REUTERS/Edgard Garrido
REUTERS/Edgard Garrido

Casos legítimos de brasileiros que pedem asilo nos EUA são prejudicados por ações oportunistas

Aqueles que fazem o pedido apenas para adiar a deportação reduzem as chances de aprovação dos que realmente necessitam

Cláudia Trevisan, enviada especial / Miami, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 05h00

MIAMI - Alvos de ameaças ou de violência real, José, Helena e Irene têm casos sólidos para apresentar pedidos de asilo nos EUA, mas muitos brasileiros usam o processo como uma estratégia para entrar no país ou protelar sua deportação. O porcentual de aprovação das solicitações de cidadãos do país caiu de 31% em 2015 para 22% no ano seguinte. No primeiro semestre do ano fiscal de 2017, ele diminuiu para 19%.

O índice de aprovação dos brasileiros é bem inferior à média de sucesso de 43% de todos os pedidos de asilo. “Se a pessoa não tem um caso legítimo, ela não deve nunca pedir asilo”, disse a advogada Carmen Arce, que há 15 anos trabalha com questões de imigração. 

Com o aumento da violência contra homossexuais no Brasil, ela passou a ver mais casos de gays em busca do benefício. “É uma nova tendência”, disse ao Estado em seu escritório em Miami. Sua primeira cliente do tipo foi Irene, a lésbica perseguida por um policial na zona rural em razão de sua opção sexual.

Em julho de 2016, o New York Times publicou um artigo que descreveu o Brasil como o país mais perigoso do mundo para homossexuais. De acordo com a estatísticas citadas pelo jornal, quase todos os dias uma pessoa gay ou transgênero é assassinada no país.

Também especializada em imigração, a advogada Renata Castro disse ter visto uma alta de 40% desde meados do ano passado no número de potenciais clientes interessados em pedir asilo. “O porcentual de aprovação dos pedidos brasileiros é muito baixo. Os que podem pedir asilo não pedem e muitos dos que pedem usam o asilo como uma ferramenta para adiar a deportação”, afirmou.

Os brasileiros estão longe de estar entre os principais grupos que solicitam o benefício. No ano passado, os chineses tiveram 3.103 casos aprovados, o equivalente a 36% do total. Os dez primeiros colocados, entre os quais não está o Brasil, responderam por 76% dos pedidos deferidos. A elevação dos pedidos de brasileiros coincidiu com o agravamento da crise econômica no País.

Cônsul-adjunto do Consulado do Brasil em Miami, Eduardo Galvão disse não saber de casos de concessão de asilo a brasileiros na Flórida, Estado que concentra uma das maiores populações de imigrantes. “A maioria que tem seu caso negado acaba sendo deportada.”

Arce e Castro ressaltaram que a punição é severa para os que apresentam pedidos que venham a ser considerados “frívolos” pelos juízes. A principal delas é a impossibilidade de solicitar qualquer benefício migratório no futuro. “Mesmo que a pessoa case com o Donald Trump, ela não conseguirá documentos. É uma estratégica arriscadíssima”, afirmou Castro.

A vida também não é fácil para os que têm um caso legítimo, observou Arce. “Eles ficarão impedidos de ir ao Brasil durante anos, já que a justificativa do pedido é o medo plausível de voltar ao país.”

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