Cauteloso, Obama suspende negociações

À espera de um sinal mais claro sobre que rumo Pyongyang deve tomar, EUA reforçam aliança com Seul e prometem monitorar sucessão

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h01

Os Estados Unidos colocaram de molho as negociações com a Coreia do Norte sobre a suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio e o envio de ajuda alimentar enquanto espera um sinal mais claro sobre o rumo do país sob a nova liderança de Kim Jong-un. Os resultados dessas conversações seriam divulgados na próxima semana e serviriam como base para a retomada do processo de negociação entre seis partes, que envolvem também a Coreia do Sul, o Japão, a China, os EUA e a Rússia.

Com a morte do líder norte-coreano, Kim Jong-il, no sábado, os EUA reforçaram, cautelosos, seu compromisso com a segurança da Coreia do Sul e do Japão e somaram-se ao coro de aliados ansiosos por uma transição pacífica do regime de Pyongyang.

Menos de duas horas depois do anúncio oficial da morte do ditador, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conversou por telefone com seu colega sul-coreano, Lee Myung-bak, e tratou da maior cooperação entre ambas as equipes de segurança nacional.

O compromisso dos EUA com seus aliados e vizinhos da Coreia do Norte foi sublinhado pela secretária de Estado, Hillary Clinton, ao final de um encontro com o ministro de Relações Exteriores do Japão, Koichiro Gemba. "Compartilhamos o interesse comum em uma transição pacífica e estável na Coreia do Norte, assim como na garantia de paz e de estabilidade regional. Reiteramos nossa esperança em melhorar as relações com o povo da Coreia do Norte", afirmou Hillary.

Obama não se manifestou diretamente sobre a questão. Seu porta-voz, Jay Carney, insistiu que ainda é "muito cedo" para se julgar o novo governo norte-coreano, mas disse esperar que o novo líder cumpra o compromisso nuclear e dê passos rumo à paz. Durante o dia de ontem, o governo Obama resistiu à emissão de um comunicado oficial sobre a morte de Kim Jong-il - a manifestação de condolências, como fez a China, seria uma infâmia, até mesmo a de desejo de mudanças no regime pareceria inoportuna.

"Julgaremos a Coreia do Norte e seu governo conforme seus compromissos de desnuclearização", disse Carney.

O programa de ajuda à Coreia do Norte envolveria o envio de 240 mil toneladas de alimentos ricos em proteína e vitaminas por 12 meses. Significaria a retomada dessa assistência dos EUA ao país, suspensa quando a Coreia do Norte testou mísseis capazes de atingir territórios americanos no Oceano Pacífico, em 2009.

A contrapartida seria o abandono, por Pyongyang, de seus testes nucleares e de mísseis balísticos, a autorização para novas visitas dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a retomada das conversações com a Coreia do Sul.

Em princípio, a declaração formal do fim da Guerra da Coreia (1950-1953) continuaria a ser apenas uma demanda de Pyongyang não atendida. Os EUA mantêm 28,5 mil militares em bases sul-coreanas, sempre em prontidão, e mais 38 mil no Japão.

Especialistas do Conselho para Relações Exteriores, centro de estudos influente no governo americano, consideram este um "período de riscos". Segundo Scott Snyder, diretor do Programa de Política EUA-Coreia, há muito pouco conhecimento sobre as ideias e projetos de Kim Jong-un, o sucessor do ditador morto. Além disso, o poder mostra-se dividido com outros parentes e a cúpula militar. O fato de o herdeiro de Kim Jong-il ter estudado na Suíça não o habilitaria a uma posição mais branda ou à mudança no regime.

"Ele deverá ser cooptado pelo sistema em vez de seguir uma nova direção", afirmou Snyder. "Provocações, como o lançamento de mísseis logo depois do anúncio da morte de Kim Jong-il, devem continuar enquanto seu filho não se consolidar como líder. Mas a Coreia do Norte está ciente do risco de uma escalada de violência e de retaliações internacionais", explicou Paul Stares, diretor do Centro para Ação Preventiva.

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