Rodrigo Cavalheiro / Estadão
Ciclistas passam por grafiti indicando que revoltas no Chile não são pelo aumento de 30 pesos no metrô, mas pelos 30 anos de perdas e desigualdade Rodrigo Cavalheiro / Estadão

Ciclistas passam por grafiti indicando que revoltas no Chile não são pelo aumento de 30 pesos no metrô, mas pelos 30 anos de perdas e desigualdade Rodrigo Cavalheiro / Estadão

Causas e caras da revolta no Chile

Baixas aposentadorias, difícil acesso à educação, repressão e concessões insuficientes são os principais eixos identificados pelo 'Estado' entre os combustíveis para as manifestações no país

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Rodrigo Cavalheiro , Enviado Especial / Santiago

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Ciclistas passam por grafiti indicando que revoltas no Chile não são pelo aumento de 30 pesos no metrô, mas pelos 30 anos de perdas e desigualdade Rodrigo Cavalheiro / Estadão

Ao longo de 30 anos, desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), a classe média do Chile foi encorpada por quem saiu da miséria, mas não se considera beneficiada pelos bons indicadores macroeconômicos do país.

No "oásis" que é o país, para usar definição do presidente Sebastián Piñera, boa parte da população decidiu dizer que "tem sede". Está endividada e revoltada com a concentração de renda. O aumento de 30 pesos (R$ 0,16) no preço do metrô foi só o estopim para a onda de protestos. Não por acaso, um dos principais lemas da revolta é "Não são 30 pesos, são 30 anos".

Veja abaixo outros quatro eixos identificados pela reportagem do Estado entre os principais motivadores das manifestações:

Baixas aposentadorias

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As AFPs são administradoras privadas em que os chilenos são obrigados a depositar pelo menos 10% do salário, formando uma espécie de poupança que receberão parceladamente ao se aposentar. As AFPs se tornaram alvo central da fúria dos chilenos, tanto daqueles que começam agora a se aposentar quanto daqueles que ainda trabalharão durante anos. Há relatos frequentes de aposentados que passam a receber 20% do último salário. Essa distorção fez a expressão "No+AFPs" ser uma das mais vistas em cartazes e pichações.

Difícil acesso à educação

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Há ensino gratuito no Chile, mas apenas para os muito pobres. A classe média, incluindo seus integrantes mais humildes, precisa contrair empréstimos se quiser chegar a boas escolas ou ao ensino superior. Por isso, alguns analistas apontam uma espécie de apartheid educacional, com pouca margem de ascensão social. São frequentes casos de quem se endivida por décadas, sabendo que terá de pagar a dívida sem renegociação. Em uma mobilização em que predominam rostos jovens e adolescentes, esse é outro tema frequente nas pichações que tomam Santiago.

Repressão

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A popularidade de Sebastián Piñera chegou a 12% após o começo dos atos, o que sugere que muitos descontentes com sua presidência foram seus eleitores. Esse descontentamento que inclui seus ex-partidários se acentuou nos 10 dias em que o presidente manteve o país sob estado de exceção, com militares na rua. A própria ação dos policiais militares, apelidados de "paco", potencializou os protestos. A imprensa mundial deu especial atenção aos casos de manifestantes cegados por balas de borracha. Denúncias de abusos, com mortes e torturas, se multiplicam nos grafites chilenos.

Concessões insuficientes

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A forma como as manifestações se organizam, sem líderes claros, potencializa novas adesões e confunde o governo. As autoridades já recuaram no aumento do preço do metrô, reajustaram o salário mínimo, cortaram parte da remuneração dos políticos e reviram em uma reforma tributária. Ministros foram trocados. As concessões da presidência são insuficientes e, indiretamente, levam novas demandas às ruas. Elas podem ser simples, como o controle sobre o preço dos pedágios. Mas todas passam por um objetivo supremo, sobre o qual agora Sebastián Piñera aceita conversar: uma nova Constituição.

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Pichação pede fim das AFPs, administradoras privadas em que os chilenos são obrigados a depositar pelo menos 10% do salário Rodrigo Cavalheiro

'Nos acostumamos a chupar limões', diz manifestante chilena

Segundo funcionária pública de 56 anos, no país que foi governado por Pinochet, os protestos são algo comum

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago  , O Estado de S.Paulo

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Pichação pede fim das AFPs, administradoras privadas em que os chilenos são obrigados a depositar pelo menos 10% do salário Rodrigo Cavalheiro

Amargurada pela perspectiva de receber dentro de quatro anos uma aposentadoria de 150 mil pesos (R$ 823), a funcionária pública Eugenia López, de 56 anos, chamava atenção pela normalidade com que chupava um limão ao lado de amigos ontem no centro de Santiago. De uma dentada, arrancou uma ponta da fruta, cerca de um quarto dela, cuspiu no chão o pedaço, e explicou ao Estado por que estava ali. 

