Jaume Sellart/EFE
Jaume Sellart/EFE

Catalães inspiram separatistas europeus

Busca de independência anima nacionalistas na Escócia, Flandres, Córsega e Padania

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 05h00

PARIS - A provável declaração de independência da Catalunha, prevista para ocorrer na terça-feira, em Barcelona, será o mais importante, mas não o único movimento secessionista na Espanha este ano. No dia 4 de dezembro, o grupo independentista Assembleia Nacional Andaluza (ANA) declarará, em Sevilha, a soberania da República Federal da Andaluzia. 

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Com um movimento liderado pelo poeta, dramaturgo e pintor Pedro Ignacio Altamirano, esse território de 13 milhões de habitantes se estenderia do Alentejo e do Algarve, em Portugal, até Múrcia e Granada, em solo espanhol. 

“A Catalunha é uma nação que sempre soube socorrer dezenas de milhares de andaluzes, obrigados a imigrar pela pobreza endêmica na Andaluzia”, diz Altamirano, filho de dirigente franquista, fundador do partido independentista Somos Andaluzes e admirador dos grupos nacionalistas catalães. “Neste momento em que o povo da Catalunha se mobiliza por direitos tão básicos, como é o de votar e decidir seu futuro, nós, andaluzes, não queremos ficar à margem.” 

O movimento na Andaluzia até pode ser folclórico, como é encarado na Espanha, mas o certo é que a iniciativa da Catalunha tem encorajado movimentos semelhantes de rupturas em diferentes países da Europa, em regiões em que veleidades soberanistas estão aflorando. 

Para o ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls, de origem catalã, o independentismo em sua terra natal é “uma loucura” capaz de “abrir a caixa de Pandora” do regionalismo dentro da União Europeia. 

O exemplo mais visível desse fenômeno é o da Escócia, no Reino Unido. Motivado por seus resultados eleitorais e pelo Brexit, o divórcio entre Londres e a União Europeia, o Partido Nacional Escocês (SNP) relançou a campanha por um novo plebiscito sobre a independência em relação a Londres. 

Luta na Escócia. 

Apenas três anos após a votação que deu a vitória à união com o Reino Unido, por 55% a 45%, a premiê escocesa, Nicola Sturgeon, vem lutando pela realização de nova consulta em 2018, tão logo as circunstâncias do Brexit sejam conhecidas.

“Apesar de todos os desafios e das cenas horríveis que vimos na Catalunha, a maioria esmagadora daqueles que votaram apoiou a independência”, frisou, nesta semana, a premiê escocesa, em manifestação de apoio à Catalunha independente. “A Espanha sustenta a opinião de que essa votação não era legal, mas esse tipo de força de sentimento não pode simplesmente ser ignorado.”

Outra região muito sensível à ebulição em curso na Catalunha é a de Flandres. Nascido no século 19, o nacionalismo nessa região da Bélgica, de língua holandesa, ganhou força nos anos 2000, quando paralisou o país, que passou mais de um ano com um primeiro-ministro demissionário no posto por falta de acordo entre as duas metades do reino. 

Em 2014, o nacionalismo levou a Nova Aliança Flamenga (N-VA) a tornar-se o maior partido da Bélgica, levando Charles Michel ao posto de premiê. Mas, longe de fazer planos para manter a união do reino belga, o N-VA tem planos de relançar a caminhada para a autonomia em 2019, empurrada também pelo crescimento do partido de extrema direita soberanista Vlaams Belang, que defende a independência.

Menos poderosos, os movimentos separatistas de Padania, no norte da Itália, e da Córsega, ilha da França no Mediterrâneo, também acompanham os desdobramentos da causa catalã. No caso italiano, até mesmo a origem da insatisfação é a mesma: a sensação de que parte das riquezas da região vem sendo transferida em forma de impostos e investimentos para outras regiões do país.

Esse é o argumento dos governadores da Lombardia, Roberto Maroni, e do Vêneto, Luca Zaia, que pretendem realizar, no dia 22, um plebiscito consultivo para pressionar Roma por mais autonomia territorial e administrativa. 

Filiados ao partido de extrema direita Liga Norte, Maroni e Zaia contam ainda com um bom desempenho nas próximas eleições gerais, previstas para ocorrer até fevereiro de 2018, para ganhar força na reivindicação. 

Na Córsega, o movimento independentista Frente de Liberação Nacional da Córsega (FLNC) depôs as armas em 2014. Um ano depois, se tornou a maior força política na Assembleia Regional. Seguindo o exemplo da Catalunha, os novos líderes políticos regionais tentam ressuscitar nas escolas a língua corsa, assim como legislações fiscal, administrativa e de imigração exclusivas para o território.

País Basco.

Outro movimento, aparentemente sob controle, é o de independência do País Basco, também na Espanha. Marcada pela violência armada do grupo terrorista ETA, a causa perdeu fôlego em 2011 com a deposição das armas. 

No entanto, a coalizão independentista EH Bildu, de esquerda, é hoje a segunda maior força política do país, atrás do Partido Nacional Basco (PNV), também nacionalista, mas moderado, que luta por mais autonomia, mas não por independência. Hoje, pesquisas de opinião indicam que cerca de 20% da população estaria pronta para reivindicar a soberania total do território. Na contramão do independentismo na Europa, há regiões que não demonstram mais o mesmo desejo nacionalista do passado, como a Bretanha, na França, e a Baviera, na Alemanha. 

Outra região em que as teses soberanistas não vêm encontrando respaldo é a chamada “Catalunha do Norte”, trecho francês dos “Países Catalães”. Em Perpignan, cidade do sul da França que fez parte durante séculos da Catalunha, até ser transferida da coroa espanhola à francesa, em 1659, a associação de prefeitos da região até defende o direito à autodeterminação dos catalães da Espanha - mas não quer o mesmo destino para si. 

“Não podemos ficar indiferentes aos atos de coerção que parecem desproporcionais”, entende Guy Ilary, prefeito de Tautavel. “Nosso apoio ao referendo não consiste em nos posicionarmos sobre o processo independentista, mas em apoiar a autodeterminação, um direito legítimo dos povos.”

 

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