Cavallo poderá integrar o governo De la Rúa

O ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, poderia se tornar um "primeiro-ministro virtual" do governo do presidente Fernando de la Rúa. Recebido hoje à tarde na residência presidencial de Olivos, Cavallo foi sondado pelo governo para ocupar o cargo de chefe do gabinete de ministros. Até o início da noite, Cavallo, que se reuniu com De la Rúa por mais de cinco horas, ainda não havia anunciado oficialmente sua resposta e condições. Com este cargo, o ex-ministro comandaria a recomposição da base política de De la Rúa, utilizaria seu prestígio internacional para recuperar a confiança dos mercados externos diante de mais uma nova ameaça de default, e tentaria reativar a economia argentina que está em recessão há mais de dois anos e meio. "Prima donna" segundo seus inimigos, "Salvador da Pátria" para admiradores e amigos, ninguém duvida de que Cavallo possa ter um desempenho e um poder quase "presidencial" na chefia do gabinete. Com o desembarque de Cavallo no gabinete, De la Rúa - considerado um dos presidentes mais fracos da História argentina - se arriscaria a perder grandes parcelas de seu poder em troca de salvar o governo. O ministro da Economia, Ricardo López Murphy, permaneceria em seu cargo, mas ficaria subordinado a Cavallo.Baixas - A convocação do ex-ministro deveu-se à grave crise política que atinge o país desde sexta-feira, quando, em protesto contra o pacote de ajuste do ministro López Murphy, diversos integrantes do gabinete De la Rúa renunciaram a seus cargos, deixando o presidente isolado com seu círculo mais íntimo de colaboradores. Estas renúncias eram previstas antes do pacote, mas o governo De la Rúa nada fez para impedi-las. Renunciaram dois ministros da União Cívica Radical (UCR), o partido de De la Rúa. Além disso, saíram do gabinete presidencial um ministro, o secretário-geral da presidência e vários secretários e sub-secretários da Frepaso, partido de centro-esquerda que junto com a UCR forma a coalizão de governo "Aliança". Estas renúncias, somadas à resistência ao pacote de ajuste declarada pelo Partido Justicialista (mais conhecido como Peronista), da oposição, sindicatos, estudantes e outras organizações sociais, causam temores de que as medidas de López Murphy naufraguem antes de serem aplicadas. Para evitar o colapso de seu governo e a suspensão de pagamentos da dívida externa, De la Rúa estaria planejando uma espécie de "Pacto de La Moncloa" (pacto entre as diversas forças políticas da Espanha nos anos 70) em versão argentina para retirar o país da profunda crise política em que está mergulhado. Esta seria a primeira vez na História da Argentina que se formaria um gabinete de união nacional. Semana difícil - Hoje o governo viveu uma corrida contra o relógio, já que se calculava que os mercados reagirão mal amanhãse permanecerem as dúvidas sobre o apoio às medidas de López Murphy. O panorama se complicará pela greve geral planejada para esta quarta-feira pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) dissidente e os diversos protestos de estudantes e professores, que começaram neste domingo e que se alastrarão pelas próximas semanas. Segundo o governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, que desponta como líder do peronismo, "com este panorama de greves de trabalhadores e protestos de estudantes e aposentados, ninguém vai se arriscar a investir na Argentina. O pacote de López Murphy não vai reativar a economia". Com um pacto nacional, além de Cavallo, De la Rúa convocaria os peronistas para integrar um gabinete de união nacional. O governador Ruckauf estaria disposto a apoiar Cavallo, com o qual sempre teve boas relações políticas. A idéia especulada era a de colocar peronistas em cargos secundários do gabinete. A designação de Cavallo teria o apoio da Frepaso, já que o presidente desse partido, o ex-vice-presidente Carlos "Chacho" Álvarez, aceita o ex-ministro como uma figura que poderia recompor o governo. Após sair da reunião com De la Rúa, Cavallo foi encontrar-se com Álvarez, para negociar sua participação no governo. Resistência - No entanto, um grande setor da UCR de De la Rúa poderia não concordar com a chegada de Cavallo. Esse é o caso do setor da UCR controlado pelo ex-presidente Raúl Alfonsín, velho inimigo de Cavallo. O "pai da conversibilidade econômica", como é conhecido Cavallo, lidera o partido Ação Pela República (AR), que possui 12 deputados no Congresso Nacional. Desde sua criação em 1997, o partido serviu como fiel da balança no Parlamento. Cavallo disputou a presidência do país nas eleições de 1999, ficando com 10% dos votos. No ano passado, o ex-ministro candidatou-se à prefeitura de Buenos Aires. No entanto, Cavallo sofreu uma pesada derrota que o fez perder o controle diante das câmaras de TV. A carreira política do ex-ministro parecia sepultada, até que a crise política dos últimos meses agravou o panorama econômico, e Cavallo passou a ser encarado mais uma vez como o "Salvador da Pátria".

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