Eugenia ganha o equivalente a 500 mil pesos (R$ 2.745) por mês. Contribui com 80 mil (R$ 439) por mês para fazer sua poupança-aposentadoria. Como deve receber 150 mil (R$ 823) ao deixar de trabalhar, entrará na faixa de mulheres que receberá menos da metade de seu salário final. Manter um apartamento, por exemplo, custa cerca de 200 mil (R$ 1.098). 

“Venho sempre que posso às marchas. A idade não me permite vir a todas. O aumento no preço do metrô foi a chispa para toda essa revolta. Agora, o governo vai ter de ceder”, disse Eugenia, sentada à sombra no canteiro central da Avenida Libertador O’Higgins, a duas quadras do Palácio La Moneda. Ela esperava a hora de começar a marcha por uma mudança no sistema, hoje com base na contribuição individual obrigatória.

A lei atual não permite que o contribuinte saque todo o valor ao se aposentar. Eugenia, por exemplo, acumulou 30 milhões de pesos (R$ 164 mil), em 25 anos. Decisões judiciais recentes passaram discutir essa reivindicação de saque, o que também tem pressionado o governo.

Antigos hábitos

Eugenia mora sozinha, cuida de três gatas – Vênus, Sol e Frida –, não tem filhos e cuida da mãe, de 80 anos, cuja pensão é de 100 mil pesos (R$ 549). Após o início dos protestos, o governo de Sebastián Piñera acenou com um aumento que elevaria a pensão da mãe dela a 129 mil pesos (R$ 708) por mês. 

Eugenia ri ironicamente da oferta. Munida de uma panela azul cujo fundo foi furado “em parte pelo uso em manifestações, em parte por usá-la muito para aquecer o leite”, a chilena exibia ainda em seu “kit de sobrevivência” uma garrafa plástica com água e bicarbonato (que ela aplicava em pó diretamente no rosto). 

Em outra mão, mantinha o limão, degustado de vez em quando. “Estamos no país que foi governado por Augusto Pinochet. Então, protestos são algo comum. Estamos acostumados a chupar limões”, resume. 

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Marcha por melhores aposentadorias acaba em confronto em Santiago

Ruas próximas ao Palácio La Moneda tornam-se campo de batalha, em meio a uma nova marcha contra Piñera; polícia dispara bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e fere um observador do órgão de direitos humanos do governo 

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 22h16

As ruas próximas ao Palácio La Moneda transformaram-se em campo de batalha nesta terça-feira, 29, em meio a uma nova marcha multitudinária contra o governo de Sebastián Piñera. A polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra manifestantes que arrancavam com as mãos parte do calçamento para jogar pedras contra os “carabineros”. Um dos feridos pelas balas de borracha foi um observador do Instituto Nacional de Direitos Humanos, órgão do governo.

O ato desta noite em Santiago tinha como exigência melhores aposentadorias. O sistema chileno, que segue o modelo de capitalização individual, é um alvo permanente de tensão no país. Em linhas gerais, o trabalhador dedica 10% de seu salário para uma espécie de poupança. O valor começa a ser devolvido após a aposentadoria pelas chamadas AFPs, instituições privadas que neste período têm liberdade para aplicar o montante.

Hoje, milhares de pessoas, principalmente jovens, carregavam cartazes com a inscrição “NO+AFP”. Alguns usavam lenços com esse slogan sobre a boca e o nariz. Os trapos eram umedecidos com água e bicarbonato para atenuar os efeitos do gás lacrimogêneo e do spray de pimenta. Muitos comiam limões vendidos a 100 pesos (R$ 0,55), com a mesma finalidade.

Parte dos manifestantes tentou pela primeira vez marchar da Plaza Itália, centro da mobilização, até o palácio presidencial, a dois quilômetros. A polícia usou jatos d’água que levavam a multidão a correr pelas ruelas perpendiculares à Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, em que fica La Moneda. Houve registros de saque e um centro comercial foi incendiado.

“Temos muito o que mudar neste país. As AFP são uma delas”, disse o engenheiro civil Roberto Sánchez, de 48 anos, que fazia o vaivém em uma cadeira de rodas. “Estou aqui porque recebi um balaço da polícia nos anos 80, quando ainda governava Pinochet.”

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Parte da revolta chilena se deve ao fato de que algumas aposentadorias chegam a ser de 20% do que o trabalhador recebia ao se aposentar. As mulheres têm ainda mais razão para estarem insatisfeitas, já que recebem quase metade da pensão de um homem com carreira similar. Um trabalhador médio do sexo masculino recebe 52% de seu último salário, em média, no Chile. Uma mulher ganha 29%.

