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Casos de impeachment 

O fim do ciclo de crescimento econômico é que pode contribuir para saída de Trump

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2018 | 05h00

A semana foi dura para o presidente Donald Trump. Seu ex-advogado, Michael Cohen, testemunhou ter pagado, na campanha de 2016, por ordem do então candidato, pelo silêncio de duas mulheres com as quais Trump teria tido casos. A Constituição americana prevê impeachment por “traição, suborno e outros crimes e desmandos graves”. Enganar os eleitores pode se incluir aí. 

Além disso, as investigações do procurador especial Robert Mueller sobre o envolvimento da Rússia na eleição resultaram no primeiro veredicto. Paul Manafort, que coordenou a campanha de Trump no primeiro semestre de 2016, foi condenado por ocultar seus trabalhos de lobby para clientes estrangeiros, incluindo o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich, aliado do russo Vladimir Putin.

Não é motivo para impeachment, mas indica que Mueller está avançando. Sua equipe tomou 30 horas de depoimento do conselheiro da Casa Branca Don McGahn. Trump não escondeu sua preocupação com esse longo interrogatório.

Hoje não há condições políticas para impeachment. O processo é aberto por maioria simples na Câmara dos Deputados e a condenação, aprovada por dois terços do Senado. Os republicanos têm maioria em ambos. 

Os próprios democratas evitam falar em impeachment, para não serem prejudicados nas eleições de 6 de novembro. A Câmara será toda renovada, e os democratas podem obter a maioria simples. Mas será eleito apenas um terço do Senado. A conquista de dois terços é improvável.

Para que os senadores republicanos aderissem, depois das eleições, ao impeachment do presidente, seria necessário que sua popularidade caísse entre o eleitorado do partido. Os índices de aprovação de Trump têm variado pouco desde o início do mandato. Segundo pesquisa publicada na sexta-feira pela Associated Press, 60% dos americanos desaprovam sua gestão e 38% aprovam. 

A sondagem foi realizada antes da condenação de Manafort, na terça-feira. Mesmo assim, já evidencia o incômodo do eleitorado: dois terços desaprovam os ataques de Trump à investigação de Mueller. De dez aspectos, esse merece a maior desaprovação dos republicanos: um terço.

Em contrapartida, Trump tem a maior aprovação na economia: 51% dos eleitores em geral, 90% dos republicanos e 23% dos democratas. O índice é bem mais alto do que a aprovação dos democratas para a gestão como um todo: 7%.

A história sugere estreita correlação entre desempenho econômico e processos de impeachment americanos (e brasileiros). Quando Richard Nixon iniciou o segundo mandato, em janeiro de 1973, o índice S&P 500 da Bolsa de Nova York batia alta recorde, assim como a popularidade do presidente. 

Isso, sete meses depois da eclosão do escândalo de Watergate. No fim daquele ano, em meio à crise do petróleo, a inflação tinha subido de 2,5% para 4,7%, enquanto o S&P 500 caía 17%. A aprovação de Nixon desabou de quase 70% para 30%. Nesse período, a tese de impeachment ganhou força. 

De janeiro a julho de 1974, o S&P 500 caiu outros 19%, a inflação bateu em 8% e a aprovação de Nixon foi a 20%. No dia 9 de agosto, diante da perda de apoio republicano e do impeachment iminente, Nixon renunciou.

Compare agora com Bill Clinton: seu processo de impeachment não afetou a economia. O S&P 500 subiu 30% entre a eclosão do escândalo envolvendo a estagiária Monica Lewinsky, em janeiro de 1998, e a rejeição do impeachment pelo Senado, em fevereiro de 1999.

O mercado não se abateu na semana passada: o S&P subiu 0,9%; Nasdaq, 1,7%; e Dow Jones, 0,5%. Desde que Mueller foi nomeado procurador especial, em maio de 2017, as ações subiram cerca de 20%. 

Colapso

Não por acaso, Trump está em um embate com o presidente do Banco Central americano, Jerome Powell, para que não suba a taxa de juro, revertendo o crescimento na casa dos 4%. Powell quer subir a taxa, hoje de 2%, para evitar superaquecimento. Trump, que nomeou o presidente do FED em fevereiro, diz ter se iludido achando que ele fosse a favor de “dinheiro barato”.

Quando declarou na quinta-feira que seu impeachment levaria a um “crash” da economia, Trump talvez tenha invertido a ordem: um fim do ciclo de crescimento é que pode contribuir para sua saída – seja pelo impeachment ou pela não reeleição.

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