Catalunha veta touradas e desafia país

Proibição esquenta debate entre governo socialista e oposição e reabre a discussão sobre autonomia regional e a identidade da Espanha

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

A região da Catalunha proibiu ontem as touradas e reabriu um debate sobre a autonomia local e a identidade da Espanha. Os autores da lei aprovada ontem no Parlamento catalão basearam a proposta na defesa dos animais, mas muitos ativistas que lutam pela independência da região argumentaram que as touradas são uma tradição imposta pelos espanhóis.

A questão foi instrumentalizada pelo direitista Partido Popular (PP), de oposição ao governo do premiê José Luiz Rodríguez Zapatero, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). O PP está promovendo uma ampla campanha contra o PSOE para enfraquecer Zapatero e forçar a antecipação de eleições.

O PP é contra a qualquer movimento de autonomia das regiões espanholas na Espanha. Por isso, Mariano Rajoy, líder do partido, não perdeu tempo e usou a ocasião para atacar os socialistas, que também governam na Catalunha. "Queremos saber se o PSOE acredita na nação", desafiou Rajoy, que defendeu uma lei nacional que proteja a tourada em toda a Espanha e jurou lutar para anular a lei catalã.

Em Barcelona, o governo formado pelo PSOE e por grupos radicais de esquerda deram liberdade a seus deputados para votar contra ou a favor da proibição. José Montilla, chefe de governo da região, votou contra. Segundo ele, cabe a cada catalão decidir se deve ou não ir às touradas. A maioria (68 a 55), no entanto, votou pela proibição.

As touradas estavam em decadência na Catalunha. A região tem apenas uma praça de touros, onde ocorrem mais apresentações de circos e shows do que touradas. A média de publico é de 400 pessoas - em Madri são 15 mil. Afetados pela crise econômica, o setor alega que terá precisa de 400 milhões para se recuperar até 2012, quando a proibição começa a valer.

Comemoração. Ontem, grupos de proteção aos animais festejaram a decisão. "É um dia histórico para todos os que defendem os direitos dos animais", disse José Ramón Mallén, da Fundación Equanimal. "Isto não tem qualquer relação com política ou com a identidade catalã."

"Acabamos com 500 anos de crueldade e, a partir de hoje, temos de colocar questões de ética ao debater nossas tradições", afirmou Elena Escoda, uma das promotoras da iniciativa popular que se tornou lei.

Os partidos catalães de esquerda não tocaram na questão independentista durante a votação. Apenas o deputado Josep Rull lembrou que o rei Carlos III também proibiu as touradas em toda Espanha, mas "nem por isso foi chamado de catalanista furioso".

A região não é a primeira a proibir as touradas. Em 1991, as ilhas Canárias já havia vetado a prática. Nada disso, porém, evitou que a decisão de ontem fizesse reaparecer o debate sobre a identidade espanhola e o status das regiões autônomas.

A questão surge no mesmo momento em que se debate a Constituição da Catalunha, aprovada por 5,5 milhões de eleitores. A Corte Nacional rejeitou partes do documento, consideradas ilegais, e negou a ideia da "nacionalidade catalã".

O tema aparece também no momento em que a independência do Kosovo acaba de ser reconhecida pela Corte Internacional de Justiça, em Haia. A decisão espalhou o temor do separatismo em vários países europeus.

Para o presidente da região de Múrcia, Ramón Valcarcel, também do PP, "a Catalunha quer romper com tudo o que se identifica com a Espanha". O eurodeputado Jaime Ortega também criticou os catalães. "Essa é uma ofensiva nacionalista", disse. O deputado chegou a afirmar que a proibição era uma "vingança da Catalunha contra o êxito da seleção nacional", que venceu a Copa da África do Sul.

Historiadores, no entanto, questionam a alegação de que a tourada não faz parte da cultura catalã. A região foi uma das primeiras a adotar a prática, ainda no século 14, e chegou a ter três praças de touros em Barcelona.

Para colocar ainda mais lenha na discussão, alguns nacionalistas espanhóis lembraram que o mesmo Parlamento que proibiu a tourada manteve o "correbous", espécie de corrida aos touros típica da Catalunha - a diferença é que o animal não morre, apenas sofre.

Para entender

A Catalunha é uma comunidade autônoma da Espanha, com língua e tradições diferenciadas do restante do país. Com a proclamação da 2.ª República Espanhola, em 1931, reconheceu-se a Comunidade Autônoma da Catalunha. Mas, após a derrota dos republicanos na Guerra Civil (1936-1939), a Catalunha perdeu sua autonomia e sofreu forte repressão cultural e linguística. Em 1978, com a morte de Franco, recuperou sua autonomia e língua.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.