“Elas são mais prejudicadas, porque deixam de contribuir no período em que têm filhos e porque vivem mais anos em média”, afirma Eduardo Engel, professor da Universidade do Chile e diretor do centro de estudos Espaço Público. Engel é conhecido por ter uma das visões mais equilibradas em um tema altamente controvertido. 

Ele avalia que a revolta é alimentada principalmente por uma classe média que não foi contemplada por medidas mitigadoras dessas distorções, ações tomadas por Michelle Bachelet em seu último mandato. Essa ações permitiram que os 20% mais pobres, por exemplo, recebam 110% do salário que tinham ao se aposentar, graças a um bônus. A classe média não recebeu essa compensação. 

 

Os defensores do sistema de capitalização argumentam que as aposentadorias são insuficientes, porque as contribuições de 10% sobre salários são baixas. Ou seja, a solução seria aumentar o que é pago pela população.

O governo Piñera começou a planejar um aumento desta contribuição para 15%. A ideia serviu como detonador em um ambiente de alta insatisfação com um custo de vida de nível europeu, associado a serviços cuja qualidade até supera a de vizinhos latino-americanos, mas que são, em sua maior parte, privados. 

Engel não acredita que o modelo de repartição, adotado pela maior parte dos países, seja uma solução. “A repartição não é sustentável. Acredito que o governo vai recuar no que propôs e terá de ser mais generoso com a população”, avalia. O mais provável é que os 5% a mais de contribuição venham a ser bancados pelos empregadores.

Outro especialista no tema, Jorge Farah Ojeda, integrante da Escola de Trabalho Social da Universidade Católica, acredita que a insatisfação popular obrigará Piñera a renegociar sem abrir mão do sistema de capitalização, instalado no fim da década de 70, durante a ditadura. “Mais da metade dos chilenos recebe menos de 200 mil pesos (R$ 1.090), mas tem um custo de vida europeu. Deveriam receber pelo menos 70% do valor do último salário, mas, em média, se recebe 30%. É uma das razões para essa explosão”, explica. 

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Mudanças no Chile virão pela 'razão ou pela força', diz pichação Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Chilenos vivem sob 'apartheid' educacional, dizem analistas

Sistema torna difícil que estudantes de escolas públicas cheguem à universidade

Imagem Rodrigo Cavalheiro

Rodrigo Cavalheiro , Enviado Especial, Santiago

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Mudanças no Chile virão pela 'razão ou pela força', diz pichação Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Quando o blindado que lança jatos d’água e bombas de gás deu sinal de que abandonaria o vaivém pela Avenida Bernardo O’Higgins, onde fica o Palácio La Moneda, para entrar na estreita Rua San Francisco, no centro de Santiago, dezenas de jovens dispararam em sentido contrário pela viela.

O piloto do veículo militar recuou, prevendo que ficaria exposto a arremesso de pedras e utensílios domésticos das janelas dos prédios. Mas o estampido já tinha provocado quedas e deixado alguns pisoteados. Um manifestante chamava atenção por correr de olhos fechados.

Ignacio Pinto, de 24 anos, tentara minutos antes chegar ao palácio presidencial, a duas quadras dali. Durante confronto com “carabineros” que isolam com barreiras a sede de governo, foi atingido no rosto por gás pimenta. 

“Não sabia que substância havia no spray e lavei o rosto com água, o que piorou o efeito. Por isso não consigo ver”, disse ao Estado, sem enxergar o interlocutor. Esta região da cidade tornou-se um foco permanente de confronto, o que levou o hotel da esquina, o cinco estrelas Plaza San Francisco, a fechar. A uma quadra, uma unidade do Mercure foi incendiada.

“Não sou partidário da violência, mas entendo a revolta se uma geração ou duas foi exposta a um cenário em que não pode entrar na universidade”, afirmou o jovem, que deixou uma cidade pequena no extremo norte do país para viver na capital com a mãe e um irmão. 

A disparidade de qualidade entre ensino privado e público no Chile torna raro um estudante de escola pública chegar à universidade. Ignacio estudou em um escola particular que custava 250 mil pesos (R$ 1.345) por mês. Paga hoje 8 milhões de pesos (R$ 43 mil) por ano por seu curso na Universidade Andrés Bello, no qual acaba de entrar e do qual deve sair em seis anos. A universidade cancelou as aulas, que só devem ser retomadas em três semanas. 

Ignacio representa a face mais vista nas marchas, a dos jovens e adolescentes. Uma das exigências centrais das mobilizações – que começaram com estudantes secundaristas contrários ao aumento no metrô e logo se tornaram difusas – é que o sistema de ensino não tenha tanta disparidade entre público e privado.

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Quem não pode pagar o ensino universitário e recorre a créditos estudantis tem o empréstimo diretamente descontado do salário nos primeiros anos de carreira. Há relatos de que esses “primeiros anos” eventualmente se convertem em três décadas e são pagos como um financiamento qualquer.

