Diane Bondareff/ AP Images
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Celebração de ano novo na Times Square será retomada para pessoas vacinadas

Depois de uma celebração reduzida no ano passado, o famoso e gélido evento retornará com'força total', afirmou o prefeito Bill de Blasio

Ashley Wong e Dana Rubinstein, The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 20h00

NOVA YORK - Enquanto 2021 vai chegando ao fim, a cidade de Nova York pretende entrar em 2022 com festividades destinadas a sinalizar seu renascimento pós-pandêmico: inúmeras almas valentes voltarão a cobrir a Times Square, enfrentando o frio, em meio à multidão e os cordões policiais, para assistir a bola despencar à meia-noite, marcando a chegada do ano novo.

Depois de uma celebração reduzida, no ano passado, o famoso e gélido evento retornará com “força total”, afirmou o prefeito Bill de Blasio na terça-feira. Este será o último ato de Blasio à frente da cidade de Nova York, após oito anos no cargo, e servirá como prelúdio de sua possível tentativa de disputar o governo do Estado no próximo ano. 

“Queremos receber bem todas aquelas centenas de milhares de pessoas, mas todas terão de estar vacinadas”, afirmou De Blasio. “Faça parte dessa multidão, faça parte dessa alegria, faça parte de um momento histórico, enquanto a cidade de Nova York prova absolutamente para o mundo que estamos 100% de volta.” 

A celebração de ano novo ocorrerá quatro meses após um raio ter encerrado antes da hora um “concerto de regresso” que também havia sido projetado para significar o retorno da cidade. Comprovantes de vacinação também foram exigidos para o comparecimento naquele evento, que reuniu milhares de pessoas no Central Park.

A celebração de ano novo será um quebra-cabeças logístico — e talvez até filosófico — para os policiais da cidade, que se opuseram à obrigatoriedade de vacinação para os servidores públicos aplicada pelo prefeito. A polícia terá de lidar não apenas com o controle da multidão, mas também certificar-se de que as pessoas no evento estejam vacinadas. 

“Acatamos a posição do Departamento de Polícia em questões operacionais como esta, que afeta pessoas comuns circulando nas ruas”, afirmou John Nuthall, porta-voz da Police Benevolent Association, sindicato que representa os policiais da cidade.

Na Times Square, as notícias de que a queda da bola será novamente aberta ao público foi recebida com entusiasmo, pelo menos entre os turistas. Para Johnnica Watson, de 47 anos, vinda do Alabama, assistir ao evento pela TV não seria suficiente: quando soube da notícia, na manhã da terça-feira, ela decidiu imediatamente marcar uma outra viagem para a cidade. 

“Estou muito feliz pelas pessoas que vivem aqui em Nova York, mas ainda mais feliz por nós, que não vivemos aqui”, afirmou Watson. “No Alabama não temos a bola que cai.” 

Pessoas que não puderam se vacinar por causa de algum tipo de deficiência terão de mostrar testes negativos para coronavírus realizados até 72 horas do evento. Crianças com menos de 5 anos, que ainda não são qualificáveis para se vacinar, terão de estar acompanhadas por um adulto vacinado. O uso de máscaras será exigido de quem não estiver vacinado, afirmou Tom Harris, presidente da Times Square Alliance.

Questionado em uma entrevista coletiva sobre o motivo por que a vacinação será obrigatória para o comparecimento à celebração na Times Square, quando não é exigida em muitos outros eventos ao ar livre em Nova York, De Blasio respondeu que uma celebração lotada de gente de todo o país e do mundo, que dura horas, exige mais precauções. 

“Quando estamos ao ar livre junto com centenas de milhares de pessoas aglomeradas por horas a fio, é uma realidade diferente”, afirmou De Blasio. “Estamos falando de muita gente, muito junta, por longos períodos de tempo. É sensato proteger todos.” 

O anúncio foi feito enquanto De Blasio prepara o terreno para o prefeito eleito Eric Adams assumir como seu sucessor à frente da cidade de Nova York, e a queda da bola coincidirá com seu último dia no cargo. Isso deixará qualquer possível repercussão negativa da celebração nas mãos de Adams, que tomará posse como prefeito em 1.º de janeiro. Um porta-voz de Adams não respondeu a um pedido de comentário. 

