Arquivo/Reuters
Arquivo/Reuters

Caso Nisman vai à Justiça Federal e tese de homicídio se fortalece

A juíza que conduzia o caso, Fabiana Palmaghini, havia pedido a mudança de esfera, uma requisição da família, por considerar que a morte teve relação com o trabalho do promotor

RODRIGO CAVALHEIRO - CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S. Paulo

23 de março de 2016 | 10h11

A investigação da morte do promotor argentino Alberto Nisman passou nesta terça-feira, 22, à Justiça Federal, como reivindicava a família, que acredita ter provas de que ele foi assassinado. A juíza que conduzia o caso, Fabiana Palmaghini, havia pedido a mudança de esfera por considerar que a morte teve relação com o trabalho de Nisman.

Ele apurava um crime federal, o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994, que matou 85. Quatro dias antes de ser encontrado com um tiro na cabeça em seu banheiro, em 18 de janeiro de 2015, havia acusado a ex-presidente Cristina Kirchner e parte da cúpula do governo de tentar proteger acusados iranianos em troca de vantagens comerciais. Sua denúncia foi arquivada.

Onze dias após a posse do presidente Mauricio Macri, em dezembro, a promotora que comandava o trabalho, Vivana Fein, foi afastada e denunciada criminalmente por falhar na conservação de pistas no apartamento do bairro de Puerto Madero, em Buenos Aires. Palmaghini assumiu o posto e, depois de ouvir durante 15 horas o ex-espião Jaime Stiuso, solicitou a passagem do caso à Justiça Federal. O agente secreto, o último para quem Nisman ligou, alimentava a apuração com escutas.

"Demoraram cinco meses para descobrir uma linha telefônica no apartamento de Nisman. Eu recebi a última foto que ele mandou de seu celular e fui chamado a declarar 10 meses depois da morte. Custo a acreditar só em incompetência", disse ao canal TN o deputado governista Waldo Wolf, ex-vice-presidente da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA).

No dia 25 de fevereiro, o promotor-geral da Câmara Penal Ricardo Sáenz sustentou em um texto de 11 páginas que haveria fundamentos suficientes na perícia independente encomendada pela família de Nisman para considerar que houve um homicídio. Durante o governo kirchnerista, os indícios apontados pela investigação oficial apontavam para um suicídio, embora Fein garantisse trabalhar com as duas hipóteses. 

O técnico em informática Diego Lagomarsino, dono da arma que matou o promotor, tentou impedir que a causa chegasse à Justiça Federal. Ele entrou com um recurso para que a investigação seguisse o curso atual, onde foi indiciado por ter emprestado a pistola calibre 22. Na esfera federal, a hipótese de homicídio passa a ser a mais forte e Lagomarsino assume papel de suspeito, por ter sido a última pessoa com quem Nisman falou. Ele deve ser chamado a dar novo depoimento.

Segundo Lagomarsino, o promotor pediu¬ a arma para proteger as filhas. Meses após a morte, uma pistola similar foi encontrada entre objetos de Nisman, o que levou a família a questionar por que ele pediria uma emprestada. Perícia contratada pelos parentes concluiu que a morte ocorreu 12 horas antes do apontado no laudo oficial, em um momento mais próximo do encontro com Lagomarsino, contra o qual nenhuma evidência foi encontrada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.