Segundo Mario Waissbluth, diretor do centro de estudos Educación 2020, o sistema educacional chileno, embora apresente resultados superiores aos da média latino-americana – tem o melhor índice no último exame Pisa, de 2015 – apresenta como problema central a exclusão.

Ele credita o sucesso dos estudantes chilenos a políticas educativas que praticamente não variaram entre governos de esquerda e direita. Ele reconhece que o país conseguiu reduzir brutalmente a pobreza – de 43%, em 1990, passou para 10% –, mas lamenta o que considera um “apartheid” educacional.

“Temos três tipos de escolas no Chile. As públicas, que recebem 35% das matrículas. As privadas subvencionadas, que recebem 58% e abrigam a classe média. E as particulares pagas, que são caríssimas. Destas saem os futuros gestores, que casam com futuras gestoras e têm gestorezinhos.” 

Nesta última categoria, a dos mais favorecidos, está Ignacio. “Tenho sorte de minha avó poder pagar a mensalidade. Não precisaria estar aqui, mas minha família já foi pobre. Tento estudar em casa enquanto a universidade está fechada, mas não consigo me concentrar diante do que está ocorrendo.” 

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Protestos chilenos têm a mão de Hong Kong, não a de Cuba e Venezuela

Estudantes usam vídeos com dicas de asiáticos; não há sinal de apoio cubano ou venezuelano

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 06h30

Manifestantes chilenos estão aplicando macetes ensinados pelos protestos de Hong Kong. Vídeos em que os manifestantes asiáticos mostram como apagar uma bomba de gás lacrimogêneo, por exemplo, são transmitidos pelas redes sociais no Chile. O engenheiro Matías Pineda, de 26 anos, tem vários no celular. 

“Em Hong Kong eles são incomparavelmente mais organizados. Têm sinais para repassar capacetes e mantimentos. Se jogamos a bomba de gás de volta contra a polícia, o produto químico continua sendo expelido e nos afeta. É preciso apagá-la, com água e bicarbonato”, ensina. Outra tática é sair sempre em grupos e compartilhar a localização por sistemas como o WhatsApp. Assim, é possível saber, por exemplo, se todos chegaram em segurança em casa.

Não há evidência da participação de cubanos e venezuelanos na organização dos atos, como chegou a ser noticiado pela imprensa local. A promotoria negou essa informação. Segundo apurou o Estado entre os órgãos de segurança, esse rumor chegou a circular entre os militares e a informação chegou ao Palácio La Moneda, mas não foi confirmada. Entre os mais de 3 mil detidos até agora, 30 são venezuelanos. Há mais peruanos, por exemplo, entre os presos.

Também não há evidência de que os autores da depredação inicial no metrô de Santiago, no dia 18, tenham sido financiados por governos estrangeiros. A principal suspeita recai sobre grupos anarquistas e antissistema, que aproveitaram a manifestação iniciada por estudantes secundaristas contra o aumento na tarifa.

Ontem, novos confrontos ocorreram em Santiago, na Avenida Bernardo O’Higgins, que liga o centro da manifestação, na Praça Itália, ao Palácio La Moneda. O ato em defesa no sistema de ensino foi pacífico até as 19 horas, quando blindados avançaram sobre cerca de 500 manifestantes com jatos de água e bombas de gás.

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Cartazes em Santiago denunciam a repressão violenta da polícia às manifestações Rodrigo Cavalheiro/Estadão

‘Perdi um olho, mas voltarei a protestar’, diz manifestante chileno

Por dia, 9 pessoas sofrem danos graves à visão em manifestações no Chile; causa principal são balas de borracha

Imagem Rodrigo Cavalheiro

Rodrigo Cavalheiro , Enviado Especial / Santiago

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Cartazes em Santiago denunciam a repressão violenta da polícia às manifestações Rodrigo Cavalheiro/Estadão

SANTIAGO - Vendedor em uma loja de brinquedos, o chileno Jesús Emerson Llancan teve o olho esquerdo destruído por uma bala de borracha no dia 25, na marcha que reuniu mais de um milhão em Santiago. A esfera perfurou a vista e se alojou na cabeça. Após 30 minutos de cirurgia, a bolinha foi removida. Seu olho também.

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No hospital El Salvador, centro oftalmológico de referência, ele se surpreendeu ao encontrar pelo menos 50 pessoas na mesma situação. Nos 20 primeiros dias de protesto, foram em média 9 casos diários de ferimentos graves em olhos. Nos primeiros 15 dias, a média chegou a ser de 12 casos diários.

“As autoridades foram avisadas sobre o número alarmante e não tomaram providência”, denuncia o médico Enrique Morales, enquanto exibe numa planilha uma comparação com números de danos à vista de manifestantes na repressão a protestos na França, no ano passado, na Caxemira, em 2010, e entre israelenses e palestinos. “Em nenhum desses houve algo parecido ao que ocorreu no Chile”, diz.