Vários especialistas em saúde pública alertaram que a natureza em constante mudança do coronavírus dificulta prever o número de casos de covid-19 na cidade até o fim do ano. E evidentemente, muitos dos que se acotovelam para assistir a bola cair não vivem em Nova York.

Até a terça-feira, 74,6% dos novaiorquinos haviam tomado pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus, e 68,2% tinham completado o ciclo vacinal. O número de casos de covid-19 na cidade aumentou recentemente e permanece muito elevado, mas os índices de hospitalização permaneceram baixos.

O médico Ashish K. Jha, diretor da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, qualificou como “muito razoáveis” os planos do prefeito De Blasio para a celebração do ano-novo.

“As vacinas fazem os eventos ao ar livre, que já apresentam riscos bem baixos, terem risco baixíssimo”, afirmou Jha.

Ele citou o festival musical Lollapalooza realizado no verão recente em Chicago como prova disso. 

“Foi um evento incrivelmente lotado, num contexto em que todos por lá tinham de estar vacinados ou portar um teste negativo”, afirmou Jha. “Temos prova de que houve pouca ou nenhuma infestação.” 

Mas Jha aconselhou De Blasio a considerar uma cláusula de salvaguarda, caso os números da covid-19 aumentem acentuadamente nos dias anteriores à festa de ano novo, exigindo que a retomada da celebração seja adiada. 

Alguns especialistas apontaram que o risco não se atém à Times Square. As pessoas terão de estar atentas também ao que acontece antes e depois da bola cair, enquanto estiverem entrando e saindo dos bares e restaurante da região, tentando se aquecer ou usando o banheiro. Mas, ao contrário de muitos lugares, a cidade de Nova York exige que frequentadores de bares e restaurantes apresentem prova de vacinação. 

Algumas da principais restrições sobre turistas estrangeiros foram aliviadas recentemente pelos Estados Unidos, então a queda da bola provavelmente atrairá viajantes de todas as partes do mundo, reunindo pessoas que vivem em regiões com índices baixos e altos de infecção por coronavírus. 

Denis Nash, professor de epidemiologia da Escola de Graduação em Saúde Pública e Políticas Sanitárias da Universidade Municipal de Nova York, afirmou que, apesar da exigência de vacinação significar que o risco de transmissão no evento seria amplamente reduzido, turistas que pretendem comparecer à queda da bola deveriam considerar que podem levar o vírus para suas cidades. 

“Haverá gente de lugares que não terão muitos casos de covid naquele momento”, afirmou Nash. “Precisamos pensar a respeito de contaminações, surtos e disseminações não apenas no nosso quintal, mas em todos os lugares.” 

Dadas as diretrizes de segurança, comparecer à queda da bola não seria uma escolha irracional, afirmou Nash. Mas as pessoas deverão levar em conta seus graus de conforto pessoal e quanto risco podem representar para as outras, afirmou ele, aconselhando quem comparecer à festa a usar máscara o tempo inteiro.    

“Estar num lugar com vista para o edifício onde a bola cai deixa a gente muito feliz, sabendo que a celebração vai voltar”, afirmou Dolan. “Vai ser congelante como sempre, estou certo, mas adoramos tradições e mal podemos esperar o retorno desta.”

Outras grandes cidades do mundo cancelaram celebrações de ano novo. Em outubro, o prefeito de Londres afirmou que a queima de fogos de fim de ano seria cancelada e substituída por um outro tipo de celebração; e Amsterdã cancelou esta semana sua celebração, em resposta a uma elevação no número de casos de covid-19. 

Munique também cancelou seu mercado natalino. “A situação dramática dos nossos hospitais e os números crescentes de infecção não me permitiram outra escolha”, afirmou a repórteres o prefeito da cidade, Dieter Reiter, na terça-feira. 

Mas Jha afirmou que faz sentido para a cidade de Nova York seguir adiante. “Temos de voltar a fazer as coisas que importam realmente”, afirmou Jha. “O ano-novo na Times Square é uma celebração icônica nos EUA, e acho que estamos num ponto da pandemia em que podemos fazê-la de maneira segura.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO 

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