Ernesto Arias/AP
Ernesto Arias/AP

Castillo escolhe radical de esquerda para chefiar Conselho de Ministros no Peru

Cargo é semelhante ao de premiê; novo presidente deve nomear outros 18 ministros nesta quinta-feira, 29

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 17h45

LIMA - O novo presidente do Peru, o esquerdista Pedro Castillo, nomeou nesta quinta-feira, 29, o radical de esquerda Guido Bellido para  presidente do Conselho de Ministros. O cargo é semelhante ao de primeiro-ministro. A nomeação foi feita um dia após a posse de Castillo, eleito em um clima de polarização política no país.

Bellido tem 41 anos, é engenheiro eletrônico e não tem experiência em cargos públicos. Como Castillo, tem origem camponesa. Sua nomeação ainda deve ser aprovada pelo Congresso.

A mídia peruana informou que a promotoria havia investigado Bellido por suposta apologia ao terrorismo por declarações em uma entrevista feita em abril. A nomeação de Bellido "é uma mensagem que polariza", disse o legislador de extrema direita Alejandro Cavero à rádio RPP de Lima.

Castillo nomeará mais 18 ministros na noite desta quinta-feira, informou a presidência. O mandato, de cinco anos, se inicia em meio às esperanças de milhares de compatriotas, mas também à preocupação de muitos peruanos que temem uma forte virada para o socialismo após décadas de políticas liberais.

Em sua posse, Castillo anunciou que enviará ao Congresso um projeto de reforma da Constituição, que favorece o liberalismo econômico e foi promulgado em 1993 pelo presidente Alberto Fujimori, o pai preso de sua rival na votação de 6 de junho, Keiko Fujimori.

Keiko respondeu dizendo que seu partido, Fuerza Popular, "será um firme muro de contenção em face da ameaça latente de uma nova constituição comunista", enquanto dezenas de seus partidários protestavam nas ruas contra o novo governante, um professor rural de região norte de Cajamarca.

“Vamos insistir nessa proposta, mas dentro do marco legal que a Constituição prevê. Teremos que conciliar posições com o Congresso”, disse Castillo, cujo partido Peru Libre tem apenas 37 dos 130 assentos. A segunda bancada é do Fuerza Popular, com 24.

Castillo também anunciou em sua posse que não dirigirá o país a partir do Palácio de Pizarro, a casa do governo, já que pretende transformá-la em um museu, e prometeu que no final de seu mandato retomará suas "tarefas habituais de ensino", aludindo ao fato de que não pretende se perpetuar no poder.

A proposta de conversão do Palácio também gerou polêmica e o analista Hugo Otero disse à Agência France-Presse que "transformá-lo em um museu vai exigir uma fortuna".

Castillo e vários dignitários estrangeiros participaram nesta quinta-feira da cerimônia na Pampa de la Quinua, palco da batalha de Ayacucho em 9 de dezembro de 1824, que selou a independência do Peru e do resto da América espanhola. O local da batalha está situado 3.400 metros acima do nível do mar e um obelisco de mármore comemora a vitória dos patriotas.

Insegurança

A nomeação do gabinete deve enviar um sinal aos mercados, que ficaram inquietos após o anúncio da reforma constitucional, embora se tratasse de uma promessa de campanha.

A reforma causa "mais instabilidade" e "um clima de desconfiança", disse o chefe da organização peruana de liderança empresarial (Confiep), Óscar Caipo, à rádio RPP.

"O gabinete, acredito, será amplamente liderado pelo Estado, não sectário", disse Otero, ex-assessor do falecido presidente Alan García.

Castillo reiterou em sua primeira mensagem que não fará desapropriações, embora tenha esclarecido que promoverá um "novo pacto com investidores privados".

O presidente tem o desafio de reativar uma economia duramente atingida pela pandemia, que despencou 11,12% em 2020, além de acabar com as convulsões políticas que levaram o país a ter três presidentes em novembro de 2020.

Horas após a posse de Castillo, o ministro das Relações Exteriores do governo venezuelano de Nicolás Maduro, Jorge Arreaza, chegou a Lima. A visita marca uma virada na política externa do Peru, que em 2019 reconheceu o opositor Juan Guaidó como governante interino venezuelano.

Arreaza esteve presente na cerimônia em Ayacucho, onde Castillo convocou as autoridades nacionais e locais para "trabalhar para o Peru".

A Venezuela foi um tema recorrente na campanha eleitoral, com a candidata Fujimori afirmando que seu adversário pretendia seguir os passos de Maduro. Castillo negou ser "chavista" ou querer copiar o modelo venezuelano.  /AFP

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