A frequência e a semelhança na forma como manifestantes como Jesús têm ficado cegos levou médicos, advogados e os próprios feridos a acusarem os “carabineros” de estar disparando diretamente na cabeça dos manifestantes. “Vi claramente quando o policial levantou a arma e mirou na minha cara, a uns 10 ou 15 metros. Depois de me acertar, disparou outra vez nas minhas costas”, diz Jesús, sentado na cozinha de sua casa de alvenaria no bairro de Puente Alto, região pobre, a uma hora de metrô e ônibus do centro de Santiago.

Jesús se encaixa no perfil dos atingidos nos olhos pela repressão: homem (85% dos casos), de 30 anos, baleado em Santiago. Faz também parte dos 61% que ficaram cegos de pelo menos um olho. E dos nove casos em que foi necessário extrair o globo ocular. Ele estava em um grupo que enfrentava a polícia com pedras perto da Praça Itália, centro dos protestos, quando foi atingido. Na mobilização, a maior até agora, o país estava havia uma semana em estado de exceção, com o Exército e tanques nas ruas. 

Ao declarar então que o país estava “em guerra”, o presidente Sebastián Piñera potencializou a revolta. “A declaração nos irritou muito. Somos um povo inteligente. O governo não se dá conta de que as pessoas estão mais cultas. A informação está mais perto de cada pessoa”, argumenta.

A manifestação em que Jesús ficou cego foi decisiva para que os militares voltassem à caserna e Piñera fizesse uma série de concessões. A primeira foi rever o aumento de 30 pesos (R$ 0,16) no metrô, o reajuste que detonou a revolta. Piñera ainda aumentou o salário mínimo de 301 mil pesos (R$ 1,6 mil) para 350 mil (R$ 1,8 mil). Recuou em uma renúncia fiscal de R$ 800 milhões por ano, principal ponto de sua reforma tributária. Prometeu rever o sistema privado de aposentadorias e, por fim, admitiu mudar a Constituição para aumentar o controle do Estado sobre as concessões. Nada adiantou.

Beneficiado por todos esses recuos, Jesús analisa por que as medidas são insuficientes. “A bomba estourou neste governo, mas a situação é ruim há muito tempo. Não é só Piñera ou Michelle Bachelet, Ricardo Lagos ou Eduardo Frei. Todos esses governos não foram capazes de fazer uma mudança. Com a explosão social, da noite para o dia começaram a aparecer leis a favor da população. Porque não fizeram há 30 anos?”, questiona. Contra a vontade da mãe, ele pretende voltar aos protestos, assim que os enjoos se forem e a noção de distância retornar.

A depiladora Patricia Vidal Otarola, de 49 anos, não pôde ir ao hospital na noite do protesto que deixou o filho parcialmente cego. “Havia toque de recolher. Ninguém podia sair à noite”, lembra a mulher que, vestida com uma camiseta de metaleira, insiste em oferecer almoço a quem a visita a família.

Patricia vive com Jesús e uma filha de 11 anos. Contorce o rosto ao ser questionada sobre a vontade do filho de voltar aos atos, ainda que com a promessa de se cuidar mais. “Foi mais duro para ela que para mim. A perda da vista não afetou minha capacidade de chorar. Mas procurei fazer isso sempre escondido, para ela não ver”, diz Jesús.

Afeito a crianças, ele considera a violência justificável “em resposta à ação policial”. Garante que não participa de grupos violentos organizados. Mas gostaria de ser aceito por anarquistas - principais suspeitos de depredar mais de 40 estações de metrô no dia 18, ato que desencadeou a repressão. “Acho que eles são muito fechados”, lamenta.

“Sou um caso entre mais de 100. Há gente morta, há gente desaparecida. Estou dentro das estatísticas. Perdi um olho, mas tive sorte. A bala poderia ter afetado o cérebro ou perfurado meu pescoço”, diz o chileno, que deixou o ensino médio com formação técnica em eletricidade, estudou um ano de publicidade e se realizou profissionalmente vendendo “barbies e carrinhos” em um shopping center. Contratado por mês, pelo salário mínimo, ele trabalhava de segunda a sábado, de 11 horas às 21 horas. Não tem ilusão de voltar a ser chamado.

Em seu quarto, um ambiente de parede azul mal-acabada e cama de casal, livros de filosofia estão misturados a brinquedos. Destacam-se miniaturas dos Simpsons numa parede e um boneco de pelúcia do Chaves jogado num canto. Jesús deixou o hospital com um olho de vidro, colocado par a manter a musculatura da região. Ele precisará comprar uma prótese que, segundo os médicos, acompanhará o movimento do olho direito e deixará sua cegueira imperceptível aos interlocutores. “Agora vou ver o que quero ver. Não vou ter o segundo olho, que nos obriga a ver tudo. Vou ver o que realmente me importa. E quero ver uma mudança.”

