Cavallo vai preso por contrabando; crime é inafiançável

Nesta quarta-feira de manhã, o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, deixou de residir no elegante prédio das esquinas da Rua Ortiz de Campos com a Avenida Libertador para passar a ocupar uma austera cela no quartel Buenos Aires da Gendarmería Nacional, um corpo policial de características militares que se encarrega da vigilância das fronteiras e derepressão às manifestações. O motivo desta mudança inesperada deresidência foi a ordem de detenção emitida pelo juiz federalJulio Speroni, que o acusa de "grave" contrabando de armaspara o Equador e a Croácia, entre 1991 e 1995.Cavallo era o único integrante do gabinete do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) que havia assinado os decretos de envio das armas e que ainda não havia sido preso. No ano passado, estiveram presos, por diferentes períodos de tempo, o próprio ex-presidente Carlos Menem; o ex-ministro da Defesa Ermán González; o ex-chefe do Exército general Martín Balza; e o ex-cunhado do ex-presidente Emir Yoma. Todos eles já saíram da prisão.No total, ao longo de um período de quatro anos, o governo argentino contrabandeou armas e munições do exército para a Croácia, na época em que estava sob embargo de armas aplicado pela ONU. Em 1995, o envio foi para o Equador, país que estava em guerra com o Peru pela cordilheira do Condor. O agravante é que a Argentina era um dos avalistas do plano de paz entre os dois países feito pelo Grupo do Rio.Dos US$ 100 milhões conseguidos pelo governo com a operação de contrabando, US$ 60 milhões desapareceram misteriosamente. Nototal, foram contrabandeadas 6.500 toneladas de armas.O crime de "grave" contrabando é inafiançável na Argentina,e Cavallo, se fosse condenado, poderia ficar entre quatro e dozeanos na prisão.No momento, o ex-ministro está em prisão preventiva.Instalado desde hoje na Gendarmería, Cavallo terá uma meia dúzia de camaradas de prisão, com os quais enfrentará alguns paradoxos da vida moderna. Por um lado, terá que fazer fila para escovar os dentes e disputar o papel higiênico, já que existe um único - e exíguo - banheiro. No entanto, terá conexão individual de Internet e TV a cabo em sua cela, que mede nove metros quadrados."Tutti buona gente" não é o termo mais adequado para definir os camaradas de prisão que Cavallo terá daqui para a frente. Ali estão o ex-juiz Hernán Bernasconi, envolvido em um escândalo de criação de provas falsas a meados dos anos 80, além do ex-secretário da Segurança Enrique Mathov, responsável pelo massacre ocorrido na Praça de Mayo, em dezembro passado, quando foram mortos pela polícia cinco manifestantes que protestavam contra o presidente Fernando de la Rúa.Os assessores de "Mingo" (diminutivo de seu primeiro nome, "Domingo"), como é chamado por seus amigos, ou "El maldito pelado" ("O maldito careca"), como é denominado pelos argentinos que sofreram as conseqüências de sua errática política econômica, afirmam que seu chefe está sofrendo "perseguição política". Seu advogado, Rafael O´Gormann afirmou que a prisão de Cavallo "é um disparate".Ricardo Monner Sans, advogado que iniciou as denúncias do contrabando de armas a meados dos anos 90, afirmou que com a prisão de Cavallo, "reaparece a esperança" de que o caso seja esclarecido.O governo do presidente Eduardo Duhalde somente fez uma lacônica comunicação sobre o affaire Cavallo: "Não faremos declarações", disse o porta-voz presidencial, Eduardo Amadeo. Duhalde é velho amigo do ex-ministro, e desde que tomou posse, embora tenha criticado a política econômica do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa, esquivou ataques ao autor dela Cavallo.O senador Antonio Cafiero, do Partido Justicialista (Peronista), afirmou que a prisão de Cavallo indica que "não há mais impunidade na Argentina". A deputada Elisa Carrió, líder do Argentinos por uma República de Iguais (ARI), um dos principais partidos da oposição, disse que sentia uma "enorme alegria" pela prisão do ex-ministro.Figura PolêmicaCavallo foi uma figura crucial na vida política e econômica argentina nos últimos 20 anos. Há exatamente duas décadas tornava-se o presidente do Banco Central argentino, em plena Ditadura Militar (1976-83). Em sua curta estadia no BC, Cavallo implementou a polêmica transferência dasdívidas das empresas privadas para o Estado, aumentandosignificativamente a dívida pública externa argentina.Em 1989, Cavallo começou a torpedear nos mercados internacionais o governo do então presidente Raúl Alfonsín. O ataque, na verdade, era uma vendetta, já que Alfonsín havia rechaçado ofertas de Cavallo para aplicar uma nova política econômica. A hiper-inflação, somado à campanha feita por Cavallo no exterior para desacreditar o governo, acabaram causando aqueda de Alfonsín seis meses antes do fim de seu mandato.Em 1991, o então presidente Carlos Menem o convocou para eliminar o fantasma da hiper-inflação. Cavallo criou a conversibilidade econômica, com a paridade um a um entre o peso e o dólar. A inflação acabou, mas o desemprego disparou. Mesmo assim, Cavallo começou a crescer politicamente, e em 1995 já se falava que poderia ser o sucessor de Menem.O ciúme passou a tomar conta de "El Turco", como é conhecido o ex-presidente, que demitiu Cavallo a meados de 1996. A partir de então, o ex-ministro criou um partido político, o Ação pela República e começou a denunciar casos de corrupção de seu antigo chefe.No ano 2002, Cavallo candidatou-se à prefeitura de Buenos Aires, eleição na qual sofreu uma significativa derrota. Tudo indicava que o polêmico economista ficaria fora do cenário político, mas o agravamento da crise econômica fez que o então presidente Fernando De la Rúa o chamasse para ocupar o ministério da Economia.Cavallo tomou posse em março do ano passado. A partir dali desafiou os mercados, os partidos de oposição, teve idas e vindas em seus planos econômicos, colocou a Argentina em rota de colisão com o Brasil e finalmente renunciou em dezembro de 2001 depois de uma imensa manifestação popular nas ruas de BuenosAires.Dali para cá, sua esposa utiliza uma peruca preta e óculos escuros quando sai para as compras, por temor a agressões populares. O calvo ex-ministro preferiu não colocar uma peruca, e passou a viver escondido em seu apartamento, enquanto preparava um livro atacando os que os criticaram durante sua última gestão. Na prisão, Cavallo terá tempo de sobra paraconcluir sua terceira obra.

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