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Castelo de cartas

O presidente François Hollande prossegue a construção do seu “castelo de cartas”, coalizão internacional que pretende formar contra o Estado Islâmico reunindo os esforços de americanos, russos, iranianos, britânicos e de países do Golfo Pérsico.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 06h05

A ideia é boa. O problema é que os países que Hollande tem visitado têm objetivos distintos e, muitas vezes, incompatíveis. O “castelo de cartas” desmorona à medida que é construído. Ao menor passo em falso, um teto voa pelos ares, um buraco se abre e o pobre Hollande recolhe os escombros.

Na segunda-feira, os turcos derrubaram um avião russo e a Rússia está furiosa. É preciso retomar tudo do zero. Já não pensamos mais em “castelo de cartas”, mas nos “móbiles” do escultor americano Calder. Basta um leve toque com o dedo e toda a estrutura começa a se movimentar sem que possamos saber quanto tempo será preciso para o móbile se equilibrar e saber que forma terá.

Para a coalizão contra o terrorismo sonhada por Hollande, é preciso recrutar também Arábia Saudita ou Catar, países ricos e poderosos, mas cujos métodos muitas vezes nos lembram os dos salafistas extremistas que inspiram os ideólogos do EI.

Arábia Saudita e Catar são excelentes aliados do Ocidente em virtude de um pacto secreto assinado em 1945 entre o presidente Franklin Roosevelt e o rei Ibn Saud. Mas, com o risco de ter um “torcicolo”, a Arábia Saudita combina a amizade com o Ocidente com um papel extremamente preocupante na expansão das ações terroristas do mundo sunita.

Lembremos: em 11 de setembro de 2001, o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, era saudita, como também 15 dos 19 sequestradores dos aviões que destruíram as torres gêmeas.

Além disso, Riad persiste em seu jogo duplo. E a prova foi fornecida pelos telegramas revelados pelo WikiLeaks. A Arábia Saudita forneceu tudo ao EI: a doutrina wahabita, ancestral do salafismo (retorno a um Islã das origens, na sua versão feroz) e também financiamento.

O Congresso americano, num relatório publicado em abril, afirmou que Arábia Saudita e Catar financiavam o Estado Islâmico “antes que o monstro escape” e os destrua. Os americanos e os franceses, que insistem em conservar a amizade com a Arábia Saudita (em razão da venda de aviões e de armamentos), defendem o país: “Não são os Estados do Golfo que financiam os jihadistas, mas cidadãos ricos sauditas e do Catar”.

E não é preocupante o fato de as decapitações realizadas pelo EI, que revoltam o mundo todo, serem uma versão mais vulgar da sharia, a ignóbil justiça praticada na Arábia Saudita e no Catar?

Na Arábia Saudita, a cada dois dias o pescoço de alguém é cortado. Como também são cortadas mãos. As mulheres adúlteras são apedrejadas. A homossexualidade é punida com a morte, assim como a blasfêmia. Os aviões sauditas, que foram em socorro do regime do Iêmen, bombardearam civis e também tesouros artísticos equivalentes aos de Sirte, na Líbia.

Essa litania de crueldades praticadas pelo regime de Riad é tão lancinante que no Ocidente, este Ocidente tão blindado, as pessoas começam a estremecer. O blogueiro saudita Raif Balawi foi condenado a 10 anos de prisão e mil chibatadas por blasfêmias. Como resultado, o Parlamento Europeu concedeu ao poeta o Prêmio Sakharov. Riad entendeu (um pouco) o aviso. A pena foi reduzida para 50 chibatadas.

Esses são os países que os EUA respeitam e a França adula, pois vende aviões Rafale, armas, helicópteros a US$ 500 milhões, enfim, uma verdadeira caverna de Ali Babá.

Claro que em torno da mesa que Hollande procura compor para destruir o EI há outros países sinistros que, no tocante aos “direitos humanos”, não têm um bom desempenho. Mas é preciso reconhecer que, nesse campo, os wahabitas da Arábia Saudita ou do Catar, verdadeiros gurus do terror, são particularmente repugnantes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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