Casta indiana luta para ser inferior

Política de cotas abre ''corrida pelo último lugar'' entre grupos

Henry Chu, Los Angeles Times, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2008 | 00h00

Ficar sentado na estrada sob o sol escaldante não é o que Mansingh Burja chamaria de divertido. Mas é o melhor jeito, diz, de ele e centenas de outros manifestantes darem vazão à revolta por terem sido classificados pelo governo como uma classe "atrasada", próxima da mais baixa do sistema de castas da Índia. Eles querem uma classificação inferior. Membros do grupo étnico gujjar, eles bloqueiam há duas semanas o trânsito na estrada que leva ao Taj Mahal. Dezenas de manifestantes foram mortos em confrontos com a polícia, mas eles prometem permanecer ali até que sejam reclassificados para o nível mais baixo da hierarquia social oficial. Isso lhes aproximaria do grupo dos párias, mas também lhes daria direito a cotas mais favoráveis na educação e empregos do setor público. A Índia tem o maior programa de ação afirmativa do mundo e os gujjares querem participar dele."Nossa comunidade é tão atrasada quanto os antigos ?intocáveis? (párias)", declarou Burja, de 32 anos. "Precisamos dos mesmos benefícios." Os manifestantes isolaram o Taj Mahal e bloquearam uma via férrea fundamental não apenas para o trânsito de turistas, mas também para a circulação de mercadorias. Eles também depredaram propriedade pública, derrubando sinais de trânsito e arrancando cercas de proteção da estrada. Estima-se que os prejuízos superem US$ 1 bilhão.Ninguém esperava uma resposta tão violenta da polícia, que disparou contra os manifestantes em pelo menos três incidentes desde o dia 23. No total, os mortos já são 43, quase todos gujjares. Ao lado das críticas à maneira com que as autoridades lidaram com os protestos, proliferaram-se os ataques ao programa de cotas que está na raiz da agitação dos gujjares. Apesar de bem-intencionadas, as cotas acirraram as divisões entre as castas, em vez de apaziguá-las, dizem os críticos, e estimularam a "corrida pelo último lugar". O que começou como um programa para compensar os párias pela discriminação acabou se convertendo numa ferramenta de clientelismo político.

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