Presidência Peruana / AFP
Presidência Peruana / AFP

'Castillo sofrerá pressão de aliados da esquerda', diz analista sobre crise no Peru

Partido que elegeu o presidente tem grande bancada no Congresso e não está satisfeito com a reforma ministeria

Entrevista com

Eduardo Dargent, cientista político da PUC do Peru

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 05h00

O presidente do Peru, Pedro Castillo, decidiu trocar seu gabinete de ministros e abrir caminho para ministros mais moderados, em uma tentativa de moderação que pode irritar o partido quer o elegeu, o Perú Libre. A avaliação é do cientista político Eduardo Dargent,da PUC do Peru.

" Isso alivia a tensão com outros partidos, talvez não com a extrema-direita, que nunca vai aprovar o governo, mas com outros grupos. E aumenta a tensão com um flanco dentro do próprio governo, que é o que Castillo procura, penso eu, para trazer ordem, pois agora a situação é insustentável em termos de estabelecer a agenda do partido, e não a do governo", diz. 

Leia, a seguir, trechos da entrevista

O que a reforma do gabinete significa para esse governo que mal começou? O que Castillo busca com essa mudança?

Creio que houve um momento de muito conflito entre as demandas do partido Peru Livre, que era muito radical. Castillo deu ao partido um primeiro ato para a dinâmica do gabinete e da própria política do governo. E esta semana ocorreu uma série de incidentes conflituosos entre o gabinete e o premiê Bellido. A remodelação mantém um gabinete de esquerda, embora menos associado ao partido e à sua linha-dura. O Peru Livre diz que o gabinete já se tornou de direita, mas isso não é verdade.

Ainda é de esquerda, mas agora tem um problema no Congresso, pois parte do Parlamento é formada pela bancada do Peru Livre, que não está satisfeito com as mudanças e abre uma nova frente de conflito para o governo. Isso alivia a tensão com outros partidos, talvez não com a extrema-direita, que nunca vai aprovar o governo, mas com outros grupos. E aumenta a tensão com um flanco dentro do próprio governo, que é o que Castillo procura, penso eu, para trazer ordem, pois agora a situação é insustentável em termos de estabelecer a agenda do partido, e não a do governo.

Quais são as principais mudanças no gabinete? Existe alguma em especial que se destaque?

As mudanças são muito grandes. Ele trouxe uma pessoa (Mirtha Vásquez) que, sendo da esquerda, tem uma maior vocação para acordos, para uma política de alianças que ela conseguiu no Congresso no passado. Ela foi a presidente e conseguiu conduzir o barco para a entrega do poder. Penso que, na maioria, são mudanças positivas. Vários ministros questionáveis saíram, incluindo um (Iber Maraví) que tinha sido criticado por possíveis ligações com o Sendero Luminoso no passado e outro que estava fazendo uma confusão no setor da cultura. 

Quais os novos ministros seriam mais problemáticos? 

Pairam algumas dúvidas sob os recém-chegados: na Educação, onde existe uma forte ligação com a facção dos professores, representada por Castillo, é contra o sindicato de professores mais antigo do país, e este grupo questiona as reformas no setor há muito tempo. Pode haver um retrocesso, já que se trata de um homem que tem uma posição muito elevada dentro do sistema. O outro é um advogado de membros do partido que estão sendo processados por corrupção e foi nomeado por alguém que faz parte de um escritório de advogados que representa Vladimir Cerrón (fundador do partido Peru Livre que foi impedido de concorrer nas eleições por uma condenação por corrupção). Além disso, há um ex-policial, com uma história muito ruim da sua carreira na polícia, o que também pode ser problemático.

O que muda no cenário político com a substituição de Bellido por Mirtha Vásquez? Como a nova premiê pode ajudar o diálogo do presidente com o Congresso?

Acho que basicamente o que muda é que a tensão com os setores que são mais de centro provavelmente vai diminuir. Mas abre um espaço à esquerda, que agora acusa o governo de ser de direita, como (o ex-presidente) Ollanta Humala fez. Mas não creio que a comparação seja correta. É um governo que continua sendo bastante de esquerda. Agora, este diálogo com o setor parlamentar vai melhorar, mas como eu disse, temos de esperar por esta oposição. Juntas, a bancada do Peru Livre e parte das bancadas da direita se aproximam dos 87 votos, os dois terços necessários para um processo de destituição, que infelizmente deveria ser um remédio excepcional, mas no Peru se tornou uma coisa comum.

Como fica a relação de Castillo com o Peru Livre? O presidente vai perder o apoio dos seus aliados no Congresso após a demissão de Bellido?

Provavelmente sim, pois há uma perda de apoio e o Peru Livre buscará se eleger no próximo ano e o que o partido tentar fazer para atingir o presidente será fundamental. Se Castillo conseguir inscrever um partido próprio, como busca, será mais forte na disputa, porque então o sucesso de Castillo já não será o sucesso do Peru Livre. Por outro lado, o sucesso desta nova imagem do Peru Livre dependerá da percepção de que será bom negócio continuar radicalizando. 

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