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‘Pior que tortura’, diz advogada que busca vítimas de tiros no Chile

Paz Becerra, advogada especializada em cobrar indenizações do Estado para quem sofreu violações de direitos humanos, diz que disparos no rosto são tática para intimidar manifestantes

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Santiago

10 de novembro de 2019 | 07h00

SANTIAGO - A advogada Paz Becerra perambula em hospitais de Santiago em busca de vítimas de abuso policial, especialmente alvos de disparos no rosto nos protestos do Chile. Argumenta que elas, em geral, não procuram ajuda jurídica porque estão traumatizadas. 

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Paz está convencida, a partir de 20 depoimentos que obteve pessoalmente de vítimas, de que a polícia adotou os disparos contra a cabeça para intimidar os manifestantes. “Os disparos estão sendo feitos com a arma na horizontal, a menos de 30 metros”, afirma a advogada.

Na sexta-feira, o Ministério Público informou ter aberto 1.089 investigações de abusos por violência institucional. Há 20 mortos, 3 mil detidos e 24 denúncias de tortura.

Paz considera a cegueira resultante dos disparos pior que tortura. “Uma marca de tortura se apaga com o tempo. Um dano na vista difunde o terror”, compara. Um cliente dela que perdeu a vista é filho de um torturado no regime militar. Outro tem ainda uma bala de borracha na cabeça, que médicos consideram arriscado retirar.

Há dois tipos de bala de borracha no Chile. Algumas têm o diâmetro de uma tampa de garrafa. Outras têm o tamanho de uma bola de gude. Na quinta-feira, um tribunal aceitou uma denúncia feita por advogados contra o presidente Sebastián Piñera por crimes contra a humanidade. Ele é acusado, em última instância, de corresponsabilidade em mortes, desaparecimentos e torturas denunciadas desde o dia 18. Piñera respondeu que “não tem nada a esconder”.

“Cada vez que recebemos uma denúncia séria e responsável, investigamos. Mas há muita informação falsa circulando nas redes sociais”, respondeu o diretor do corpo de Carabineros, general Mario Rozas Córdova.

Especializada em cobrar indenizações do Estado para quem sofreu violações de direitos humanos da época da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), Paz garante não ser paga pelas vítimas de hoje. “Graças aos casos da ditadura, posso fazer esse trabalho sem cobrar. É um paradoxo. O pagamento recebido com aquelas vítimas me ajuda a ajudar essas”, afirma.

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Chilenos entre os saques e a repressão

Uso do Exército durante estado de emergência alimentou adesão a protestos contra Piñera

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2019 | 09h00

SANTIAGO - A fachada impecável da pizzaria em que trabalha o garçom e estudante de engenharia Brayan Jara, bem em frente à Praça Itália, epicentro dos protestos no Chile, contrasta com a das lojas vizinhas, pichadas, saqueada e depredadas, quando não incendiadas. A explicação para sorte tão diferente está na afinidade de seu restaurante com a revolta. 

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Na vitrine do Bella Italia, onde uma pizza média, do tamanho de um prato, sai por 4,5 mil pesos (R$ 24), foi colado um cartaz em que se lê “turno ético”, algo como “funcionamento responsável”. 

Aos manifestantes mais agressivos, o estabelecimento argumenta que serve produtos saudáveis e faz preços promocionais. Funciona como uma espécie de salvo conduto para uma das formas de violência hoje no Chile, a contra o patrimônio.

A outra é a das forças de segurança, que respondem às pedras arremessadas contra blindados com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e disparos de balas de borracha. Por isso, parte dos manifestantes usa capacetes e óculos de proteção.

Ainda assim, dezenas ficaram parcialmente cegos. Mais de 140 sofreram ferimentos nos olhos e pelo menos 24 perderam completamente a visão em um olho, segundo o hospital de oftalmologia Del Salvador. Isso levou o centro médico a pedir aos “carabineros” que mudem seu protocolo.

Jara fecha às 15 horas o Bella Italia para encorpar os protestos que viu crescer, especialmente depois do estado de emergência decretado pelo presidente Sebastián Piñera, após dezenas de estações de metrô serem incendiadas, no dia 18, em protesto contra o aumento equivalente a R$ 0,16. 

A medida de emergência de Piñera durou até o dia 27. A presença de militares nas ruas levou à maior manifestação no Chile, no dia 25, com 1,2 milhão de pessoas, a mais expressiva desde o fim da ditadura (1973- 1990). A popularidade de Piñera caiu para 14%.

