Cavallo trata de ampliar apoio político

Com profundas olheiras, depois de ter varado a noite em negociações, o ex-ministro Domingo Cavallo retornou depois de cinco anos de ausência ao Ministério da Economia, para dali, mais uma vez, comandar os destinos econômicos do país.Cavallo apresentou-se nesta terça-feira às 9:30 ao lado de seu antecessor, Ricardo López Murphy, e anunciou que pedia "poderes especiais" ao Congresso para poder "lutar contra a evasão e a corrupção", o que vai permitir, segundo o ministro, melhorar o déficit fiscal em US$ 3 bilhões. "Com estes poderes pretendo conseguir uma rápida e vigorosa reativação da economia", afirmou.Com este anúncio, o novo ministro deixava claro que pretendia ultrapassar em US$ 1 bilhão o corte orçamentário pretendido por seu antecessor López Murphy, que na sexta-feira havia anunciado um corte de US$ 2 bilhões no Orçamento Nacional.Cavallo afirmou que não pretendia - ao contrário de López Murphy - fazer cortes na Educação, nem eliminar os subsídios aos combustíveis na Patagônia, nem os fundos especiais para o cultivo do tabaco nas empobrecidas províncias do norte do país.Conhecido por seu estilo de confronto, Cavallo começou sua gestão ameaçando o Congresso: se os parlamentares não lhe concederem os poderes que requer, os cortes orçamentários ultrapassarão US$ 3 bilhões e "poderão chegar a US$ 4 bilhões, US$ 6 bilhões ou até US$ 10 bilhões", argumentou. Cavallo disse que "os parlamentares serão os culpados disso"."Pai" da conversibilidade econômica, que estabeleceu a paridade um a um entre o peso e o dólar, Cavallo disse que "a conversibilidade vai ser mantida para sempre". A promessa de Cavallo ocorre poucos dias antes de sua "filha" dileta cumprir dez anos de idade, o que ocorrerá no dia 1º de abril. O novo ministro também prometeu que "não haverá surpresas fiscais nem cambiais".A seu lado, López Murphy, que durou exatamente duas semanas no cargo, tentava esconder sua expressão de derrota do rosto e lamentou-se junto à imprensa de que a opinião pública não tenha prestado atenção aos aspectos técnicos de seu plano e que todos especulassem sobre sua falta de apoio político.Cavallo está se movimentando para não morrer politicamente como López Murphy. Nesta terça à noite reuniu-se com as lideranças do Partido Justicialista (mais conhecido como "Peronista"), da oposição.Os peronistas recusaram o pedido de Cavallo por "poderes especiais", mas lhe deram um sinal positivo ao avisar que estão dispostos a realizar um "plantão" sem precedentes na história do Congresso para votar as leis de emergência.Esse partido possui 99 deputados de um total de 257 cadeiras na Câmara e é a principal força da oposição. Além disso, controla confortavelmente o Senado.Dentro da coalizão de governo "Aliança" o ministro conta com um apoio formal. A "Aliança" é composta pela UCR, partido do presidente Fernando De la Rúa e a centro-esquerdista Frepaso, do ex-vice-presidente Carlos "Chacho" Álvarez, e conta com um total de 114 deputados.No entanto, esse apoio formal não será sólido, já que a UCR não proporcionará um sustento totalmente confiável, pois o setor vinculado ao ex-presidente Raúl Alfonsín, atualmente presidente do partido, possui reticências à postura neoliberal de Cavallo. A UCR tem 82 deputados.O Frepaso, partido de centro-esquerda, apóia Cavallo, e em sua posse deu um sinal altamente simbólico: estava presente o frepasista prefeito de Buenos Aires, Aníbal Ibarra, que derrotou Cavallo no ano passado na disputa da prefeitura.No entanto, a Frepaso lamentou não ter integrante algum no novo gabinete De la Rúa, o que levanta suspeitas de que o apoio de hoje poderá ser oscilante amanhã. Os líderes da Frepaso mantém silêncio sobre o tema. A Frepaso conta com 32 deputados. Mas um terço dos deputados anunciou que não adere ao apoio.Desta forma, Cavallo, que possui 12 deputados em seu partido Ação pela República, contaria com um total de pelo menos 116 deputados, com o que lhe faltaria uma dúzia a mais para poder atingir a maioria simples.Mesmo atingindo esta maioria, precisará dos peronistas, que controlam o Senado.Para o analista político Ricardo Rouvier, Cavallo é "a última carta do governo". De la Rúa sabe disso.Testemunhas afirmam que na hora do abraço após a posse, o presidente disse um "obrigado" ao ouvido do "Salvador da Pátria".A Confederação Geral do Trabalho (CGT) oficial anunciou que não participará da greve geral convocada pela sua rival, a CGT dissidente. O secretário-geral da CGT oficial, Rodolfo Daer, disse que desistiram da paralisação depois de uma reunião com Cavallo.Segundo Daer, Cavallo explicou que as medidas de López Murphy não possuíam mais vigência, motivo suficiente para abandonar o protesto.No entanto, a CGT dissidente não desistiu de protestar e realizará nesta quarta-feira uma greve geral. Os professores públicos e universitários continuarão seus protestos e planejam paralisar as principais avenidas de Buenos Aires com piquetes.

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