Cego é ''''super-herói'''' da polícia belga

Audição apurada de deficiente visual é nova arma para combater terrorismo, tráfico de drogas e crime organizado

Dan Bilefsky, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Sacha Van Loo não é um policial comum. Em vez de uma arma, ele carrega uma bengala branca e, em uma escuta telefônica, é capaz de distinguir se o suspeito está dirigindo um Peugeot, um Honda ou uma Mercedes pelo barulho do motor. Van Loo é uma das mais recentes armas na luta global contra o terrorismo, tráfico de drogas e crime organizado: cego, ele é considerado uma espécie de Sherlock Holmes, cuja deficiência lhe permite captar pistas que os detetives que enxergam não percebem."A cegueira me obrigou a desenvolver meus outros sentidos e meu poder como detetive está na minha audição", disse Van Loo em sua sala na sede da Polícia Federal Belga, onde na parede ele exibe orgulhosamente um pedaço de papel crivado de balas de uma recente sessão de tiro ao alvo. "O fato de ser cego também exige o reconhecimento das suas limitações", acrescentou com um sorriso, revelando que, durante a prática de tiro, um instrutor com visão o ajudou guiando suas mãos "para garantir que ninguém ficasse ferido".Van Loo, de 36 anos, homem franzino e cego de nascença, é um dos seis policiais com deficiência visual de uma unidade da polícia belga pioneira especializada em transcrever e analisar gravações feitas para investigações criminais. Lingüista talentoso que fala sete idiomas, entre elas o russo, o árabe e o sérvio, Van Loo lamenta não ter autorização da polícia para portar uma arma nem fazer detenções. A audição de Van Loo é tão apurada que Paul Van Thielen, diretor da Polícia Federal belga, comparou sua impecável capacidade auditiva aos poderes de super-heróis. Quando a polícia faz escuta telefônica de um suspeito de terrorismo dando um telefonema, Van Loo é capaz de identificar o número discado instantaneamente só de ouvir os tons das teclas do telefone. Ao ouvir uma voz ecoando de uma parede, ele consegue deduzir se o suspeito está falando do salão de um aeroporto ou de um restaurante lotado.Depois de a polícia ter passado horas tentando identificar um traficante de drogas numa gravação com má qualidade, os detetives concluíram que o suspeito era marroquino, mas Van Loo - que diz ter uma "biblioteca de sotaques" na cabeça - ouviu a gravação e deduziu que o homem era albanês. Quando o suspeito foi preso, foi confirmada a dedução de Van Loo. "Precisei treinar meu ouvido para saber onde estou", disse o policial. "É uma questão de sobrevivência para atravessar a rua ou entrar no trem. Algumas pessoas podem ficar perdidas quando há barulho de fundo, mas como cego preciso dividir minha audição em diferentes canais. São esses detalhes que podem fazer a diferença entre solucionar ou não um crime."A unidade policial de cegos, que começou a funcionar em junho, teve seu início quando o diretor Van Thielen ouviu falar de um policial cego na Holanda e estava buscando maneiras para melhorar a comunidade. Van Thielen esperava que uma pessoa cega pudesse demonstrar ser mais apta do que as que enxergam ao ouvir gravações e interpretá-las.A polícia belga também reconhece que policiais cegos poderão ser particularmente valiosos em investigações de contraterrorismo porque as gravações de espionagem são, na maioria das vezes, abafadas pelo barulho de fundo, o que requer um ouvido altamente treinado para conseguir distinguir as vozes. Além de instalar elevadores com botões ativados por voz na delegacia de polícia, a instituição designou para cada policial com deficiência visual um computador especial equipado com um teclado em Braille e um sistema que traduz imagens na tela em sons.Quando transcreve uma gravação de escuta telefônica, Van Loo usa fones de ouvido e corre o dedo indicador sobre uma longa linha de caracteres em Braille na parte inferior do teclado. Quando sai da delegacia, carrega um dispositivo de posicionamento global compacto com uma voz que o direciona para seu destino, rua por rua. "Ser cego não fácil", disse Van Loo. "Mais trágico é que um policial cego ainda seja visto como uma exceção."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.