“Essa é uma geração que está à frente dos atos e não viveu com o medo de morrer por pensar diferente. E há coisas que dão mais medo do que a polícia. Se aposentar no Chile, por exemplo”, afirma Jara. 

Ele ganha 300 mil pesos (R$ 1.600), pouco menos que o salário mínimo, e conta com outros 300 mil pesos em gorjeta. Ao andar só de bicicleta, ele evita gastar outros 60 mil pesos (R$ 324) em transporte. A maior parte dos estabelecimentos vizinhos à pizzaria soldou barras sobre as cortinas de ferro retráteis, em uma tentativa de evitar saques – e desistiu de funcionar.

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Grafiti pede a substituição da Constituição do Chile, herdada da ditadura de August Pinochet Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Protestos no Chile fazem Piñera recuar em ponto-chave de reforma tributária

Governo chileno suspende corte de impostos para grandes empresas e recorre a partidos de oposição para tentar conter revolta nas ruas, mas movimento difuso e ausência de líderes nas manifestações torna mais difícil trabalho do presidente 

Imagem Rodrigo Cavalheiro

Rodrigo Cavalheiro , Enviado Especial, Santiago

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Grafiti pede a substituição da Constituição do Chile, herdada da ditadura de August Pinochet Rodrigo Cavalheiro|Estadão

Durante meses, a equipe econômica de Sebastián Piñera insistiu em um item considerado essencial na reforma tributária em estudo no país, uma renúncia fiscal para empresas, considerada chave para atrair investidores e gerar empregos. Nos dois últimos dias – pressionado por protestos que já não mobilizam multidões, mas são regulares há duas semanas –, o governo chileno jogou a tolha. 

A chamada retribuição tributária é um mecanismo pelo qual os empresários pagariam menos impostos – um valor estimado em US$ 800 milhões por ano. As empresas chilenas desembolsariam 27% de imposto, mas o dono que desejasse retirar parte desses ganhos não pagaria outros 35%, como impõe a lei. O sistema integrado permitiria que ele pagasse apenas a diferença ao fazer o saque, ou 8%. A proposta já havia passado pela Câmara, mas enfrentava resistência no Senado. 

Os protestos, que exigem maior ação do Estado para melhoria de aposentadorias, escolas e transporte, já haviam feito Piñera anunciar um pacote de US$ 1,2 bilhão. Uma das concessões foi o aumento do salário mínimo de 301 mil pesos (R$ 1,6 mil) para 350 mil (R$ 1,8 mil).

“Essas concessões foram importantes. Houve também uma interrupção na alta anual de 3,5% nos pedágios, mas nada disso parece ser suficiente. A população pensa ‘se foi feito assim rapidamente, por que não fizeram antes?’”, diz o cientista político Raul Sohr. 

O governo Piñera ainda tentará manter a reintegração para pequenas e médias empresas. Este sistema funcionava até 2014, quando foi desativado pela socialista Michelle Bachelet. Como ele acabava onerando mais as pessoas físicas que as jurídicas, seus opositores argumentam que estimulava a sonegação. Empresários costumavam colocar bens móveis e imóveis, e até compras de supermercado, em nome da empresa.

O recuo do governo começou após uma reunião na quinta-feira com líderes de partidos de oposição, a maior parte deles de esquerda. No encontro, o governo foi pressionado também a organizar uma reforma constitucional, promessa que Bachelet, que em seu último governo teve a popularidade afetada após denúncias de corrupção contra seu filho, não conseguiu cumprir.

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“A reintegração se desfaz nos termos que foi planejada pelo governo. Vamos revisar o caso das pequenas e médias empresas”, anunciou Ignacio Briones, ministro da Fazenda, ao sair da reunião.

                                         

A decisão provocou críticas de especialistas envolvidos na tramitação. “Acho ruim que o governo ceda neste ponto, pois essa nem era uma reivindicação dos manifestantes. Piñera ganhou a eleição justamente porque prometeu simplificar o sistema. A reforma de Bachelet afetou o crescimento. Muitos chilenos deixaram de investir e venderam suas empresas a estrangeiros”, afirma o advogado tributarista Christian Aste, professor da Universidade Católica, que defendeu a proposta de Piñera no Senado. “Toda essa confusão é resultado do baixo crescimento deixado por Bachelet. Os protestos aumentarão ainda mais o número de desempregados.”          

Pressionado, Piñera tem recorrido aos partidos da oposição para tentar fazer com que as manifestações se retraiam. Embora as reivindicações exijam maior controle estatal sobre concessões privadas de serviços como aposentadoria, transportes, água e energia, os líderes de esquerda não têm ascendência sobre os manifestantes, que não levam bandeiras partidárias. Uma das reivindicações é justamente a redução do salário dos políticos.

