, dizem escritores

A vida supera a ficção. Para os escritores de romances de mistério, o envenenamento por material radioativo do ex-espião russo Alexandre Litvinenko é um caso típico em que a realidade supera a criatividade literária.Cada novo desdobramento da trama macabra vem dando origem a novas teorias da conspiração, ressuscitando lembranças dos tempos da Guerra Fria e abalando as relações diplomáticas entre Rússia e Grã-Bretanha.Litvinenko, enterrado na semana passada no mesmo cemitério londrino onde está Karl Marx, acusou antes de morrer o presidente Vladimir Putin pelo envenenamento, o que o Kremlin negou com veemência.A caça a vestígios de radiação passou por aviões, hotéis e hospitais, de Londres a Moscou, de Roma a Hamburgo.Frederick Forsyth, um dos escritores de suspense mais famosos do mundo, disse que seus editores jamais acreditariam numa trama dessas. "Acho que meu editor me aconselharia a abandoná-la e preferir alguma coisa mais realista", disse o escritor, que fez fama com "O Dia do Chacal", sobre um plano para assassinar o presidente francês Charles de Gaulle."Acho que meu editor me diria que eu estava exagerando e que eu devia dar um tempo. Está ficando muito difícil escrever alguma coisa que não fique superada, por mais bizarra e maluca que seja", disse ele à Reuters.Fascinado pelo caso Litvinenko, ele afirmou: "É o que sempre aconteceu, e está ficando pior, primeiro dentro da Rússia, e agora, parece, para além de suas fronteiras. Não vimos esse tipo de assassinato por encomenda no exterior há 20 anos"."Mas por que preferir esse jeito bizarro de executá-lo, deixando toda essa confusão como rastro?", questionou.John Le Carré, cujos livros como "O Espião que Veio do Frio" evocam o clima da Guerra Fria, evita se envolver no caso. "Decidi resistir às perguntas sobre esse assunto", disse ele à Reuters, respondendo a um pedido de entrevista por email. "Com as provas que temos diante de nós confesso minha total perplexidade e não considero minhas conjecturas mais críveis que as de qualquer outra pessoa".O soldado britânico que virou escritor Andy McNab, que ficou famoso com o livro de 1993 "Bravo Two Zero", onde narra uma missão fracassada do SAS (Serviço Aéreo Especial) na Guerra do Golfo, disse: "A realidade é sempre mais estranha que a ficção".Assim como Forsyth, ele acha que não conseguiria vender a história para seus editores. "Tentar explicar essa trama para eles seria um pesadelo", disse McNab. "Todo mundo ficaria confuso."

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