Albert Gea/Reuters
Albert Gea/Reuters

Catalunha vive terceira noite consecutiva de protestos violentos

Crise culminou da condenação de nove dirigentes separatistas pela tentativa de secessão mal sucedida de 2017

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 23h27

BARCELONA, ESPANHA - Novos choques entre manifestantes separatistas pró-Catalunha e a polícia eclodiram na noite desta quarta-feira, 16, em Barcelona, em uma escalada anunciada pelo governo regional separatista e que o Executivo da Espanha acompanha com atenção, caso precise intervir.

Pela terceira noite consecutiva, jovens com o rosto coberto e capacetes de moto ergueram barricadas com latas de lixo e caixas de papelão, às quais atearam fogo.

A novidade foi que a polícia catalã, os Mossos d'Esquadra, informaram que jovens atiraram neles coquetéis molotov e "objetos com ácido", e inclusive tentaram acertá-los com fogos de artifício da Polícia nacional, sem sucesso. Cinco carros foram incendiados perto da secretaria regional do Interior.

Na noite de terça-feira, Barcelona já havia demonstrado cenas de guerrilha urbana e confrontos entre as forças de ordem e os manifestantes, que protestam contra a sentença emitida na segunda-feira pelo Supremo Tribunal, que condenou nove dirigentes separatistas por suas ações na tentativa de secessão de 2017.

O presidente regional catalão, o separatista Quim Torra, condenou a violência, depois dos apelos, em Madri, pelo chefe do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez.

O próprio Torra participou nesta quarta-feira das marchas que partiram de cinco pontos diferentes da Catalunha e que na sexta-feira vão convergir em Barcelona, coincidindo com uma greve geral e um protesto multitudinário.

Barricadas com fogo

Os distúrbios desta quarta-feira à noite seguiram o padrão: os jovens provocaram os policiais, aproximando-se dos agentes e, conforme estes recuavam, erguiam barricadas com latas de lixo, incendiando-as.

"Estou com os nervos à flor da pele, estava no bar tão tranquilo e nos cercaram por todos os lados, agora não posso voltar para casa", disse à agência France Press o pensionista José Ramón García, enquanto via queimarem carros perto de sua residência. "Quem planta vento, colhe tempestade", acrescentou, referindo-se ao governo catalão.

Trinta e duas pessoas precisaram de cuidados médicos na capital catalã, segundo os serviços de saúde.

Também houve "pelo menos vinte pessoas detidas" em toda a Catalunha, após as 51 detenções da terça, informaram os Mossos. Quatro delas foram presas sem direito à fiança por atentado à autoridade e desordem, anunciaram fontes judiciais.

Pedro Sánchez, que durante o dia se reuniu com lideranças dos principais partidos políticos, não anunciou qualquer medida extraordinária em relação aos distúrbios, como foi reivindicado pela oposição de direita, em plena campanha para as eleições legislativas de 10 de novembro.

Fontes do ministério afirmaram que reforços policiais foram enviados à essa região de 7,5 milhões de habitantes.

Entre as medidas pedidas está a aplicação da Lei de Segurança Nacional, que colocaria nas mãos do Estado as competências em matéria de segurança da Catalunha e que poderia, inclusive, abrir caminho para uma intervenção da autonomia regional, como a que ocorreu em 2017 após a tentativa de secessão.

"Nós vamos efetivamente modular nossa resposta em função da atitude e das decisões dos responsáveis políticos (catalães)", disse Sánchez.

O presidente socialista garantiu que o governo "não vai consentir, de forma alguma, que a violência se imponha sobre a convivência", sempre atuando com "firmeza" e "proporcionalidade".

'Ponto sem retorno'

Nascida da frustração dois anos depois da tentativa de secessão, que deixou os separatistas sem um rumo claro, a violência mostra a radicalização de parte do movimento independentista, que se vangloriava de ter sido pacífico até agora.

"Teve início um caminho sem retorno", indicaram em um comunicado os Comitês de Defesa da República (CDR), grupos auto-organizados com ágeis métodos de protesto, que convocaram a manifestação desta quarta-feira e que no passado foram apoiados por Quim Torra.

Uma pichação "Torra traidor" em Barcelona mostrava o distanciamento entre os ativistas mais radicais e o governo catalão. Os manifestantes também pedem a demissão do conselheiro do Interior, Miquel Buch, que nesta quarta-feira pediu para "isolar" os atos violentos.

As tensões poderiam, inclusive, afetar o clássico entre o Real Madrid e o Barcelona, previsto para 26 de outubro, que LaLiga de futebol pediu que fosse transferido de Barcelona para Madri, diante das "circunstâncias excepcionais" na região. / AFP

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