 

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Protestos no Chile levam Piñera a cancelar cúpula do clima e fórum do Pacífico

Ao cancelar importantes encontros internacionais, presidente chileno diz que prioridade é restabelecer a ordem pública

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 11h24
Atualizado 31 de outubro de 2019 | 06h02

SANTIAGO -  Pressionado por grandes protestos que têm terminado em confronto e depredações, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, desistiu na manhã desta quarta-feira, 30, de receber duas importantes cúpulas internacionais, uma econômica e outra ambiental, que ocorreriam este ano. Ele alegou que a prioridade agora é "restabelecer a ordem pública".

Enquanto o líder conservador lamentava a decisão, milhares de chilenos a ignoravam e voltavam a se reunir na Plaza Itália, a dois quilômetros do Palácio de la Moneda. 

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Houve novos confrontos entre parte dos manifestantes que tentava chegar à sede presidencial e veículos blindados. Durante toda a tarde, os sons ouvidos nas quadras próximas do palácio foram os de sineres de bombeiros ou da polícia, de explosões de bombas de gás, de pedras atingindo os blindados e dos manifestantes chamando de assassinos os "pacos", apelido dos policiais militares. Há 19 mortes, 5 delas atribuídas às forças de segurança.

Desde o dia 18, após um protesto contra o aumento no preço do metrô seguido de uma depredação simultânea de mais de 40 estações, Piñera tem tomado medidas contrárias a seu programa de governo para tentar arrefecer a mobilização.

A suspensão do encontro da  Cooperação Econômica Ásia-Pacífico  (Apec) , que reuniria líderes mundiais nos dias 16 e 17 de novembro, e da  Conferência do Clima da ONU, a COP-25, prevista para 2 a 13 de dezembro, foi o recuo de maior repercussão externa. 

"É uma decisão dura, afinal 73% de nossas exportações vão para a Apec. A COP também era fundamental para lutar contra mudanças climáticas. Elas não ocorrerão mais no Chile, mas nosso trabalho para ter uma economia mais aberta será mantido", afirmou Piñera em um comunicado, demonstrando abatimento.

Suas concessões não têm diminuído a mobilização, que varia de acordo com o tema central da convocação, feita pelas redes sociais e sem líder conhecido. As desta quarta-feira, 30, focadas em pedágios (há oito praças para se cruzar Santiago), foram menores que as de terça-feira, por melhoria nas aposentadorias.

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Para especialistas, a diversidade de demandas e a falta de um negociador do lado oposto são justamente fatores que fizeram a estratégia de Piñera fracassar até agora. Após dizer que estava em guerra, o presidente tem feito concessões em sequência.

Primeiro, ele anunciou um pacote de emergência cujo custo será de US$ 1,2 bilhão. Depois, fez uma série de mudanças no gabinete, trocas criticadas pelos manifestantes por não trazerem ministros de outra corrente política. Alguns nem foram demitidos, só trocaram de pasta.

Na reunião da Apec, a Casa Branca esperava que o presidente Donald Trump assinasse com o chinês Xi Jinping o primeiro protocolo para um acordo comercial que colocaria fim à disputa entre os dois países. 

"A suspensão gera um dano enorme à imagem do país. A guerra comercial entre EUA e China poderia ter um fim aqui. Em contrapartida, seria muito difícil manter as cúpulas. Ter Trump por aqui poderia gerar mais protestos. É um revés para Piñera", avalia o analista político Juan Pablo Toro, da consultoria Athena Lab e professor da Pontifícia Universidade Católica do Chile. 

De acordo com o analista, na marcha que reuniu mais de um milhão de pessoas na sexta-feira havia mais de 100 exigências. "Com quem se negocia? Isso pode terminar se houver esgotamento, ou se a oposição de esquerda, que começou incentivando, recuar."

Piñera disse ontem não descartar "mudanças estruturais", o que foi interpretado como uma abertura à convocação de uma Constituinte, promessa que Michelle Bachelet, sua antecessora, não conseguiu cumprir.

Na avaliação de Eugenio Guzmán, professor da Universidad del Desarrollo, governo e oposição ainda têm diagnósticos distintos para a revolta. "A oposição pede nova Constituição, enquanto o governo aposta em reformas econômicas que aliviem a situação da população. Há uma insatisfação estrutural com os políticos e seus salários, com um crescimento econômico regular do qual muitos foram excluídos. É uma revolta que poderia ter sido detonada em um governo de esquerda ou de direita", afirma Guzmán.

Brasil retirou candidatura para sediar COP

Em novembro do ano passado, o Brasil retirou sua candidatura para sediar o evento, que foi, na sequência, abraçado pelo governo chileno. O governo alegou como motivo “dificuldades orçamentárias” e o processo de transição presidencial. Após ser eleito, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a decisão do Brasil de não sediar a conferência. “Abrimos mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU, pois custaria mais de R$ 500 milhões ao Brasil”, escreveu em seu Twitter em dezembro.

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