Catar tira apoio a radicais da Irmandade

Decisão tenta encerrar disputa entre país e outros governos do Golfo pela influência sobre nações que passaram pela Primavera Árabe

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2014 | 02h02

O governo da Catar anunciou nesta semana que romperá a colaboração com a Irmandade Muçulmana, movimento islamista existente em diferentes países do Norte da África e do Oriente Médio, como Egito, Líbia e Síria.

A decisão foi anunciada na reunião do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) e representa, a princípio, uma adesão à posição dos demais países do Golfo Pérsico - Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait, Omã e Emirados Árabes, já contrários ao grupo. A expectativa é de que a decisão de Doha encerre a disputa entre sauditas, árabes dos Emirados e catarianos pela influência sobre os países que atravessaram a Primavera Árabe. De acordo com especialistas em Oriente Médio, os dois grupos - sauditas e dos Emirados, de um lado e catarianos, de outro - vinham se enfrentando em "guerras por procuração", financiando milícias e movimentos armados. Esse conflito seria um dos combustíveis da emergência de extremistas nascidos após a eclosão da Primavera Árabe.

Na terça-feira, a diplomacia do Catar declarou o "pleno apoio" ao governo militar de Abdel Fattah al-Sissi, eleito presidente do Egito menos de um ano após o golpe militar que derrubou Mohamed Morsi, chefe de Estado eleito e representante da Irmandade Muçulmana. Segundo Doha, mais importante neste momento é apoiar "o programa do presidente Sissi", empenhado na "estabilidade e prosperidade do Egito".

A manifestação também representa uma mudança de posição - ao menos aparente - do emir do Catar, Tamim Ben Hamad Al-Thani. O emir era um apoiador da Irmandade Muçulmana e suas vertentes políticas, enquanto os demais países do Golfo se mostravam avessos ao "Islã político" representado pelo grupo.

Para especialistas na região, entretanto, a suposta mudança de posição do governo catariano deve ser avaliada com prudência. Para Mohamed Ali-Adraoui, do Instituto Universitário Europeu de Florença, na Itália, não há certeza de que o país tenha se unido à mesma posição diplomática da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes. "O Catar fez algumas concessões, mas não significa totalmente um alinhamento à posição dos demais países do Golfo", entende Ali-Adraoui, especialista em extremismo islâmico e autor de Do Golfo às Periferias.

"Na lógica de diminuição de tensão que vem prevalecendo, eles deram um passo, mas não diria que estão simplesmente alinhados em posição com a Arábia Saudita."

Para o pesquisador, a decisão do Catar reduz a tensão diplomática no Golfo, mas não apaga as diferenças das políticas externas dos países. "O objetivo saudita sempre foi transformar o Conselho de Cooperação do Golfo em uma espécie de 'Santa Aliança' conservadora, pró-americana e anti-Irã, hostil ao Islã político e a favor do status quo, enquanto Turquia, Síria, Irã e a própria Primavera Árabe exerceriam um papel contra o status quo", diz.

O reposicionamento do Catar em relação à Arábia Saudita e os Emirados também não representa, necessariamente, um aumento da influência dos EUA no Oriente Médio, onde já têm os sauditas como parceiros. "Os americanos não têm mais as cartas do jogo. Em parte, são dependentes da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes e do Catar para fazer pressão sobre certos grupos que agem na Líbia, na Síria, no Iêmen, até no Egito", diz Ali-Adraoui.

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