Caudilhos sofrem revés em províncias tradicionais

Menem perdeu eleição em La Rioja e Kirchner enfrenta tensão em Santa Cruz

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 00h00

Os caudilhos argentinos enfrentaram duros testes em seus tradicionais feudos políticos neste fim de semana. Nas eleições para governador realizadas ontem, o ex-presidente Carlos Menem (1989-99) foi derrotado em La Rioja, região em que exerceu liderança política por três décadas. Segundo boca-de-urna, Menem teria ficado em terceiro lugar, com apenas 22% dos votos. Dois candidatos aliados do presidente Néstor Kirchner estavam em primeiro e segundo lugar. O atual governador, Luis Beder Herrera, deve ser reeleito com 40% dos votos.Com a fama de "casanova argentino" abalada desde que foi traído pela mulher, a ex-miss Universo Cecilia Bolocco - que em junho passado foi flagrada ao lado de um playboy italiano -, e com o poder reduzido a três parlamentares, o outrora todo-poderoso Menem amargou ontem o pior momento de sua carreira política. O declínio de Menem começou em 1999, quando deixou a presidência depois de uma controversa década no poder. Em 2001, ficou cinco meses em prisão domiciliar por acusação de contrabando de armas. Em 2003, venceu o primeiro turno das eleições presidenciais. Mas diante da unanimidade das pesquisas indicando que seria derrotado por Néstor Kirchner no segundo turno, desistiu da etapa seguinte. Em 2005, foi candidato ao Senado por La Rioja. Mas só conseguiu o segundo lugar, atrás de Ángel Maza, que tinha sido seu discípulo, mas passara para o lado de Kirchner.Menem tentou nos últimos dias medidas desesperadas para evitar a derrota. Ele até mesmo apelou a seu filho ilegítimo, Carlos Nair Meza, que em julho se tornou celebridade nacional - e passou a aparecer em todos os programas de sucesso - depois de participar na versão argentina do programa Big Brother. Imediatamente, Menem reconheceu o filho que havia negado publicamente durante anos e passou a tentar usá-lo como cabo eleitoral.ATROPELAMENTOFora de La Rioja, o caudilhismo argentino também enfrentou problemas. Na sexta-feira, na Província de Santa Cruz, feudo do presidente Néstor Kirchner, o ex-subsecretário geral da presidência da República, Daniel Varizat, homem de confiança do presidente, atropelou 19 pessoas que participavam de uma manifestação contra a presença de Kirchner e sua mulher, a primeira-dama e senadora Cristina Fernández de Kirchner, em Río Gallegos. Cristina, que é a candidata do governo à sucessão do marido nas eleições presidenciais de outubro, fazia seu primeiro comício na província. Cinco das pessoas atropeladas estavam em estado grave ontem à tarde. O cenário agravou-se quando uma barraca de professores públicos - acampados para exigir maiores salários - foi atacada com coquetéis molotov. Em protesto, 3 mil pessoas quebraram as vidraças do palácio do governador.Os tumultos transformaram-se em mais um fator de tensão na campanha eleitoral de Cristina Kirchner, que ao longo do último mês e meio foi assolada por uma lista de escândalos de corrupção. Kirchner evita reprimir manifestações no restante do país, mas não hesita em dissipá-las quando são em Santa Cruz.Na província de San Luis, porém, o caudilhismo exibiu saúde. Ontem, o governador Alberto Rodríguez Saá foi reeleito, segundo boca-de-urna, com 90% dos votos. Os principais partidos da oposição sequer apresentaram candidatos. Rodríguez somente enfrentou os tímidos candidatos do Partido Socialista, que teria obtido 4% dos votos.Rodríguez e seu irmão Adolfo governam com mão de ferro San Luis desde a volta da democracia, em 1983. Ali aplicam um peculiar modelo que combina o caudilhismo com eficiência administrativa. Rodríguez tem uma personalidade considerada peculiar. Ele afirma que está em contato com os habitantes de um planeta chamado Xilium. Em sua fazenda, há estátuas que representam supostos amigos interplanetários. Ele também pinta quadros com paisagens "típicas" do planeta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.