Faisal Al Nasser/Reuters
Faisal Al Nasser/Reuters

'Catar pode aumentar exportação e derrubar preço do petróleo' 

Para o coordenador de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, o rompimento das nações árabes com o Catar pode provocar a baixa nos preços globais do petróleo

Entrevista com

Gunther Rudzit

Mateus Fagundes, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 15h52

O rompimento das nações árabes com o Catar, anunciado no começo da semana, tem raízes políticas e econômicas e pode provocar a baixa nos preços globais do petróleo. A avaliação é do professor Gunther Rudzit, coordenador do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e especialista em segurança internacional. Em entrevista ao Broadcast, Rudzit avalia que a tensão regional foi potencializada pela visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Arábia Saudita, no fim de maio. Além disso, o professor avalia que o maior beneficiado pode ser justamente aquele que, em tese, teria sido o alvo secundário da sanção contra o Catar: o Irã.  Leia os principais trechos da entrevista.

Quais são os ingredientes que levaram ao rompimento das relações entre os países árabes e o Catar? 

Tenho uma visão de que esse conflito tem origem em uma briga clássica de poder. Uma disputa da potência estabelecida Arábia Saudita em contraponto à ascensão do Irã. Há um caldo religioso, é claro. É justamente pelo Irã ter maioria xiita e a Arábia Saudita ser a base da maioria sunita que a leitura superficial tem sido essa, de um embate religioso, e não percebe que o pano de fundo é político. O exemplo maior disso é justamente a Síria. A guerra civil que começou contra um ditador, e tendo em vista que Bashar Assad é próximo do Irã, as potências do Golfo começaram a apoiar a oposição para derrubar Assad. E aí que houve a entrada deste embate religioso também, e hoje é uma guerra de todos contra todos. Tentar localizar a crise do Catar em meio a tantas camadas sociais, econômicas, religiosas e políticas da região é que é difícil.

E como podemos localizar esta crise? 

Em parte tem a ver com a ascensão do Irã e essa influência crescente. O Catar é uma monarquia mais moderada, com muitas aspas neste moderada. E aí tem um ponto importante: a Al-Jazeera. Ela tem tido um papel muito grande de crítica aos governos autoritários da região. E, como ela tem criticado menos o Irã, a monarquia do Catar também abriu canais de comunicação com Teerã. Dessa forma, os países liderados pela Arábia Saudita, depois da visita de Trump, se sentiram à vontade para tomar esta atitude.

De certa forma o fator Trump legitimou uma tensão que havia ali? 

Sem dúvida alguma. O governo Obama vinha revendo certas posições históricas na região e também não queria se envolver com conflito. Por isso, toda a indecisão em relação à Síria. Mas essa posição americana ficou bastante enfraquecida. Já Trump vem com uma doutrina de fortalecer aliados estratégicos dos Estados Unidos.

E como o rompimento com o Catar está inserido neste contexto?

Eu arrisco dizer: o Catar era uma espinha que estava entalada na garganta dessas ditaduras árabes e elas resolveram se desfazer do problema. Há um detalhe importante nisso tudo, que é o fato de a maior base americana na região ficar no Catar e o Pentágono dizer que não pretende se mover de lá.

Então é de se esperar uma escalada de tensão? 

Eu diria que não é um cenário improvável uma guerra civil, mas difícil. É uma tomada de posição importante da Arábia Saudita. E a primeira implicação desta grande crise diplomática foi, por incrível que pareça, uma queda do (preço) petróleo na segunda-feira.

Qual a perspectiva para os preços do petróleo então? 

A leitura que o mercado está fazendo é que, com esse rompimento, se manter o consenso da Opep fica cada vez mais difícil. Portanto, a manutenção das cotas de produção fica mais duvidosa. De repente, o Catar, cuja economia está sofrendo, pode ter de começar a exportar mais para equilibrar as contas. Isso em um mercado que já está com muita oferta. Eu tenho quase certeza que vai aumentar a produção, exportar e inundar mais ainda o mercado de petróleo.

Há, portanto, uma tendência de queda?

Sim. Se o barril rondava os US$ 50, pode ser que algo impensável há poucos dias, como o nível de US$ 20, não seja tão improvável assim.

Qual o cenário de curto prazo para a economia do Catar?

Há um forte estresse no Catar, mas quem acaba ganhando é o Irã. O ministro da Agricultura iraniano já disse que consegue abastecer o país. Ou seja, indiretamente, a Arábia Saudita vai ajudar a economia iraniana. Não muito grande, mas o setor agrícola que vinha sofrendo no Irã vai ganhar um pouco. Depois de toda essa traição, o Catar pode aprofundar os laços com o Irã e Teerã vai adorar isso.

Há a possibilidade de um conflito armado direto entre os países?

Eu não acredito em um enfrentamento direto. Mas sim em um conflito por procuração, como é o caso do Iêmen e da Síria. O único problema é que as reservas de dólares sauditas estão sofrendo muito. Hoje mais um conflito para a Arábia Saudita não é interessante. Por isso eu digo que não é um cenário-base. Eles vão pressionar do ponto de vista diplomático, mas não entrarão em conflito, mesmo porque estão estressados economicamente e militarmente. Por isso não acredito em uma guerra neste momento.


 

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