Mary Turner/The New York Times
Mary Turner/The New York Times

Casos de mulheres que recebem picadas de drogas geram medo no Reino Unido

Relatos de vítimas indicam que as injeções ocorrem em boates lotadas

Megan Specia e Isabella Kwai, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 10h00

Lizzie Wilson, 18 anos, estava com três amigas numa boate cheia na última segunda-feira (18) à noite quando sentiu uma picada nas costas, como uma agulhada. Dez minutos mais tarde, mal conseguia se manter em pé.

Ela disse que já havia ouvido falar em mulheres jovens sendo injetadas sem seu conhecimento em clubes lotados, de modo que imediatamente teve medo de ter virado mais uma vítima. Suas amigas a levaram às pressas a um hospital, onde ela passou horas desorientada e sem sensação nas pernas.

"Ninguém devia ter que passar por isso", disse Wilson, que cursa o primeiro ano de faculdade em Nottingham, na região central da Inglaterra. "O pior foi que perdi o controle do meu corpo."

Há mais de um ano o Reino Unido assiste a uma onda preocupante de violência contra mulheres. Sequestros e assassinatos de mulheres chamaram a atenção da mídia, suscitaram uma discussão nacional, inspiraram vigílias e protestos, intensificaram a cobrança da polícia e levaram ao questionamento mais profundo da cultura misógina que em muitos casos está na raiz dessa violência.

Embora ainda em número relativamente pequeno, os relatos são alarmantes, de mulheres que recebem injeções sorrateiramente em pubs e clubes lotados. É uma variação do chamado "spiking", em que drogas são jogadas na bebida de uma vítima –um crime muitas vezes cometido contra mulheres. Várias forças policiais na Inglaterra estão investigando denúncias de "needle spiking", em que as drogas são injetadas nas vítimas sem o conhecimento delas. Houve 12 denúncias de incidentes desse tipo em Nottingham, e a polícia da Escócia investiga casos semelhantes.

Algumas pessoas que denunciaram ter sido "picadas" sentiram efeitos "que correspondem à administração de uma substância", disse a polícia em comunicado –como o relato feito por Lizzie Wilson.

A maioria das denúncias foi feita por estudantes mulheres, mas alguns rapazes disseram que também foram atacados. A polícia de Nottinghamshire diz que nenhum outro delito, incluindo agressão sexual, foi vinculado às injeções, e ao que se saiba ninguém até agora foi detido. Mesmo assim, as autoridades dizem que estão intensificando as patrulhas e cooperando com universidades e hospitais locais para investigar o assunto.

Depois de as restrições devido à pandemia terem fechado os campi universitários e parado a vida noturna durante meses, a previsão era que o novo ano letivo, desde setembro, representasse um novo começo, incluindo as noitadas de farra que muitos estudantes veem como um rito de passagem.

Mas, com esses relatos e os temores se espalhando, mulheres jovens estão convocando um boicote dos clubes e fizeram um abaixo-assinado pedindo que os clubes sejam obrigados a revistar as pessoas na entrada. Para muitas mulheres, a ideia de que possam ser atacadas numa boate por alguém armado com seringa e agulha é apavorante.

"Se eu pensava que nada mais podia me chocar, que o comportamento das pessoas não poderia ficar mais baixo e vil, a verdade é que isto daqui é ainda mais baixo", comentou Sue Fish, ex-chefe da Polícia de Nottinghamshire e defensora dos direitos das mulheres.

A preocupação com a possibilidade de bebidas serem "batizadas" com drogas às escondidas existe há muito tempo. Uma investigação da BBC em 2019 revelou mais de 2.600 casos desse tipo na Inglaterra e no País de Gales desde 2015.

Fiona Measham, professora e diretora do departamento de criminologia na Universidade de Liverpool, além de diretora da entidade beneficente Loop, que monitora o uso de drogas na vida noturna, disse que ocorrem algumas centenas de casos de "spiking" no país todos os anos e descreveu o risco como "bastante pequeno".

Sobre o spiking por injeção, especificamente, ela comentou: "Não é impossível, mas é muito improvável". Mesmo assim, disse que cada denúncia deve ser investigada e levada a sério. "Acho que o medo é muito real. A raiva voltada às boates é real."

Mas muitos jovens não querem esperar para entrar em ação. Como parte de uma iniciativa batizada de "Girls Night In" (algo como "noitada das garotas em casa"), grupos locais surgiram em todo o país pedindo o boicote de clubes na próxima semana para conscientizar as pessoas do problema e pedir medidas de proteção melhores.

Ally Valero, 20, é uma das estudantes que organizaram o boicote local em Nottingham. Ela disse que o objetivo não é recomendar que as mulheres devem ficar em casa. A ideia seria transmitir aos donos de clubes que eles precisam fazer mais para garantir a segurança de seus frequentadores. "Queremos sair para baladas outra vez, mas com mais segurança", ela explicou.

Primrose Sparks, 20, que ajudou a organizar um boicote semelhante na Universidade Durham, disse que no passado sua principal preocupação antes de decidir se sairia para uma noitada era se ela teria aula logo cedo na manhã seguinte.

"Agora tenho que pensar: será que vou ficar em segurança?", ela disse. "Há um medo presente, algo que não existia antes."

O estudante Luis Danton, 20, presidente da associação de futebol da Universidade Nottingham Trent, qualificou a situação de "maluca" e disse que seu time vai participar do boicote. "Muita gente está assustada, para falar a verdade", ele disse.

Em frente à grande boate Pryzm, estudantes tiravam os casacos e esvaziavam os bolsos antes de passar por um detector de metais. O clube diz que intensificou as revistas para tranquilizar seus frequentadores.

Na boate Jimmy Allens, em Durham, a espera para entrar na última quarta-feira à noite foi longa, com seguranças revistando estudantes e suas bolsas, uma medida nova adotada esta semana. E os funcionários da casa começaram a usar bodycams (câmeras presas às suas roupas).

"As pessoas estão levando mais tempo para conseguir entrar, mas vale a pena", comentou o gerente do clube, Darryl Watson. A polícia de Durham disse em comunicado que, apesar de ter conhecimento de posts publicados online sobre incidentes de injeções de drogas, ela própria não recebeu nenhuma denúncia do tipo.

Seja qual for a frequência real dos casos de "spiking" por injeção, na base dos medos expressos por muitas mulheres está a consciência dos riscos desproporcionais que elas correm.

"As mulheres sempre fizeram coisas desse tipo para se proteger, sendo que na realidade o que precisa mudar é o comportamento dos homens", disse Sue Fish, a antiga chefe de polícia.

Para ela, dizer que cabe às mulheres repelir agressores não resolve o problema. "O que uma mulher deve vestir quando sai para a noite –uma armadura completa?"

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