Catalães optam por independência em voto simbólico

Madri afirma que votação é apenas peça de propaganda e não tem valor; Catalunha pressiona por autonomia, mas adesão foi baixa

BARCELONA , O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2014 | 02h00

Com uma participação de 35,7% dos eleitores aptos a votar, 80% dos catalães optaram ontem, em uma consulta simbólica, ser um Estado independente da Espanha. Pouco mais de 2 milhões de pessoas foram às urnas ontem sob a reprovação do governo central de Madri, que qualificou a votação de um ato de propaganda estéril e inútil.

O governador da Catalunha, Artur Mas, acusou Madri de tentar confundir os eleitores e diminuir sua participação. O líder catalão acredita que a participação da população na votação de ontem pressionaria Madri a negociar mais autonomia fiscal e política para a região e, no limite, fortaleceria um pedido para uma consulta sobre a independência com valor legal.

"A consulta foi um sucesso. A Catalunha mostrou que governar ela mesma", disse Mas ao fim da votação. "Estamos atingindo um grande objetivo na Catalunha ao defender nosso direito de livre expressão e de autodeterminação sobre o futuro político do nosso país."

No mês passado, Mas foi desautorizado a realizar um plebiscito oficial, depois de a proposta ter sido rejeitada pela Justiça constitucional espanhola. Em 11 de setembro, centenas de milhares de pessoas tinham tomado as ruas de Barcelona e outras cidades catalãs para pedir a independência em relação à Espanha - causa histórica abafada nos anos do franquismo, quando a língua e a cultura catalã eram subjugadas pelo governo central.

'Inconstitucional'. O ministro da Justiça da Espanha, Rafael Catalá, disse que a consulta é um ato de propaganda estéril, inútil, e sem valor democrático. Alícia Sánchez Camacho, líder do Partido Popular na Catalunha, legenda do premiê espanhol, Mariano Rajoy, qualificou de "farsa" a votação de ontem.

O governo central espanhol argumenta que a Catalunha não pode decidir sozinha sobre algo que afeta a Espanha como um todo, afirmando que o plebiscito sobre independência é inconstitucional, pois eleitores de todo o país teriam de deliberar sobre o tema - e não apenas os catalães.

Fontes do governo Rajoy disseram ao jornal espanhol El País que o premiê foi "pontualmente informado" sobre a votação, mas considera a consulta "antidemocrática, inútil e sem efeito jurídico". A orientação do Executivo espanhol, ainda de acordo com essas fontes, é minimizar o impacto da votação.

A Procuradoria-Geral da Catalunha chegou a tentar embargar a consulta a pedido de dois partidos minoritários catalães, mas o pedido foi rechaçado pela Justiça regional.

Nas a região semiautônoma, a mais rica e industrializada da Espanha, com 7,5 milhões de habitantes, a consulta pela independência é apoiada por 80% da população, mesmo que nem todos os eleitores sejam a favor da secessão.

Mais de 40 mil voluntários ajudaram a montar a estrutura do plebiscito simbólico de ontem. No total, havia 6.695 locais de votação, munidos de uma urna e um computador. O cadastro de eleitores era feito conforme a ordem de chegada.

"Se eles não nos entendem, deveriam nos respeitar e deixar que nos separemos", disse o comerciante Angels Costa, de 52 anos, em Barcelona. "Gostaríamos de um Estado federalista, mas isso não é mais possível. Abusaram muito de nós."

A votação ocorreu também em outros países, como México, Austrália, Estados Unidos e até no Brasil. / AFP, EFE e REUTERS

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